Cristiano Fetter

Trekking Pole: vale a pena usar?

“Correr é correr”.

Sim, “correr é correr”.

Mas, se eu pedir para que você diga o que há de comum entre Usain Bolt, Eliud Kipchoge e Kilian Jornet, provavelmente vai responder: são os melhores corredores do mundo em suas modalidades.

Certo? Certo.

Contudo, são esportes diferentes. Treinamentos diferentes. Equipamentos diferentes.

Foto: Pixabay

Foto: Pixabay

Ninguém vai correrá uma maratona com uma sapatilha com “pregos” , ninguém irá disputar uma corrida de 100m com mochila de hidratação, tampouco alguém vai disputar uma prova em alta montanha somente com calção e regata.

O que quero dizer é que cada esporte tem suas características. E, o trail running é um esporte extremamente complexo pela quantidade infinita de variáveis que se pode ter.

Dentro disso, uma dúvida recorrente de quem inicia no trail é se deve ou não usar os Trekking Poles. Todavia não é uma dúvida somente de iniciantes, diversos atletas experientes discutem e pedem opiniões sobre esse equipamento.

Alguns tem vergonha de utilizar, podendo mostrar uma “fraqueza” (pelo menos já vi e ouvi isso mais de uma vez).

Quando iniciei no trail, realmente não utilizava, eram outros tempos e o acesso era muito restrito. O fato é que, quando estava em meio a uma prova de 80Km e não conseguia parar em pé, busquei um galho que servisse de apoio. Com este ponto de apoio, consegui me manter em pé e correr com mais segurança.

Completei a prova com o “cajado” na mão. Na volta para casa, já parava em uma loja e comprava meu primeiro par de trekking poles.

No inicio, é estranho, a musculatura reage diferente, os braços trabalham muito. Entretanto, a força das pernas é preservada. Consigo ter mais pontos de apoio para subir e segurança para descer nas partes mais acidentadas… A partir deste dia, nunca mais corri sem.

“Trekking pole eu uso até para ir à padaria”. Essa é uma frase do Togumi, técnico da seleção Brasileira de Trail Running.

E esta é a frase que utilizo para todos os alunos que me perguntam se devem utilizar o Trekking Pole.

Se você observar, a grande maioria dos grandes corredores de Trail Running do mundo utilizam os trekking poles. Os ganhadores de 90% das provas do UTMB dos últimos anos utiliza os trekking poles. Será que é por acaso?

Evidente que não.

Observando isso, fui buscar na literatura científica o que há sobre trekking pole. Queria saber se o que sentia em minhas pernas era placebo ou algo real. Queria entender o motivo de grandes nomes utilizarem, será que era porque estão acostumados a esquiar?

Enfim, como disse no inicio deste texto, o trail é um esporte extremamente complexo. Estudá-lo é uma tarefa maior ainda.

Nesta busca achei alguns artigos, vários sobre trekking, mas sobre trail running, realmente a literatura é falha, ainda.

Então vamos ao que interessa, não valeria a pena ficar discutindo os métodos e as estatísticas utilizadas em cada estudo. Respondendo a pergunta do título: vale a pena usar?

A resposta é SIM.

Agora não é mais o atleta e treinador Fetter que diz, é a ciência (no final do texto está a referência, caso você queira se aprofundar mais).

O que descobri foi:

Reduz o impacto significativamente nas descidas
Ou seja, protege a musculatura onde ela é mais exigida. Lembrando que quando a musculatura entra em fadiga, a câimbra aparece e quando isso acontece, você não vai mais conseguir performar. Este fator é fundamental quando se fala em longas distâncias ou grandes variações altimétricas. Esse achado pode ser explicado por um motivo simples, os bastões te oferecem mais pontos de apoio, reduzindo a carga na musculatura das pernas e te deixando mais seguro e equilibrado nas sessões mais difíceis.

Melhora a propulsão no PLANO
Pois é, isso eu realmente não esperava encontrar, mas foi o que o artigo citado encontrou como melhora significativa. Talvez, pelo fato do bastão ajudar a dar uma cadência mais rítmica com mais pontos de apoio, liberando a tensão das pernas e economizando uma preciosa energia.

Diminui a carga nas pernas durante as subidas
Todos que utilizam o bastão com uma certa frequência, relatam o quanto ele ajuda nas subidas. Lembrando que nas subidas, além do nosso corpo ter que fazer força para frente, ele faz força para cima contra a gravidade. Parece besteira citar isso, mas é exatamente por isso que o bastão acaba sendo necessário. Pois ele coloca carga nos braços e retira um pouco da força das pernas a cada passo.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Sempre defendo que o atleta de Trail Running deve pensar, antes de qualquer coisa, em gastar menos energia. Tudo que ele puder fazer, deve.

Os trekking poles estão aí para isso. Economizar energia.

É óbvio que ele deve ser muito bem treinado, pois nas primeiras vezes isso pode ser um empecilho e acabar atrapalhando mais do que ajudando. 

Recomendo fortemente que você tente. Leve em seus treinos, teste na subida, na descida, no plano. Observe como seu corpo reage, veja vídeos dos melhores do mundo, vá a workshops, peça ajuda aos mais experientes.

Enfim, tente.

Até hoje, não conheci ninguém que se adaptou o Trekking Pole e depois abandonou.

Deixe um comentário sobre sua experiência com os trekking poles, te ajudam? Te atrapalham? Comente.

Qualquer dúvida podem mandar um inbox pelo meu Instagram @CristianoFetterCoach

Referencia: Daviaux, Y., Hintzy, F., Samozino, P., & Horvais, N. (2013). Effect of using poles on foot–ground kinetics during stance phase in trail running. European journal of sport science13(5), 468-474.

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Cristiano Fetter
Mestre em Ciências do Movimento Humano - UFRGS Sócio Ultra Funcional Place Founder Raiz Trail