

O maratonista Khalid Khannouchi (KK), ex-recordista mundial e um dos maiores da história se aposenta aos 40 anos. Ex-recordista mundial na Maratona, um dos 5 na história a repetir o feito, 4 vezes vencedor em Chicago, 1 em Londres, atual recordista mundial nos 20km e chegou a ter 4 das 5 melhores marcas de todos os tempos. Biografia completa dele no site da IAAF aqui.
Há uma interessante retrospectiva da carreira do marroquino naturalizado americano feita pelo sempre ácido Philip Hersh na seção Globetrotting do Chicago Tribune aqui e também talvez um pouco mais técnica no Lets Run aqui.
Antes de virar uma estrela na distância, KK sofreu como imigrante marroquino nos EUA depois de brigar com a federação de seu país de origem. Talvez sejam os EUA o país que melhor recebe estrangeiros no mundo e foi lá tentando fazer a vida na América que ele virou um astro em seu esporte. Decidiu correr pelo novo país, apesar de não ter convencido o próprio Hersh que antes da fama de KK havia escrito este belo texto aqui em 1998 contando detalhes saborosos do início de carreira do então marroquino.
Mas quantos são unanimidades o tempo todo? Nem KK. Hersh pegou pesado contra o atleta por faltar “guts” nem compromisso em determinados momentos. Para Hersh, KK não tinha o que sobra em outros atletas, como pode ler neste texto aqui.
Khannouchi é humano como mostram alguns pequenos deslizes, mas correndo os mais de 42km, foi alguém mais do que fantástico. Fará falta.
Domingo agora corri uma prova bem charmosa, a Monaco Run. Largamos de Ventimiglia (Itália), passando pela França e terminamos no Principado de Mônaco. Três países em uma prova de 23,8 km. O mais curioso é que havia anos atrás uma maratona em Ventimiglia e outra em Mônaco. Mas pelo visto elas não se sustentaram.
Se o mercado brasileiro tem tanta dificuldade em
criar uma maratona duradoura e de sucesso, talvez seja o caso de aprender um
pouco com um mercado tão mais maduro e ver se ha espaço para cidades menores
investirem em provas cujo atrativo seja justamente esse caráter itinerário de
uma cidade (ou estado) para outra.
Foi publicado o ótimo relatório anual de maratonas americanas (Running USA's Annual Marathon Report) para o ano de 2011. Ele nos dá uma grande ideia do mercado de corrida porque avalia o que se passou no maior e mais maduro mercado do mundo. A diferença é que o que se passa no mercado de Meia Maratona pode ser bem aplicado para o resto do mundo, já a maratona envolve muitas questões culturais e preferências locais. Mas não deixa de ser interessante olhar para os números e ver o imenso tamanho do mercado deles. Principais pontos:
- O crescimento foi o menor dos últimos anos. Desaceleração? Temos que esperar mais um ano para confirmar. A saber: houve crescimento de 2,2% no número de concluintes (sempre de 2010 para 2011). Pra que saiba, o crescimento acumulado desde 2000 é de 47%!
- 518.000 concluintes apenas em 2011! O Brasil precisaria de mais de meio século para chegar a esse número;
- A divisão por sexo e idade permanece inalterada há anos. Maioria de homens (59%) e adultos (35-44 anos) como 32% dos concluintes;
- Há cerca de 720 maratonas nos EUA. 94 delas com mais 1.000 concluintes;
Abaixo as 15 maiores Maratonas dos EUA em 2011 (número de concluintes).
1 ING New York City 47.133 (maior da história)
2. Bank of America Chicago 35.755
3. Boston 23.913
4. Marine Corps 21.042
5. Honda LA 19.902
6. Honolulu 19.102
7. Walt Disney World 13.551
8. Philadelphia 10.267
9. Medtronic Twin Cities 8.534
10. Portland 8.461
11. Rock ‘n’ Roll San Diego 8.290
12. Chevron Houston 6.919
13. Grandma’s 6.337
14. Nike Women’s 6.108
15. San Francisco 5.989
O treinador Aulus Sellmer, sócio da 4any1 (SP), escreveu um lúcido artigo na revista Contra-Relógio de Fevereiro. Ele ficou espantado com “orientações” de treinamento para maratona que encontrou na Disney que defendia treinos de 30 minutos 2 vezes por semanas e longos não muito maiores que 1 hora. O autor? O renomado americano Jeff Galloway.
Não consigo pensar diferente dele. Hoje a pessoa começa a correr e já quer encarar a Meia do Rio da Globo em Setembro já olhando uma maratona internacional no ano seguinte. O cara compra uma bicicleta (ou bike) e já pede informações sobre o Ironman, um “short distance” parece que já não se caracteriza como esporte para essas pessoas.
Qual a razão de encarar uma maratona andando, se arrastando, comprometendo a corrida (e os joelhos) nos anos seguintes? Se houvesse critérios para definir quando algo virou moda e não estilo, essas seriam algumas delas.
Não conheço a existência de alguma mensuração da cobertura internacional das principais maratonas no mundo, mas apostaria todas as minhas fichas como sendo:
#1: Nova Iorque
#2 a #5: (fora de ordem) Chicago, Boston, Berlim e Londres
#6: Paris
Então não deixa de ser sintomático da capacidade dos EUA em promover eventos quando temos que a seletiva olímpica americana para os Jogos de Londres será provavelmente uma das maratonas de maior cobertura deste ano. Se levarmos em conta ainda que eles possuem 5 medalhas (2 ouro, 2 pratas e 1 bronze), tamanha cobertura passa a ser ainda mais desproporcional.
O modelo americano é disparado o mais bem sucedido. O índice no feminino relativamente alto (2h46) permite que se classifiquem muitas mulheres (225). Já o masculino é mais apertado (2h19), mas ainda assim permite uma prova com 100 competidores, garantindo uma maratona de muito alto nível. A premiação é de muito respeito: U$50mil ao vencedor (U$40mil ao vice e U$30mil para o 3º) com um bônus de U$20mil entregues depois apenas quando o atleta correr a prova olímpica.
Tudo isso por si só já permitiria as condições pra fazer do evento um espetáculo esportivo. Mas outra qualidade deles é o de ativar bem o evento. Então ao longo das últimas semanas se repetem as histórias e reportagens de superação entre as americanas amadoras (sem chances reais) para alcançar o índice da seletiva (2h46).
Pra facilitar o acompanhamento do público, o percurso será em 3 voltas (como em Londres), exatamente no dia anterior à Maratona de Houston, uma das maiores do país, ou seja, local onde no final de semana do evento estará repleta de praticantes e fãs do esporte. Ou seja, não tem como não ser um evento de sucesso.
Não conheço muito bem o modelo adotado por outros países, mas nenhum tem hoje as condições de fazer da seletiva um acontecimento como fazem muito bem os americanos. Você não acha que seria o caso de tentarmos copiar parte dessa ideia?
Site oficial do evento: http://www.houston2012.com/
Pelos números podemos concluir que a Maratona é um fenômeno fortemente americano e europeu. É acompanhado pelos japoneses que melhoram os números asiáticos. Nós, latino-americanos, somos meros coadjuvantes no cenário global e temos o consolo de saber que os africanos apesar de ganhar as provas são nulos nas estatísticas. Alguns números:
- Os EUA (#1) têm 2,5x mais concluintes que o #2, o Japão. Esses 2 somados têm mais concluintes que do #3 (Alemanha) ao #30 (Irlanda do Norte) também somados;
- O Brasil é o 1º da América do Sul na 24ª posição seguido de perto pelos hermanos (#25).
Enquanto EUA e Europa têm mais de 400.000 concluintes cada, a América do Sul tem humildes 25.000. Somando-se temos que ASICS é a #1 globalmente, seguida pela adidas, a número 2. Brooks e Nike seguem um pouco mais de longe. Vêm depois (fora de ordem) Mizuno, New Balance, Salomon, K-Swiss, Saucony, Puma e Spira que têm todas números “de respeito”.
Voltando aos números sulamericanos:
(Marca; Número de Provas, Concluintes, Porcentagem do total de corredores)
adidas 6 13793 53,6%
Olympikus 1 2741 10,7%
Saucony 1 400 1,6%
Salomon 1 391 1,5%
New Balance 1 352 1,4%
ASICS 1 187 0,7%
N/C 4 7871 30,6%
link deste post | comentários (2) | comentar divulgar
Os EUA possuem quase 410.000 pessoas em Maratonas com mais de 300 concluintes ou com marca esportiva patrocinadora! É um número impressionante! Há um total de 102 provas espalhadas pelo país e, destas, há 8 com mais de 10.000 concluintes (número à toda a Europa), 6 com mais de 20.000 e 35 provas maiores que nossa maior maratona (São Paulo). Impressionante.
Nos EUA mais da metade das provas estão sem marcas esportivas (outra característica que deve ser particularidade do mercado). Mas outros números chamam atenção:
- A Brooks depois que passou a ser parceira da Rock n´ Roll Marathon ganhou um peso considerável. A parceria é relativamente nova, então é interessante ficar de olho;
- A ASICS mantém sua força global, juntando-se com os números europeus é disparada a marca #1 em maratonas;
- Nike e adidas entram em poucas provas nos EUA, mas nas grandes.
- Mizuno, Salomon, PUMA, Diadora e Pearl Izumi inexplicavelmente 100% fora. Não entendi.
(Marca; Número de Provas, Concluintes, Porcentagem do total de corredores)
Brooks 17 68.327 16,8%
ASICS 8 61.225 15,0%
New Balance 5 13.098 3,2%
adidas 3 45.065 11,1%
Nike 3 42.004 10,3%
The North Face 3 1.414 0,3%
Spira 2 17.187 4,2%
Under Armour 2 9.652 2,4%
Saucony 2 6.130 1,5%
K-Swiss 1 22.580 5,5%
KARHU 1 2.155 0,5%
Reebok 1 303 0,1%
montrail 1 58 0,0%
N/C 53 118.576 29,1%
link deste post | comentários (1) | comentar divulgar
No final de 2011, após ler uma pesquisa bem incompleta sobre patrocínios de marcas esportivas em maratonas ao redor do mundo, resolvi com a ajuda do Gabriel Sisti e do Nelson Evêncio fazer um levantamento por conta própria. Vou separar aqui no blog em 2 posts dados dos 2 grandes centros, EUA e Europa.
As provas listadas foram apenas as que atingiram pelo menos 300 concluintes ou que necessariamente possuíam um patrocinador de marca esportiva. Nessas condições há na Europa o incrível número de 184 maratonas (e pensar que uns 95% dos brasileiros se concentram em meia dúzia delas...). Mais:
- 48 destas não trabalham com nenhuma marca de tênis;
- França (36), Alemanha (32) e Itália (27) são disparados os 3 países com mais provas;
- São 8 as provas com mais de 10.000 concluintes e destas 3 têm mais de 30.000;
- 36 provas europeias são maiores que nossa maior maratona (São Paulo);
- São mais de 465.000 corredores completando essas 184 maratonas europeias.
Abaixo há o ranking completo:
(Marca; Número de Provas, Concluintes, Porcentagem do total de corredores)
ASICS 44 150.435 32,3%
adidas 24 125.729 27,0%
Mizuno 12 40.733 8,7%
Salomon 12 7.609 1,6%
Nike 10 21.257 4,6%
New Balance 9 4.870 1,0%
Saucony 7 13.993 3,0%
Brooks 6 3.384 0,7%
PUMA 5 7.951 1,7%
Diadora 2 2.506 0,5%
K-Swiss 2 2.187 0,5%
Pearl Izumi 1 1.343 0,3%
Under Armour 1 958 0,2%
Reebok 1 422 0,1%
N/C 48 82.373 17,7%
Comentários:
- Esperava um número menor de provas sem patrocinadores o que pode indicar uma característica local do mercado;
- Fiquei surpreso com o baixo número das americanas Nike e Under Armour;
- Interessante investida da Salomon que foca nas maratonas trilheiras.
A Grã-Bretanha já definiu 19 atletas de diversas modalidades para representar o país em Londres/2012. Da lista, 3 são maratonistas: Scott Overall, após bela estréia em Berlim/2011, a recordista mundial Paula Radcliffe e a eterna esperança Mara Yamauchi.
A CBAt de forma planejada e democrática muda de cima para baixo e de repente os critérios para quem vai para Londres/2012. Conforme decisão de seu Conselho Técnico, agora os atletas top 10 no Ranking Mundial de 2011 têm vaga garantida. No caso da maratona vão os 30 primeiros do ranking mundial. Assim temos: Bruno Lins (10º nos 200m), Fábio Gomes (7º no salto com vara), Mauro Vinícius da Silva (10º no salto em distância), Ana Cláudia Lemos (8ª nos 200m), Fabiana Murer (2ª no salto com vara), Maurren Maggi (6ª no salto em distância) e Marílson dos Santos (21º na maratona).
Sem vaga garantida ainda, Keila Costa (triplo), Jefferson Sabino (triplo) e Lucimara Silvestre (22º do heptatlo) não devem ter muitos problemas em garantir suas vagas. Os 2 revezamentos 4x100m também não, sendo que os 2 têm chances (bem pequenas) de brigar por medalhas.
Com o perdão do trocadilho, vivo em dias corridos…. Espero que normalize até o final da semana. Então vou “enganar” vocês e deixar 2 sugestões super recomendadas. A primeira é um longo e interessante artigo que tenta entender o porquê da corrida ser um esporte predominantemente branco nos EUA. Os negros dominam o atletismo, mas são minoria entre os amadores na corrida de longa distância. Infelizmente está apenas em inglês. Clique aqui.
Outro link é um vídeo que é obrigatório para quem reclama dos preços das provas no Brasil. São inflacionados? Com certeza! Mas a precificação tem (muita) participação e contribuição do corredor/consumidor. Mas a corrida SEMPRE vale mais do que pagamos. Veja o vídeo aqui. Mesmo que não entenda inglês, é fácil acompanhar o raciocínio.
Domingo rolou a Marine Corps Marathon (Arlington, EUA), uma das maiores maratonas do mundo, mas a maratona que ganhou manchetes foi a Maratona de Frankfurt. Por quê? Por causa do queniano Wilson Kipsang.
Na edição do ano passado a meta dele era bater seu então recorde pessoal (2h07:10) e a meta mais agressiva era a de bater o da prova (2h06:14). Ele foi lá e correu 2h04:57, a 8ª melhor marca da história. Antes da edição deste ano, na coletiva de 5ª, quando perguntado sobre sua meta, ele foi super simples dizendo que esperava bater seu recorde pessoal e a meta agressiva era a de bater o recorde mundial! Simples e direto assim.
E como ele foi? Kipsang surpreendeu o mundo correndo 2h03:42, ficando a 4 segundos do recorde mundial! Para ver o final da prova e o belíssimo cenário da chegada, veja esse vídeo (narrado em alemão). Caso prefira não ver tudo, adiante para o 11:30.