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nataliay
São Paulo, SP

Corredora Zen :-)

Corredora Zen :-)


Histórias de corrida e um pouco sobre qualidade de vida, yoga, saúde e alimentação e, claro, provas. Para mim, corrida é um tipo de meditação e escrever um tipo de diversão. Muito prazer, eu sou a Natalia Yudenitsch, mas pode me chamar de Nat.

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Estilos de corrida - qual o seu tipo?


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 17/03/10 às 17:38 na(s) categoria(s) historias de corrida

Este é um post que eu tenho vontade de fazer sempre que vou correr em um local com bastante gente, tipo Ibira no pré-verão quando todo mundo lembra da praia, do biquini, da sunga e da barriguinha de chopp. Vocês já reparam nos estilos no mínimo pitorescos que as pessoas vão desenvolvendo para correr?

Quando você não está dando tiro pra morte, dá tempo de observar e até de pensar nessas coisas. Não vou aqui me meter a julgar as posturas - até porque quando a gente vê o povo de elite correndo, tem váááários que vão entortando assustadoramente ou que têm uma mecânica de corrida que olhando parece bizarra -- até você ver que o cidadão ganhou a maratona tal.

Mas juntei aqui os estilos de corrida que mais vejo (me incluíndo aí no meio, lógico, senão fica só pimenta nos olhos do outros, que alguém sem noção disse que era refresco):

Tiranossauro Rex - quando a pessoa corre com os bracinhos encolhidos e grudadinhos no corpo, estilo Horácio. Me dá um nervoso, confesso, mas não parece incomodar nadica o resto do mundo.

Locomotiva - aquele ser que vc ouve chegando lááááá de longe pelo barulho, que super lembra um trem? Porque de repente aquele bufar e assoprar vai aumentando, aumentando AUMENTANDO até que o corredor chega e antes que vc se preocupe se o indivíduo está prestes a ter um piripaque ele já foi. Soltando fumaça e chiando.

Cartoon style - sabe aquele passinho miudinho de desenho animado onde parece que as pernas só se movimentam do joelho para baixo mas o personagem se locomove super rapidinho? Pois é. Tem muitas senhorinhas que usam esse passo. Você não dá nada e quando vai ver, está comendo poeira.

Passada 7 Léguas - para quem tem passada Quenia style, vulgo aquela passada enooooorme, que dá de 2 a 4 das minhas e faz vc, pobre mortal, se sentir correndo em câmera lenta.

Playmobil - lembra como é o bracinho do playmobil? Tipo duro? O braço mexe ao correr, mas só articula na altura do ombro, dali pra baixo do jeito que começou a correr fica. Essa sou eu - e quanto mais força eu faço, mais trava o braço. Hoje to tentando melhorar, que a Cris ensinou esses dias um lance de soltar o antebraço durante a corrida que está fazendo maravilhas. Quando eu pegar melhor o jeito explico aqui.

Enxaqueca - essa não é nem postura de corrida, é uma postura de vida mesmo. Vc está treinando calmamente, super na sua, e de repente surge aquela pessoa mal humorada, cheia de ódio no coração, que esbraveja, esbarra em vc de propósito, tem certeza absoluta que todo mundo tem obrigação de intuir para onde ela vai e abrir caminho e ainda faz um som de reprovação e algum comentário desagradável depois. Eu costumo sorrir e desejar mentalmente que o ser entre em combustão espontânea. Espontânea, ouviram? Pra eu não ter nada a ver com isso.

Indeciso - ah, este é o corredor que não tem certeza. De nada. Se vai passar pela esquerda ou pela direita. Se vai dar tiro ou só um trotinho. É aquele povo que quando vem na sua direção te obriga a fazer aquela dancinha ridícula de vou-passar-pela-direita-não-pela-esquerda-não-pela-direita-mesmo. Ou então que para abruptamente e quase faz vc quase sair voando. Sei lá, gente assim tinha que ser obrigada a usar seta.

Big Brother - sabe aquela pessoa que tem certeza que está num reality show e todo mundo está acompanhando cada movimento dela e fazendo comentários? Sim, é o moço meio Johnny Bravo que enche o peito, encolhe a barriga e dá um jeito dos músculos parecerem mais. Ou a moça que corre de um jeito para o cabelo balançar corretamente e usa roupas pensadas para parecer que ela tem barriga tanquinho e glúteos de aço. Aquela gente que sorri para o nada, ou melhor, para a platéia de telespectadores invisíveis que só eles sabem que existem. Ignorância às vezes é uma bênção mesmo.

Pé de chumbo - ah, esse vc sabe que está chegando pq vc ouve e se tiver mais de um, fica em dúvida se tem alguma diligência do velho oeste chegando. Pq parece a cavalaria passando, cada passo é o próprio Homem de Ferro treinando. Aliás, eu estou nesse grupo também e vou contar: é dureza mudar. Quando vc começa a cansar ou está num dia mais distraído o passo pesado volta e vc só se toca quando ouve um barulho estranho - oops, sou eu mezz!

Pé de algodão - quase um felino correndo, vc até toma susto pq não ouve a pessoa se aproximar. Normalmente é o povo que corre bem e bonito (pq lógico, quando vc não é pé de chumbo corre muito mais rápido) e ainda por cima acelera e faz parecer que é um passeio no parque.

E vcs? Que outros tipos já observaram?

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Cobertura Cruce


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 01/03/10 às 10:33 na(s) categoria(s) historias de corrida
Pessoas queridas que acompanharam os perrengues do Cruce comigo neste blog, aí vai um vídeo feito por uma das pessoas bacanas e divertidas do nosso mega grupo, com descrições narradas em 1ª mão pela pessoa que não só me abriu este mundo da corrida mas que me fez acreditar que qualquer meta maluca, como fazer o Cruce de los Andes, não só dava como ia ser divertido: Cris, nossa treinadora e amiga, que para variar arrasou  e levou, junto com o Manzan, o 1º lugar de duplas mistas do Cruce, a única bandeirinha brasileira no podio patagônico.







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Cruce parte final - Yes we can!


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 17/02/10 às 20:19 na(s) categoria(s) historias de corrida
Pronto pessoas, juro que essa é a parte final desse relato, senão vcs vão ter que me abater a tiros. Aliás, vcs devem ter notado que o post anterior quase não tem fotos - isso porque no meio da desgraceira, na chuva, com seu cérebro parcialmente congelado, ninguém se arrisca a soltar um "que tal uma fotinho?", que era capaz de juntar uma matilha de corredores mal humorados e repolhar o autor da idéia (repolhar: aquilo que faziam com seu caderno de escola e que o deixava com cara de repolho, totalmente imprestável).

Mas ah, o 3º dia foi outra categoria de dia. Primeiro que de manhã parou de chover (exatamente como a previsão dos sites de esqui tinha dito, gente, acreditem na internet). Mesmo tendo que vestir uma outra peça de roupa úmida, a perspectiva de um solzinho já é outro papo. E olha que nós, refugiados do campo 1, mais conhecido como Acampamento do Vale da M*** (leiam post anterior para entender), tivemos que percorrer 5K para poder largar, já que a largada foi super estrategicamente posicionada no Refugiados 2. Ou seja, ao invés dos 37K prometidos para o dia, foram 42K, uma maratona na Patagônia, tudo o que vc queria depois de dois dias se acabando nas trilhas.

Ao chegar no acampamento amigo, de novo aquele enrolation para poder largar (desaquece tudo de novo, põe fleece, luva, gorro, a rotina das filas). A essa altura ninguém mais respeitava nada, a organização estava com moral zero e as pessoas só queria largar logo e pronto. Para não quebrar a rotinha, 2K da largada ela, a sua, a nossa... fila! Mas foi a única do dia e demorou só 40min, pois era uma ponte moderna onde podiam passar até 10 pessoas por vez, uma verdadeira multidão.

A partir dali, foi só alegria. Uns 22K de plano - e dessa vez era plano mesmo, e não aquilo que costumam chamar de plano da Patagônia. Só que, ao contrário de um trecho planão de cidade, não era nada monótono: era lindo e mudava completamente a cada 30 minutos. Primeiro vc corria por uma planície aberta, enorme, que se perdia no horizonte e tinhas tons terracota. Aí vc fazia uma curva e ia parar numa trilha pantanosa e cheia de arbustos, com vista para umas corredeiras verde esmeralda. Aí vc chegava num riozinho de águas transparentes e muitas pedras verdes (gente, tem MUITA pedra verde ali). Que vc tinha que atravessar, lógico. Dica: diga bem alto "ah, que bom, aproveito para fazer gelo nas pernas!" e vai com fé.

Aí vc passa por dentro de trilhas da Floresta Encantada, esperando encontrar animais míticos, elfos, orcs, hobbits e quiçá um pote de ouro sem duendes. Quando chega a subida vc já está tão em êxtase que conseguiu correr sem parar até ali que nem liga e sobe feliz e saltitante (tá, talvez só feliz).

Um hora vc chega numa ponte que é o próprio portal para a Terra Média de Tolkien. Sei lá, o 3º dia para mim foi tão bacana que eu estava a própria Pollyana Moça da corrida de aventura, achando que tudo tinha um lado bom e belo. Correndo e comendo pelas trilhas, com o sol marcando presença a ponto de colocar boné.

Aliás, uma parada para falar da alimentação no Cruce: se planeje bem que ela não vai te deixar na mão. Depois de várias experiências (comer de 1h em 1h, comer de 45min em 45min) no 3º dia nosso ponto de equilíbrio foi comer uma merrequinha de 30min em 30min. A dica é: OUÇA SEU CORPO, que ele sabe o que vc precisa a cada momento. Se vc prestar atenção, vai ver que uma hora ele pede salgado, outra hora doce, que as vezes só um gel passa e outras ele quer algo mais substancioso. Outra coisa que a Cris e a Vivi insistiram muito (para nossa sorte): não pare para comer, coma caminhando - pode ser devagar, mas não pare, que parar abre uma diferença de tempo GIGANTESCA da qual vc vai se arrepender depois.

Mais uma dica - super obrigada Zé - é, na hora que seria mais ou menos hora do almoço, coma algo com mais "sustância". No meu caso, uma bisnaguinha recheada de peanut butter. É, eu amo peanut butter, a de verdade, não aquela coisa cristalizada que vendem na maioria dos supermercados nacionais. Mas se vc não for alien como eu, pode comer a bisnaguinha com polenguinho (só lembre que o recheio vem na caixa e tem que ser algo que não estrague fora da geladeira, aliás nada do que vc trouxer).

Algumas coisas que levamos para comer:
  • castanhas salgadinhas
  • damascos secos
  • bananinha (que qualquer loja de bairro de doces vende)
  • gel (no nosso caso GU chocolate, devidamente dentro da garrafinha que não pode levar sachê na prova)
  • sanduiche c/ pão de fácil digestão (no nosso caso, achamos a bisnaguinha recheada perfeita)
  • barra de proteína (corte em uns 4 pedaços e vá comendo aos poucos senão não desce)
  • isotônico (no Cruce tinha Gatorade a vontade na largada e chegada, então dava para encher as garrafinhas)
  • sal
Ah, e deixe tudo isso nos bolsos laterais da mochila e nos bolsos, nada que vc tenha que parar ou abrir a mochila para pegar. E pessoas, não subestimem a alimentação, tem que comer mesmo se não sentir fome, que a prova acaba para muita gente por não comer e beber água direito.

Mas voltando ao dia 3: e então uma hora começou a ficar com cara de que estava chegando. Vc começa a ver pessoas caminhando com suas famílias. Pessoas com o abadá da prova batendo um pratão paradas no acostamento. Aí vc tem certeza de que chegou. Ainda bem que uma gentil alma feminina nos previniu: "está quase chegando, mas tem uma subida IMPORTANTE e aí chegou", ela disse. Quando uma corredora diz que a subida é importante, se prepara mermão. Que aí vem casca.

Dito e feito. Faltando tipo 2K para a chegada, tem um paredão que vcs não têm NOÇÂO. Daquele tipo que se vc ficar reto cai pra trás, sacumé? Imagina depois de tudo aquilo ainda ter que passar aquela coisa vertical. Tive muita dó de quem estava meio machucado e tinha se segurado até ali. Porque depois de subir o paredão tinha, óbvio, que descer o mesmo paredão do outro lado. Precisava MESMO gente?? Jura?

Mas OK, depois disso realmente era a chegada. E nessa hora as endorfinas bombam, vc chega num estado de euforia de dar inveja em personagem de desenho animado. Vc perdoa tudo, esquece o perrengue do dia 2, a chuva, o cansaço, o mundo é belo e vc conseguiu TERMINAR O CRUCE! É uma sensação sem igual e nessa hora ter uma dupla é tudo, porque é um momento uuhuuuuuuu que vc TEM que dividir com alguém. E eu dividi, com a minha dupla nota 1000, que resumiu nossa conquista de forma brilhante em uma frase Obama style que eu pego emprestado para batizar esse post: CRUCE: YES WE CAN!

Eu adoraria terminar o relato aqui. Porque seria o ponto final lindo. Só que não foi bem assim. Porque passada a chegada, tiradas as fotos, dados os gritos de vitória, tinha a parte da emigração. E começou a chover. Resultado: vc tinha que ficar na chuva enquanto o povo examinava, assinava e carimbava LEN-TA-MEN-TE seu passaporte. Eles não pareciam se importar de ficar na chuva, nem de deixar a tinta escorrer pelos documentos, mas eles não tinham fechado 100K (porque os 90K originais com os adendos viraram 100K) em 3 dias.

Mas OK, passou essa etapa. Aí vc tinha que andar (numa subida) até o local onde iam te levar de volta para o hotel quentinho para vc tomar um banho quente e gostoso e comemorar com seus amigos. Seria a chave de ouro do evento. Mas isso se as vans tivessem vindo nos buscar. Porque sabe quanto tempo tivemos que esperar NA CHUVA, ACABADOS, CANSADOS, NO FRIO? Duas horas. MAIS DE DUAS HORAS! Gente, é muito! Porque nessa hora sua resistência acabou. Mesmo trocando de roupa seu tênis tá encharcado, continua a chover, não tem onde se abrigar e a droga da van não vem - e vc sabe que a volta é um percurso de MAIS de 2h.

Isso foi a falha que considero realmente imperdoável da organização. Porque eles SABIAM quantas pessoas estavam inscritas, logo sabiam quantas vans iam precisar. E olha que teve um monte de desistências einh? Essa logística não tem desculpas. Porque sabe tudo aquilo que eu falei da alegria de terminar, da euforia onde vc começa a planejar voltar ano que vem, do momento em que vc perdoa tudo? Pois é, ele só vale até aquele momento em que vc termina. Pisar no tomate depois disso é estragar a experiência do cliente, e logo num momento em que ele estava disposto a esquecer erros passados e começar a se programar para a próxima.

Passamos tanto frio que foi ali que usamos nossos cobertores térmicos de sobrevivência: na espera da van. Ridículo né? O pior foi chegar ao hotel as 23h30, não ter mais restaurante aberto e vc ter que jantar batata e atum em lata no quarto do hotel. Ah sim, e seu avião sai no dia seguinte de manhã e vc tem que tirar suas coisas da caixa. Que está lá abandonada, sem nenhum controle, no mesmo campinho. Não tinha ninguém da organização lá nem as 11h da noite nem no outro dia de manhã quando pegamos nossas coisas. Se alguém quisesse arrombar sua caixa e levar tudo, beleza, não ia ter ninguém para ver ou impedir.

Uma pena isso, porque o final da parada deu uma azedada - mas não o suficiente para tirar o gostinho de vitória que eu sou uma pessoa zen, né? E com amigos de prova como os nossos - daqueles que comem palhacitos de manhã e fazem vc rir o resto do dia- nenhum perrengue é intransponível.

Pesando tudo, se vale a pena? VALE! Vale MUITO. Porque a adversidade faz parte, tem muita coisa ali que não tem como controlar, outras que foram falhas gravíssimas de organização, mas o prazer da prova é só seu, ninguém tasca!

Então pense nisso antes de desistir. A Cris falou bastante com a gente sobre o preço de desistir de uma prova e vou guardar isso pra sempre, porque é muito verdade: se vc tiver se machucado de verdade é uma coisa. Aí parar é uma questão de responsabilidade, tem que parar SIM. Agora se vc está sentindo uma dor que sabe que não é de lesão, se vc está cansado, quebrou na subida, não aguenta mais chuva, perrengue, dor muscular, cansaço, fila e erros da organização, não para não. Senão vc vai sempre ficar com aquela dúvida: e se? E se eu tivesse terminado? Será que dava? Será que não dava? Como seria? É um preço alto a pagar. E o ganho de terminar é gigantesco. Vc se sente gigante. Vc vira gigante. Porque vc conseguiu, não importa em que condições nem em quanto tempo. Yes, you can :-)

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Cruce parte III - O Vale da M....


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 16/02/10 às 16:39 na(s) categoria(s) historias de corrida
Dia 2 do Cruce, o grande divisor de águas da prova. Porque qualquer pessoa que tivesse tido o trabalho de acompanhar online as previsões das estaçoes de esqui mais próximas (fica aqui a dica) sabia que no sábado ia chover. E muito.

Isso ficou claro já na noite de sexta, quando a água começou a castigar as barracas de madrugada. Como a nossa era alugada, no melhor estilo é-o-que-tem-para-hoje, havia o inquietante risco dela nao aguentar chuva forte. Já havia até um plano B de para quais barracas a gente ia correr se a danada alagasse. Que reconfortante, nao? Mas eu dormi tão pesado - apesar do ronco estilo Globo da Morte de Certa Pessoa que negou ser autor de tão doce melodia depois - que só fui me preocupar com isso pela manhã, ou seja, a barraca resistiu firme e forte.

A complicaçao começou com a largada, que ficou sendo muito, mas MUITO mais tarde do que eu pensava: quase 10h. Na boa, quem não é elite e não termina a prova em 3h não deveria ter que largar depois das 8h, pq chega muito tarde. E NUNCA consegue pegar o almoço pelo qual pagou, então fica a dica: pessoas não-elite, pensem bem antes de gastar seus dolarzinhos suados reservando os almoços, porque nós nao vimos nem a cor dessa refeição, poderíamos ter pago só o jantar e ter gasto o resto com chocolate e vinho que teria sido muito mais bem pago.

Largar na chuva nunca é bom. Largar na chuva, no frio e sabendo que ia pegar fila e a pior pirambeira da prova é infinitamente pior. Mas vambora que faz parte. Já no comecinho, adivinha? Acertou, fila de novo. Dessa vez pq a trilha estava um lamão e o povo passava devagar, tateando bastante antes de decidir onde passar, com medo de escorregar logo no comecinho da prova. Anota aí, mais 50min de piadas e gritaria do nosso grupo, só que debaixo de chuva. Um mimo.

Daí pra frente só foi piorando, como esperado. Mesmo fazendo um percurso alternativo - o que foi um ponto positivo nesse dia péssimo- porque o principal ia ficar inviável na chuva, foi uma subida só. Nesse dia eu conheci o trekking pool, aquele bastão moderninho de caminhada. Olha, tenho que confessar: não nos demos muito bem.

No começo, como em todo relaconamento, eram tudo flores. Ele me salvou de morrer afundada na lama movediça das encostas encharcadas, evitou que eu escorregasse e basicamente foi essencial para esses trechos lamacentos. Mas aí a lama diminuiu, a subida ficou mais íngreme e nossa relação começou a ficar desgastada. Eu juro que nao consegui me acertar com ele. Porque meu jeito de subir ladeira da morte pressupoe uma certa mecanica, com as maos se movendo no mesmo ritmo que as pernas e ajudando na subida, estilo curvada-para-frente-mao-no-músculo-da-coxa-a-cada-passada, sabe como é? Pois com o danado do trekking pool nao dá para fazer isso, seus braços tem que seguir um ritmo bem diferente das pernas e nao podem encostar nas pernas. 

Teoricamente eu deveria estar distribuindo meu peso com o 3º apoio e fazendo menos força para subir, como as pessoas afortunadas que sabiam o usar o bastão infernal. Não foi o meu caso, me senti fazendo o dobro da força que normalmente faria, me sentia desengonçada, simplesmente não conseguia subir. Tipo péssimo.

Minha sábia dupla, habilidosa e faceira com seu trekking pool que só, não estava acreditando na minha dficuldade. Quero dizer, não que ela duvidasse de mim, é que parecia bizarro demais para ser só um problema de relacionamento com um objeto inanimado. Ela me garante que era algo mais que isso, mas juro, eu não estava me sentindo mal, nem fraca, nem com dor. Eu só não conseguia subir como uma pessoa normal, estava mais para zumbi escalador, sabe aquele andar lento e desengonçado de quem já morreu e esqueceram de avisar? Era eu.

Mas uma hora eu consegui começar a ignorar aquele equipamento desconcertante e voltar a acelerar. Tá, eu basicamente comecei a parar de usá-lo, até que a lama acabou ao ponto de eu poder devolve-lo. Um dia quem sabe revemos nosso relacionamento, quando eu superar meu bode e fizer as coisas direito, ou seja, treinando com ele antes para pegar o jeito como fizeram as pessoas mais espertas.

Enquanto isso, a trilha seguia rumo ao céu. O lugar mais lindo do dia para mim, disparado, foi a Trilha do Abismo, um caminho estreito tão no alto que vc corria acima das nuvens. PÁRA TUDO E IMAGINA: vc correndo e do seu lado direito a encosta da montanha e do lado esquerdo um abismo, com as nuvens paradas ABAIXO de vc. Inesquecível.

As coisas complicaram quando começamos a nos aproximar do fim. A chuva apertou muito e mesmo um bom impermeável uma hora joga a toalha, pq vc já cozinhou por dentro e pq esse entra e sai dos rios gelados + o temporal já conseguiu te encharcar até a alma. Aí nós fizemos algo que vcs nunca devem fazer: perguntar a alguém da oranizaçao quanto fatava para a chegada. O carra disse com muita convicção: un quilometro e medio. BELEZA! Mamão no açucar, estamos chegando, nem precisa mais comer. Acreditou? Dançou playboy. Faltavam mais de 5K. O que é ridículo no Ibirapuera, mas é uma vida no final do pior dia do Cruce.

Teve uma hora que comecei a correr de puro desespero. Tremia tanto de frio que achei que ia congelar ali mesmo e um dia, no futuro distante, iam me achar presa dento do bloco de gelo, tipo vejam a anta pré-histórica que acreditou na información do cabrón.

Aí vc finalmente chega e descobre que algo mais deu errado. Mais da metade das caixas, os banheiros e coisas do camping não chegaram nem vão chegar. Com a chuva uma ponte quebrou e só alguns caminhões conseguiram passar. Então, se sua caixa está lá, vc fica ali mesmo, se não, entra num caminhão de campo de concentração, anda 500m, desce dele e anda mais 5K até o acampamento 2, passando por um rio geladésimo.

Acharam péssimo ir até o acampamento 2? Isso porque vcs não ficaram no acampamento 1 como eu. Por que esse acampamento ficava num lugar batizado de.. Vale da Merda. Aliás, antes que alguém reclame, este é um blog fino e de família, que não usa de palavras de baixo calão. O termo, neste caso, é apenas a descrição literal da verdade. Quase um termo técnico. Porque o chão desse acampamento era feito de.. bem, não tem um jeito delicado de dizer, excremento de vaca. Nao estou exagerando, nao dava para ver nem um pedacinho de grama molhada ali, era esterco puro. E os lugares que não estavam assim digamos, decorados, estavam alagados.

Daí vem a pior tarefa da noite: montar a barraca na chuva, no cocô, tremendo de frio, encharcada e a um passo da hipotermia (pelo menos era essa a sensaçao). Nosso amigo francês de alma bondosa que se dispôs a ajudar a montar a barraca deve ter ficado impressionado, no pior sentido possível. Já sentiram o cérebro congelar? É assim: alguem te fala "pega aquela estaca ali" e seu cérebro fala "estaca? o que é uma estaca?" e durante esse processo vc fica imobilizada, tremendo, com cara de ã, tipo protetor de tela com janelas Windows voando. As pessoas falam com vc e na sua expressão as janelas continuam voando. Aí quando vc consegue processar a informação e pega a tal estaca, não consegue colocá-la onde devia, pq seus dedos estão duros de frio e vc treme tanto que erra o alvo diversas vezes. Uma delícia, especialmente se vc lembrar que vc PAGOU para ter essa experiância. Palmas para vc. Gênio.

Aí vc entra catatônica na barraca, se troca e o cérebro começa a descongelar, junto com as roupas quentinhas. Nao fica ótimo, pq afinal nao pára de chover, vc está literalmente na merda, seu abadá está encharcado, assim como a mochila, impermeável, luvas e manguito. E vc vai ter que usá-los no dia seguinte. Oba!

Somando isso ao fato de que no Campo de Refugiados 1 (o nosso) não teve banheiro, a comida chegou as 20h, tudo na barraca estava úmido e nao tinha ninguém da organizaçao p/ vc se informar, nao foi assim um final de dia gostoso. E consta que o povo do Refugiados 2 foi quem se rebelou, dizem que houve gritaria, palavras de baixo calão, pitís e muitas muitas desistências, já que a organizaçao estava toda lá. E olha que no camping deles tinha até banheiro, alem do chão ser de grama com apenas eventuais presentinhos das vacas aqui e ali. Tem gente que era feliz e não sabia.

Eu entendo o povo que desistiu. Dava vontade mesmo. Quem tinha ido no clima um-passeio-mais-longo-entre-lindas-paisagens viu a casa cair. Mas por outro lado, na montanha CHOVE, gente. Pontes caem. O que pegou foi a falta de informação nos campings e um preparo mehorzinho para a chuva, já que sabendo que ia cair o mundo podiam ter pensado pelo menos numas loninhas de cobertura e numa logística de largada melhor.

Mas afinal, depois de dormir no Vale da M**** vc acha que a gente ia desistir? ÓBVIO QUE NÃO, NÉ? Porque a lógica diz que piorar não podia, entao o dia 3 só podia ser ótimo. E foi!


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Cruce parte II - Permiso! Permiso!


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 12/02/10 às 12:16 na(s) categoria(s) historias de corrida
Eu sei, eu devia ter postado isso ontem, mas me deem um descontinho que eu ainda estou meio slow motion, sabe aquela tirinha do Calvin quando ele era atacado pela câmera lenta e só conseguia fazer as coisas leeennnnnntaaaaaamennnnnttttte? Pois é, me pegou também. Mas senta que lá vem a história. Cruce de los Anes 2010, dia 1.

Primeiro a dúvida cruel: afinal, larga cedo, médio ou tarde? Porque tem mais de 1h de busão para chegar até a largada. Super cedo dava medo de ter que ficar horas esperando a elite largar. Muito tarde vc pega todos os caminhantes. E o seu tempo no 1º dia vai definir o horário de largada dos próximos. Tentamos o meio termo, mas na prática ficou tarde e acabamos pegando muito trânsito de pessoas. Conclusão: larga cedo e se tiver que esperar, espera lá.

Na largada, muita emoção, WOW COMEÇOOOOOU! Trilha adentro, logo começa a pirambeira. Só que uma prova de aventura com 1.500 pessoas tem suas desvantagens: faz fila. Isso mesmo, vc acha que deixou Sampa para trás com suas filas para tudo e ali, em plena Patagônia, adivinha: uma fila! Que delícia. E nos trechos de trilhas estreitas, nem tem como ultrapassar ninguém, ou seja, vc tem que esperar quem for mais lento conseguir subir ou atravessar um trecho mais difícil.

Aliás, a ultrapassagem merce um comentário a parte. Todo mundo que fez o Cruce aprendeu que para passar alguém é assim: vc grita "Permiso! Permiso! Por la esquerda! Por la esquerda!" e sai cotovelando e se enfiando na frente que quem for. O primeiro que me passou desse jeito delicado como um hipopótimo com dor de dente quase me joga montanha abaixo, um exemplo de urbanidade. E tem também as pessoas que não te dão o tal permisso nem que a vaca tussa, bata palmas e cante Aída. Tipo de picuinha mesmo, abrem bem os braços, colocam seus trekking pools em posição de ataque (aquela que se vc tentar passar de qualquer um dos lados vira literlamente espetinho) e brincam de surdinhos, mesmo quando dava para passar uma pessoa de cada lado com folga.

Mas enfim, vc aprende que gritar "Permiso! Permiso!" é a senha para sai-da-frente-senão-eu-passo-por-cima. Claro que também tem muita gente educadinha que fala "Permiso!" sem trincar de dentes nem olhos injetados e que percebe que em alguns lugares não tem como dar passagem, porque só passa um, espera a 1ª abertura e ainda solta um gentil "Gracias!" quando consegue passar. E vc que achava que a aventura da corrida de aventura era só porque não era asfalto né?

O grande mico do 1º dia foi também a grande beleza. O mico leão dourado premium desse dia 1 foi ela, a fila. Imagina que vc está aquecido, finalmente passou aquele bolão de caminhantes e pessoas mais lentas que vc, trotando feliz e contente pela Patagônia adentro quando de repente... vc pára. E vê na sua frente uma fila de umas 80 pessoas. Todas paradas e pelo jeito há um tempo. É tipo estar a 110KM na estrada e de repente surge aquela fila do pedágio.

E sabe por que a fila? Porque tinha uma ponte láááá na frente onde só se podia passar de 2 em 2. Façam as contas, 750 duplas (tirando o povo de elite que era, sei lá, chutando umas 100 pessoas) tendo que passar civilizadamente em duplinhas - e a próxima dupla só passa depois que a primeira pisar o último pé fora da ponte. É ÓBVIO que ia empirulitar o trânsito né? Claro que são normas de segurança e precisam ser seguidas, mas valia um fracionamento melhor de quantidade de pessoas largando para não embolar desse jeito né não? Pisada no tomate da organização. E chuta quanto tempo a gente ficou nessa fila? 1h30. É, leu certo, uma-hora-e-meia.

Deu tempo de comer, esfriar completamente, vestir o fleece, luvas e gorro, fazer amizade com todo mundo próximo a vc na fila, contar piadas biligues e trilingues, fazer xixi no matinho, sentar no chão de pernas cruzadas, passar umas 3 ondas de ÔLA pela fila, tirar tudo de novo e guardar na mochila.

Só que quando chegou nossa vez de passar na ponte, ficamos até sem fala. Pessoas, que visual era aquele?? Foi de longe o ponto mais lindo do dia. Porque debaixo dessa ponte passava un rio caldaloso verde esmeralda com uma queda d´água majestosa logo acima que juro, era de tirar o fôlego e perdoar na hora o tempo de espera.

O duro é voltar a correr depois que vc já esfriou totalmente. Mas enfim, faz parte e continuamos. O percurso desse dia era assim: piramba, descidinha, piramba, descidinha, alguns metros de planinho, outra piramba. No meu caso isso signifcou anda-corre-anda-corre, o que eu gostei.

Mas quando vc achava que toda essa coisa de fila estava no passado, aconteceu de novo. Parou tudo. Isso porque dessa vez a promessa era que seríamos levados de barco para atravessar um trecho do lago lindo (de onde vc já ouvia os sons de pessoas felizes que chegaram muuuuito antes de vc ao acampamento, tipo aquele trecho da meia do RJ onde vc passa pela chegada no aterro do Flamengo). Ah, ok, vamos passear de lancha, uhuuu! Daí, uns 40min depois, novo aviso: gente, cancelamos os barcos! Tá demorando muito e ficou decidido que vcs vão fazer esse trecho a pé.

Traduzindo: vai andar 4K a mais que o resto e ainda voltar boa parte do trecho e contornar o lago, pegando, lógico, subidas. Teve gente que chorou ali. Eu só fiquei com um mau humor do cão e saí correndo e fazendo cara de serial killer para qq pessoa de fleece vermelho da organização. No final, a parte ruim dessas esperas todas é que a fila foi um grande unificador de tempos. Se vc saiu mais forte, no final chegou quase junto com quem estava bem mais fraco, pq a fila aproximou todo mundo. Que democrático né?

A chegada no acampamento, porém, foi o máximo. O camping era num vale lindo, cercado de montanhas de picos nevados, as ruazinhas coloridas todas organizadinhas (porque cada container tinha uma cor, que correspondia a uma rua onde vc tinha que montar sua barraca). Nós, pessoas privilegiadas que temos gente do calibre da Cris, Zé, Belô, Camila, Vivi, Marcela, Laurent & Cia nos ajudando já estávamos com as caixas ali. Aí era montar a barraca (seguindo instruções, lógico, senão estava até hoje lá olhando para as estacas com ar perdido), tomar aquele banhão de baby wipes, trocar de roupa (2ª pele + fleece grosso + blusão impermeável + calça+ meia quente + croc no pé), pegar seu pratinho e talheres e rumar para a tenda da comida. Que aliás, estava ótima! Comi super bem, disso não posso me queixar. Tinha massa, carne p/ os carnívoroes (que falaram que estava excelente), sopa e até salada.

Pança cheia, o lance era deixar tudo pronto para o dia seguinte, pegar o saquinho com as roupas já prontas do dia 2 (que nós somos mocinhas organizadas e prevenidas), separar as comidas para durante a prova, o café da manhã, tomar uns goles de vinho e apagar. Se eu dormi? Não, eu praticamente morri e ressuscitei no dia seguinte. Que foi onde toda a desgraceira começou - mas isso é para o próximo post.

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Cruce parte I - chegar é 1 aventura


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 10/02/10 às 13:31 na(s) categoria(s) historias de corrida
Pessoas, estoy de vuelta del Cruce! Pelo título, vcs já notaram que essa prova vai render váááários posts, então quem já está com sono desde já melhor ir assistir maratona Agente 86 ou algo assim. Para resumir e acabar com o suspense principal, sim, a prova é O Máximo. E sim, é casca. Vc passa uns perrengues que jura que nunca-mais-na-minha-vida-entro-numa-roubada-dessas e depois que acaba já começa a planejar a próxima e acha tudo lindo, até o congelamento cerebral que vc sofreu depois de passar horas na chuva gelada.

Mas estou me adiantando. Como toda boa história, essa começa com uma jornada. Nada complexo, teoricamente só pegar avião para Buenos Aires, dali para Bariloche e dali o transfer para Cerro Catedral. Longo mas simples né? Seria se as bagagens viajassem junto com vc.

Porque a nossa aventura começou mesmo no aeroporto de Bariloche, depois de 2 voos tão lotados de equipes brasileiras conhecidas que super parecia aquela excursão de busão da 6ª série. Com direito a pessoas gritando, zilhões de piadinhas infames, gente atirando bolinha de papel em quem dormia, pessoas dando olhares de reprovação e um clima de alegria geral. Que lindo.

Em Buenos aquele verão ameno, uns 24°C. Todo mundo de bracitos de fora, alguns shorts, muita descontração. Aí chegamos em Bariloche e o piloto avisou: temperatura local 8°C. E baixando. Nossa dupla, previnida e control freak que só, já estava de botas do Gato de Botas e uma jaqueta bem quente na bagagem de mão. Ótimo, pensamos em tudo. Em tudo menos na possibilidade das suas malas não chegarem.

Na esteira do aeropuerto de Bariloche, uma coisa estranha. Um mocinho não parava de tirar malas da esteira e acumular numa pilha cada vez maior no canto. De quem seriam? E por que as nossas não chegavam? Meia hora mais tarde, depois que apenas uns 30% das pessoas do voo tinham conseguido resgatar metade de suas malas, um aviso singelo: gente, as malas de vcs não vieram nesse voo! Era muito peso e como já estávamos trazendo as bagagens do voo de ontem, que também não chegaram junto com seus donos, não deu para trazer as de vcs, foi mal. Amanhã a gente manda pro hotel, beijo tchau.

Simples assim, não adianta chorar, reclamar, gritar, dar pití. Hoje não tem mais voo Buenos-Bariloche e só amanhã as 10h chega um novo. Para mostrar o quanto vcs são importantes, nós mandamos entregar no hotel e that´s it.

Aí teve aquela cena do povo de blusa de alcinha tiritando de frio e gente que tinha trazido a bike sentindo aquele frio no estômago porque a bike superequipada estava perdida em algum lugar entre Buenos e Bariloche. Aliás, tenha MEDO, muito medo desse aeroporto. Coisas ruins acontecem ali. Suas malas somem e quando aparecem parece que uns 150 anões de Minas Morgul tentaram escavar diamantes com picaretas da sua bagagem - e conseguiram, porque vem faltando umas partes.

Mas como eu sou uma pessoa zen, fui para o hotel curtir o friozito, que aliás estava ótimo. O hotel era bacanito, com cara de casinha do Papai Noel e um visual estonteante da janela. No dia seguinte, hora de pegar o kit Cruce.

Nesse quesito, nota 10 para a organização: vc andava por um shoppingzinho passando por vários estandes e recolhendo coisas na sacola, tipo um videogame. E olha só quanta coisa: fleece, chip, pratos, talheres, copo, canecas térmicas, garrafinha, barrinha, chá mate, chocolates, toalha, bandana e, claro, o abadá. Abadá é como batizamos a camiseta da prova, pq afinal de contas como chama a vestimenta obrigatória para participar de um evento coletivo? Abadá gente, lógico. Que era até personalizado com seu nombre e bandeira do seu país, um luxo. Só mais tarde é que a gente lamentou que fosse só 1 abadá. Porque pensa, é para usar o mesmo nos 3 dias né? Cheirosinho que só.

Um toque muito bacana foi ter a bandeirinha para poder colocar na sua mochila. As nossas fizeram o maior sucesso, super detalhe legal. Depois disso o jeito foi passear em Bariloche, já que as malas não tinham dado o ar da graça. Super chato, uma cidade fofa, com várias ruas infestadas de lojas compráveis, lugarzinhos simpáticos para comer e beber e muito chocolate. Um inferno. Nem tem do que ficar reclamando.

Aí na volta, começa a corrida: pegar as malas voando, separar tuuuuudo para o seu container, levar as coisas até ele (que ficava lááááá embaixo, num campo), fazer tudo caber, fechar, entregar e pronto. Graças aos deuses que ainda existem cavalheiros nesse mundo, senão nossa dupla de mocinhas finas de família teria penado com aquele monte de coisas desengonçadas sendo levadas rampas e escadas abaixo até o tal local das caixas.

No dia seguinte, o momento mais esperado de todos, após um traslado de 1h: a largada. Aliás, um toque: largue cedo. Não tão cedo que vc atrapalhe a elite, mas não tão tarde que vc pegue a massa de caminhantes e pene horas para ultrapassá-la em trilha estreitas.

Descobertas iniciais, anote no seu check list:
  • arrume um manguito, que foi o equipamento categoria revelação da prova; em um clima esquizofrênico como o da Patagônia, que uma hora congela e outra faz sol, não dá para ficar parando vestindo e tirando roupa
  • bandana é tudo de bom, leve a sua (ou use a da prova), evita o suor, protege suas orelhas do vento gelado, segura a onda do cabelo e tem mais umas 1001 utilidades, igual aquele produto
  • tênis p/ trilha é essencial. Parece redundância dizer isso, mas não é. Não ache que o seu tênis de treino no parque serve. Não serve. O grip é tudo nessa vida quando vc precisa subir uma montanha lamacenta. Ah, e leve o 2º par para a prova também. E, precisa sim. (se vc for elite isso não vale para vc, que provavelmente consegue correr perfeitamente até de papete e deve estar achando esse post um tédio)
  • calça ou bermuda com bolso. Sim pessoas, faz diferença o tal bolso, não é frescurite. Pq tudo o que vc não quer é ter que mexer na mochila, então todas as comidas e acessórios que vc for usar durante a prova têm que estar a mão, nos bolsos que ficam no fecho da frente da sua mochila (tipo na sua barriga) e nos bolsos da calça.
  • Óculos. Essa não é unanimidade, mas se vc é como eu e adora um óculos escuro, leve aquele de lente rosa ou vermelha, não vai se arrepender
  • Meia de compressão. Se vc tem, leve, aqui ela faz uma diferença. Se não tem, não vai morrer por isso, não se estresse.
  • Impermeável. Não vá para a Patagônia sem ele. Certifique-se de que ele é impermeável MESMO e não vai te deixar na mão se vc tiver que correr na chuva forte por horas, porque provavelmente vc vai ter que.
  • Luvas. essa também é só para quem tem frio nas mãos como eu. Foi minha salvação e ficava no bolso da calça. Congelou, veste um pouco. Esquentou, taca no bolso.
  • Hipoglós: não saia sem deixar seu pé realmente besuntado nele. Nada de passar de levinho e deixar absorver, é para deixar melequento e nojento e tacar a meia por cima. Vale a pena gente, terminamos o Cruce sem uma bolhazinha sequer, o pé cansado mas inteirão.
  • Meias: tecnológicas, tipo dry fit ou similar, nada de meia de algodão.
  • Camiseta dry fit: leve para por debaixo do abadá, senão vc não aguenta o futum de correr 3 dias com ele e nem sempre dá para lavar e secar (no nosso caso isso nem foi cogitado pelo timing das coisas).
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Doe seu presente do ano passado


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 28/01/10 às 19:08 na(s) categoria(s) historias de corrida
Você já ouviu falar que corrida é um esporte super econômico que não precisa de equipamento nenhum, basta um tênis e sair correndo, né? Então você também sabe que isso é uma cascata deslavada. Porque sair correndo de All Star não é exatamente uma boa idéia, apesar de que, dependendo do modelo, pode até ficar fashion.
Então começa a somar na maquininha: tênis de corrida. E isso não vai te custar R$50. Vamos dizer que você conseguiu uma super promo e comprou um modelo-ano-passado por R$200. Aí você vai querer ter um mínimo de controle do seu treino, ou seja, precisa de um relógio com cronômetro - ou, se você estiver podendo, um desses Amigos Eletrônicos que marcam seu pace, calorias queimada, passadas, velocidade, distância, frequência cardíaca, têm GPS, deixam subir seus treinos para o site, syncam com ipod e ainda elogiam sua performance incrível. Mesmo se você comprar um relógio genérico, ou "Mickey", como minha amiga Ceci diz, vai sair, sei lá, uns R$50. Se for um relógio bacanudo, pode colocar uns R$ 1.500 fácil.

Aí ainda tem que ter meia, boné, óculos escuros, protetor solar, camiseta, shorts, top se vc for mulher.. Enfim, na soma final não sai tão grátis assim.

Com essa continha em mente, olhe para seu armário. Aposto que tem tênis de corrida que você não usa mais. Aliás, aposto que tem VÁRIAS coisas que você não usa mais. Sabe aquele tocador de MP3 que vc aposentou? O celular velho (ups, VINTAGE) que está desmaiado na gaveta? O computador que foi trocado por uma engenhoca mais rápida? Pois é.

Então vamos combinar: ganhou ou comprou algo novo? Doe seu presente do ano passado. Ou retrasado. Ou da semana passada mesmo. Que tal entrar numa corrente do bem e reciclar, passando para outras pessoas? Por exemplo, este post é reciclado , seguindo uma iniciativa bacana da rede Ecoblogs. Vamos somar esforços? Vaaa-mooooossss (isso vocês respondem em estilo jogral, pessoas bacanas).

Então aí vão algumas sugestões de para onde enviar suas doações:

Seu tênis pode ir para:
Seu celular, computador, impressora, cabos, videogame e coisas tech podem ir para:
  • Comitê para Democratização da Informática CDI –  cuja missão é transformar vidas e f ortalecer comunidades de baixa renda através da capacitação nas tecnologias da informação e comunicação e de um aprendizado complementar voltado à prática da cidadania e do empreendedorismo
  • Liga Solidária - faz manutenção e triagem para que a doação seja encaminhada às unidades sociais que estiverem precisando do material doado.
  • Museu do computador - os equipamentos são revisados e reformados, para seguirem para exposição no Museu do Computador. Já software e publicações relacionadas à informática são destinados à biblioteca do museu, ficando disponíveis para consulta dos visitantes.
-- veja mais opções AQUI  ---












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Agora que passou a São Silvestre...


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 15/01/10 às 12:43 na(s) categoria(s) historias de corrida
... acho que dá para fazermos algumas considerações sem o calor do momento. Não, esse ano não corri, porque como vcs já sabem, estava subindo ladeiras em Atibaia. Mas quando corri, tenho que confessar que adorei (tem um pouco disso aqui nesse post).

Adorei o astral, as pessoas fantasiadas, a forma de comemorar o encerramento de um ano e o percurso. Como já falei, não foi nem a mais fácil, nem a mais difícil, nem a mais bonita das provas que já corri, mas com certeza foi a mais *divertida*. Isso APESAR do bafo quente que sai do asfalto e da quantidade de gente que te faz sentir que nem naqueles metrôs japoneses na hora do rush, onde tem funcionários que empurram as pessoas para dentro do vagão para caber mais gente.

Independente disso, assistir a São Silvestre é algo que eu faço questão de fazer. Faz parte dos rituais de reveillon. Tem gente que pula ondinha, come semente e vira o derriére para a lua --assistir à São Silvestre faz parte desse sincretismo, assim como usar roupas de cores específicas ou essa maledeta mania de soltar rojões (quem tem cães que piram com o barulho me entende, tenho certeza).

Para mim, essa corrida tem ligações afetivas, já que é também o dia do aniversário do meu pai e, quando eu era jovem e inocente e a São Silvestre era a meia-noite, assistíamos a corrida preparados com as taças na mão: acabava, rolava a contagem, o brinde e o parabéns, quase que tudo ao mesmo tempo. By the way, eu adoraria que voltasse a ser uma corrida noturna e acabasse a meia-noite. Eu sei, eu sei, tem zilhões de argumentos contra, mas eu continuo preferindo a corrida da virada.

Pois bem, esse ano achei a cobertura da corrida FAIL, uma decepção. Nas 2 emissoras. Aliás, por que sempre tem uma dupla comentarista formada por alguém que sabe do que está falando + alguém que não tem a menor idéia e faz os comentários mais estapafúrdios do planeta? Tipo "vejam o corredor nº xxx acabou de encostar no pelotão de elite!" (era um pipoca, que tinha entrado de gaiato na prova naquele trecho para aparecer um pouquinho). Ou então "e lá vai ele, tranquilo na liderança" (era um atleta que ia parar antes do final, por isso estava dando aquele gás master).
 
Considerando a quantidade de comentários infelizes, a cobertura de imagens tinha que ser ótima, né? Só que não foi. A disputa feminina vc viu? Pq eu não vi. Só vi a largada e depois de muuuuiiiiito tempo mostraram a líder e quando ela ganhou. Os comentaristas nem sabiam dizer quem estava em 2º lugar até mostrarem a pessoa. Ninguém viu como é que a Pasalia disparou, como estava a disputa no pelotão, como estavam as outras corredoras - enfim, como foi a prova em si. E olha que, na minha modesta opinião, o feminino costuma ser mais emocionante que o masculino (não, não é sexismo, é que no feminino costumam rolar mais surpresas, proporcionalmente, mas claro que as surpresas podem rolar em qq corrida) - quem lembra da última maratona olímpica?

No masculino a cobertura também deixou muito a desejar, muito tempo só acompanhando o líder e nada de mostrar aquela disputas e momentos emocionantes que rolam nos pelotões.

Além disso, tem Aquela Questão Espinhosa, que é a das quotas de atletas estrangeiros nas corridas. Acho que não tem resposta fácil para a questão. Quem é a favor de limitar a quantidade de estrangeiros diz que os atletas nacionais, que já nadam em dificuldades e dificilmente arrumam patrocínio, vão perder o pouco incentivo que têm e que dessa forma não conseguem as pontuações necessárias para as provas maiores.

Quem é contra, diz que fazer reserva de mercado é tapar o sol com a peneira e que tem é que melhorar a performance nacional e parar de mimimi, que a vida de atleta é dura e a competição é cruel mesmo.

Eu acho que é fácil bater martelos e distribuir veredictos. Mas a verdade é que essa força queniana (africana no geral) incomoda em todos os países. Nos EUA tem rolado uma queda mo interesse do público leigo em acompanhar as provas porque nenhum norte-americano vence. Ao mesmo tempo, se todo mundo limitar, os quenianos só vão poder concorrer mesmo e pontuar... no Quênia. E quantas provas internacionais e importantes acontecem lá mesmo?

Não é uma questão fácil, esporte para crescer precisa ter público, fãs, heróis nacionais. Ao mesmo tempo, o esporte tem o dom de dar espaço para talentos incríveis que podem surgir dos lugares mais improváveis, mais sem condições - e isso não dá para perder.

Ou seja, eu não tenho uma posição fechada a respeito, pq vejo razão dos dois lados da questão - não vejo é uma solução simples! Na dúvida, continuo em dúvida. E vcs?

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Pedra Grande, o treino


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 13/01/10 às 18:12 na(s) categoria(s) historias de corrida
Será que começar o ano ladeira acima é um sinal de sorte e prosperidade? É bom que seja, porque foi exatamente isso que eu fiz no 2º dia do ano (no 1º choveu choveu e choveu mais um pouco).

Primeiro, ninguém acreditou que o treino ia rolar, já que S. Pedro passou o dia anterior inteiro lavando (ou simplesmente jogando água) nas dependências divinas. Mas, no dia seguinte, pasmem: abriu um dia claro e até promissor. Aí seguiu-se uma conversa telefônica que virou rotina no final de ano, algo como:

- Oi
- Oi
- E aí, vamos lá?
- Blz, to indo aí

Super informativo e verborrágico. Um humor contagiante. É que, 1º, era de manhã. E, na verdade, a casa de mãmã fica 2 ruas do assim denominado Ponto de Encontro Para Treinos em Atibaia, então era só o caso de por o uniforme de corrida e andar 3 minutos, quiçá 5.

Pois bem, eu já estava sob impacto do treino do dia 30, da Volta do Mackenzie. E a perspectiva era nada mais nada menos do que subir a Pedra Grande. Quão grande? Bem, a pedra em si está a 1.450m acima do nível do mar, mas claro que Atibaia não está na beira da praia, então acho que deve ser uma subida com altitude de uns 500m, em um trajeto de que deve dar uns 8K ou 10K (ida e volta). Parece fácil? Sobe lá então!

Eu, que sempre vejo a Pedra Grande da piscina, nunca tinha subido por ali, em linha reta. É uma trilha bacana, que estava escorregadia (claro) com direito a deixar todo mundo com a marca registrada da Tribo Pé de Lama, daquele jeito que vc nem consegue mais enxergar o tênis. Por sorte, tem água no caminho - onde dá para lavar tudo, se refrescar e comprovar que o tênis Salomon realmente segura bem lama e água, tipo lavou tá novo (não visualmente pessoas otimistas, e sim de sensação, ele não fica pesado e molhadão).

Tem 3 opções de trilhas para subir a pedra desse lado, todas entre 2,4K e 3K (isso porque vc já subiu uns 2K até chegar no início das trilhas). É um treino excelente, tem trechos que dá para correr mais, outros menos (fora os que só andando, pelo menos para montanhistas suuuuper experientes como eu) e locais onde vc tem que subir nas pedras.

Aliás, o máximo é o grand finale, que é subir inclinadíssimo pela própria Pedra Grande e surgir do abismo causando pra dar de cara com os carros e pessoas que vieram motorizadas  pela estrada oficial, que vem pela rodovia D. Pedro I. Recomendo MUITO, mas fique esperto para:
- carrapatos e micuins
- torções e escorregões
- queimaduras de sol (eu tasquei um bloqueador antes de sair e fiquei zero bala, sem marca nenhuma)
- vertigens (eu ADORO altura, mas quem tem medo respira fundo e não olha para baixo)

Ah sim, só para constar: no dia seguinte deste detonante treino, adivinha? Mais uma Volta do Mackenzie com uns 21K, ou seja, 3 longões em 5 dias. Também, quem mandou se inscrever pro Cruce, né?

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A volta do Mackenzie


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 30/12/09 às 21:51 na(s) categoria(s) historias de corrida
Pois é, estou de férias do trabalho mas não do blog, como vcs podem observar. Neste exato momento estou em Atibaia, onde acaba de cair mais um mito: a volta do Mackenzie. Há mais de 1 ano que ouço a Cris, minha treinadora e amiga, falar que em Atibaia ela faz essa tal volta como treino (isso quando ela não está subindo e descendo a Pedra Grande, claro). Eu venho aqui direto mas nunca consegui descobrir exatamente onde era isso. Sabia que era uma volta de uns 18K, que tinha bastante subida e só.

Hoje eu fui finalmente iniciada nesse treino. A primeira surpresa foi descobrir que dá para sair da casa de mãmã mesmo, ou seja, que ela começa a 3 quadras daqui. A segunda foi saber que Mackenzie é esse afinal de contas. Anotem mais essa pérola de cultura inútil, quem sabe vcs não ganham o milhão do Justus com isso um dia? O nome vem do Observatório do Mackenzie, que é o apelido do Observatório de Radioastronomia e Astrofísica do Itapetinga (isso pq um dia o observatório foi controlado pela Universidade Mackenzie).  

Não, eu não fui até o observatório. Se vcs tivessem ido fazer um longão com a sua treinadora e ficassem sabendo que ela estava super cansada e só foi pq vc está querendo conhecer esse treino há séculos, vcs tbm iam sentir o peso da responsa e usar todas as suas energias em correr e ficar feliz de estar ali. 

A volta é assim: um tiquinho de asfalto e já começa a terra, assim como as subidas. Tá, não é a Pedra Grande, mas mesmo assim são várias e cascudas (para mim, cascudonas, mas com prática acho que dá para melhorar). Pensando em Cruce, recebi a seguinte ordem: correr em TODAS as subidas SEMPRE, nada de dar aqueles passos para dar uma aliviada e descansar uns segundos. "No Cruce vc pode andar quando precisar, no treino vc CORRE". Sim senhora. E lá fui eu, mesmo tendo a certeza de que a qualquer momento uma dessas velhinhas curvadas que moram nos sítios nos arredores ia me passar, caminhando tranquilamente.

Sim, pq minha sensação era de que eu estava correndo muito, mas muito mais devagar do que qualquer caminhada - além da pernas fritando, lógico. E assim fui, correndo na subida - e nem adiantava pensar em dar uma roubada e arriscar umas passadas que a treinadora tem um sexto sentido e grita para não parar, não andar e correr sem nem precisar olhar para trás. 

Ah sim, para um toque mais aventureiro ao treino, nos perdemos um pouco, ou seja: virou uma volta de uns 20K. Dureza, mas MUITO BOM. Adorei a consideração, o treino, a companhia e, claro, a volta do Mackenzie. Agora dá licença que vou descansar que amanhã é dia da fatídica dobradinha, ou seja, mais 1h de corrida - mas sem Mackenzie dessa vez.
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Pé no chão


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 28/12/09 às 19:20 na(s) categoria(s) historias de corrida
Antes de mais nada, Ho HO Ho para vcs! Espero que Papai Noel tenha sido generoso, que a ceia tenha sido deliciosa e que ainda tenha sobrado energia para uma corridinha. Por falar nisso, vcs estão acompanhando esse movimento que promove uma volta ao pé no chão (ou barefoot running)?    

A idéia é que a melhor pisada é aquela que vc faz quando corre descalço -- ou quase. A tese, comprovada facilmente filmando alguém correndo descalço e de tênis, é que descalço vc pisa primeiro com o meio do pé, o que leva o seu arco do pé absorver a maior parte do impacto (o arco meio que se achata e volta para fazer isso). Com os nossos belos, caros e acolchoadíssimos tênis, tendemos a pisar primeiro com o calcanhar - que, aliás, costuma ser a parte mais fofinha do tênis.  
O pulo do gato, diz essa linha de pensamento: o tênis não consegue absorver tanto assim o impacto, que vai direto para as pernas e especialmente para os joelhos, aumentando a propensão a lesões. Isso mesmo, o raciocínio é que quanto mais fofinho e acolchoado o tênis, mais probabilidade de adquirir lesões com ele. 

Absurdo? Gente maluca? Bem, eu tenho que confessar que estou cada vez mais amiga dessa idéia e não por ter lido e acreditado. Na verdade tudo começou uns 2 anos atrás, quando comprei meu primeiro tênis Brooks. Tinha vários modelos, alguns deles do tipo bem fofinho, mas eu provei um que era super leve, confortabilíssimo, lindo e com a sola claramente mais fina que os outros. Eu vesti e senti o pé mais no chão, mais... "solado", tipo dava para os pés ficarem mais abertos, os dedinhos mais felizes. Comprei, com muitas dúvidas do que ia acontecer quando ele encarasse um longão.   

Bem, ele não só passou no teste com louvor como passou a ser meu tênis predileto para provas. Fez meias maratonas, tiros, de tudo. Foi aí que descobri que eu me dou super bem com esse tipo de tênis, mas achei que era só uma esquisitisse minha, como gostar de leite de soja ou ler durante as refeições. Aí agora me deparei com esse povo dizendo algo muito parecido e fez o maior sentido para mim. 
Claro que não vou ser xiita nem dizer que a sua lesão obviamente vem do tênis que vc usa, ou que tênis com muito amortecimento faz mal, até pq não tenho conhecimento técnico ou médico adequado para tanto. Mas vou dizer que talvez seja algo para pensar e testar. 

Fora do Brasil, todas as grandes marcas de tênis já lançaram seus modelos nessa linha, que eles chamam de mais "natural" (arght), que são tênis mais leves, bem flexíveis e finos. Como sempre tem um modelo super ultra mega bold geek, tem até o Vibram FiveFingers, que tem os 5 dedinhos, igual aquelas meias de dedinho que rolam por aí (tem até meia de compressão com dedinhos). 

Todo mundo que testou fala que a aparência é esquizo, vc se sente no Planeta dos Macacos, as pessoas te olham como alienígena, mas a sensação é ótima. Aliás, todo mundo que fez esse teste de passar a usar um tênis mais pé no chao diz que demora entre 1 e 2 semanas para se adaptar, ou seja, durante esse tempo seu pé dói em lugares que vc não sabia que existiam e a corrida fica estranha, mas assim que acostuma com a nova pisada fica melhor que antes. Deem uma sapeada nele no vídeo abaixo:


Eu, que não uso nada super radical como esse Vibram, notei uma mudança de pisada sim e para melhor. Curti mezzz esse mania style de correr. De repente é algo a se investigar mais, sem preconceitos ou radicalismos.
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Por onde a gente passou


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 07/12/09 às 20:19 na(s) categoria(s) historias de corrida
Este sábado fiz um treino para masoquista nenhum botar defeito: subir o pico do Jaraguá de manhã. Plenas 8h do sabadão e um comboio de corredores do Núcleo Aventura e do Projeto Mulher batia ponto no parque do Jaraguá. A maioria, como eu, ia participar do Cruce e estava ali para fazer um treino mais técnico (sinônimo de treino mais sofrido).

Chegar lá até que não foi tão dramático graças ao santo Google Maps. Claro que podia ter umas placas na Anhanguera apontando a saída certa, mas aí acho que era demais, imagina só, um ponto turístico bem sinalizado! Era até capaz de ser multado por tamanha aberração.

Mas o parque em si é beeem legal, uma reserva florestal de 4,5 mil hectares, com uma infra de banheiro, bebedouros e policiamento. O pico tem 1.135m e é o ponto mais alto de Sampa e um significado bacana: Jaraguá em Guarani quer dizer Por onde a gente passou. E em Tupi quer dizer Senhor do Vale.

O treino por ali não é para fracos (das batatas das pernas). Não importa se vc caminha ou corre, vale a pena. Mas pepare-se: a subida é boa, apesar de curta (uns 2K ou 3K do começo da trilha até o topo). Tem lama, terra, pedras, limo, mato, o menu completo para um treino mais aventura.

Você sobe em meio a névoa, parece a floresta encantada dos contos de fadas. Só que a sua sensação fica mais para Rocky Balboa treinando na escadaria do que para João e Maria encontrando a casa de doces. Porque quando vc chega ao topo do Senhor do Vale, descobre que ainda não acabou: é hora de subir as escadarias até a antena, essa mesma que a gente enxerga de quase qualquer lugar de São Paulo.

Parece difícil? E é, mas ao contrário de treinar em ladeiras urbanas, como a Biologia na USP, é que vc não vê o tempo passar. As 2h passaram vo-an-do. Você vai para outra dimensão do espaço-tempo. Qualquer outra preocupação que você possa ter na vida desaparece e dá lugar a decisões-relâmpago sobre onde pisar, tomadas pelo seus pés e não pelo seu cérebro. Porque amigos, se vcs pararem para pensar onde vai pisar, caem na hora, igual desenho animado quando anda por cima do abismo e só cai se notar que está andando no vazio.

Aliás, se vc tentar andar ou diminuir o ritmo, a probabilidade de escorregar é grande. Porque lá Onde a Gente Passou só funciona se vc não parar. Tem que descer estilo cabrito montanhês, saltita daqui, pula dali, em passos curtinhos e puladinhos -- ou saltos mais ousados para o povo mais pró que estava no treino e que não descia, VOAVA ladeira abaixo com uma leveza e velocidade que só os personagens de animação da Pixar costumavam conseguir.

No final, tênis lama, roupa lama mas a alma lavada. Para quem só tinha ido lá na longínqua adolescência, como eu, vale voltar, revisitar as terras do Senhor do Vale e pagar seu tributo de suor e corrida. E lembrar-se de tudo isso 2 dias depois, que é quando as batatas doem mais :-)

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Brigadeiros energéticos


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 01/12/09 às 18:01 na(s) categoria(s) historias de corrida
Vocês já repararam que eu curto o tema alimentação, né? Gosto de cozinhar, de escolher conscientemente o que como (mesmo que seja uma caixa de língua de gato hmmm), de saber o que cada alimento faz e principalmente de colocar meus valores pessoais na minha alimentação -- como só comer ovos da galinha feliz, que dividi com vcs nesse post aqui.

Na corrida, tenho que confessar: curto o gosto do gel (desde que chocolate ou triberry) e amo isotônico (especialmente se for o de frutas vermelhas). Eu sei, um monte de gente acha que o gel tem gosto horrível e revira o estômago, mas para mim tem um efeito igual o de tomar uma daquelas poções de vida de videogame: sinto a barrinha de energia vital recarregando na hora, dá até barato! Quanto ao isotônico, eu só consegui subir a serra de Maresias naquela prova de revezamento pq minha equipe de apoio era THE BEST e sabia que a cenourinha para me fazer seguir em frente era um gator gelado.

MAS um dia desses li uma matéria que me encantou. Era sobre um ultramaratonista que decidiu correr a Sables (nada menos do que uma ultramaratona de 243KM pelo deserto do Sahara) só comendo.. comida. Ou seja, sem suplementos, géis, isotônicos e afins. Aí ele e algum nutricionista montaram um cardápio muito bacana para a prova. Além do café, almoço, jantar, ele tinha criado uma coisa que chamou de Energy Balls, ou seja, algo como bolas energizantes. É uma mistureba de coisas como sementes, castanhas e alimentos em pó, adoçadas com mel e transformadas literalmente em bolinhas. A idéia é deixar pronto e ir consumindo durante a prova para, segundo ele, uma dose de energia e antioxidante.

Eu adorei o conceito das super foods, ou super comidas, e estava louca para experimentar nesse meu momento pré-Curce mas aí... perdi a revista. Estava super triste até que a Camila, que além de correr MUITO ainda trabalha na revista, me salvou. Ela não só lembrava da matéria como ainda tinha o link para o blog do tal ultramaratonista, que compartilha coisas bem bacanas sobre treinos e alimentação --e ainda tem as receitas.

Eu vou testar, quem quiser testar junto é só anotar e montar a sua (com eventuais substituições, pq tem ingredientes que não encontrei). Aí vai a receita desses brigadeiros energéticos, que traduzi do blog dele, mas sempre bom dar uma olhada no original caso eu tenha feito alguma atrocidade:

Energy Balls (ou Brigadeiros Energéticos na minha mais que livre adaptação rsrs)

Moer ou picar um ou dois punhados (punhados = mão cheia) de Gojis, passas, tâmaras, figos, damascos (ou outros frutos ou frutos secos, escolha o que quiser), de preferência orgânicos. Adicione sementes de abóbora, de girassol, gergelim, castanhas de caju ou amendoim picados.

Adicione um pouco de óleo de coco, um pouco de água, sal marinho, proteína em pó Sunwarrior, pó de Maca e, se quiser, farinha de aveia para dar a liga.

Tempere com cacau, baunilha ou canela. Coloque açaí em pó (ou frutas vermelhas em pó) como antioxidantes e para garantir energia extra. Se gostar de um sabor mais adocicado, adoce com mel ou adoçante natural. Você pode adicionar também pós como Spirulina ou Boku.

Misture tudo até formar uma massa lisa e homogênea, enrole em bolinhas e pronto. Leve com vc e consuma durante treinos longos ou provas.

Ah sim, e para quem ainda não cansou do assunto, nas buscas pelos brigadeiros energéticos achei uma edição antiga mas totalmente atual da Go Outside quase que temática, falando exatamente sobre alimentação e treinos, é só clicar AQUI.
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Correndo na penumbra


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 23/11/09 às 18:34 na(s) categoria(s) historias de corrida
Depois de Dançando no Escuro, apresento Correndo na Penumbra. Estrelado pelos corredores que treinam a noite no parque do Ibirapuera. É um mix de filme noir e suspense, com um toque de comédia, dirigido pelo povo que decidiu que não precisa acender todas as luzes do parque a noite. Afinal, correr enxergando tudo é para fracos!

É assim: vc vai treinar e a assessoria tem que mudar de banco porque o tradicional local fica embaixo de um poste de iluminação apagado, ou seja, não é visível ao olho humano chegando do estacionamento.

Aí vc, que é uma pessoa ousada e corajosa, resolve correr a volta de 3K para se aquecer. Quando vai dar a volta no lago, começa a gincana, quase uma festa junina. Pula a rachadura no chão minha gente! Olha a poça! Cuidado com a raiz de árvore saindooo. E olha que não estou falando de locais como a pistinha, que é o máximo mas de noite fica tão deserta que só falta aquelas bolas de feno do deserto de faroeste passando.

E a volta de 1K então? Ou vc corre no pelotão, no modo unidos venceremos, ou fica para trás ouvindo a musiquinha do Psicose quando tem que passar sozinha pelo lado mais escuro, com medo que o Michael Jackson e os zumbis saiam dançando da terra. Fora que no geral, tem tantos postes apagados que o parque inteiro está a meia luz. Seria romântico se não fosse perigoso.

O policiamento lá melhorou e aumentou muito, isso preciso dizer! Tem sempre um carro checando o parque inteiro, nesse ponto o Ibira está de parabéns. Mas vamos combinar que, com pouca luz, o trabalho da polícia fica bem mais difícil né? Gente, o que é isso, treino para mais um apagão? Economia de energia? Quebrou a escada para trocar as lâmpadas que queimaram?

Nesse andar da carruagem, logo mais só vai poder ter treino em noite de lua cheia. Mas aí vamos ter que correr com balas de prata..
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Quem vai ao Running Show?


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 25/09/09 às 20:01 na(s) categoria(s) historias de corrida
Eu! Pessoas que estiverem em SP esse sábado dia 26/9, estarei na Running Show, a feira de corrida/esporte que acontece na Bienal Ibirapuera (dentro do parque do Ibirapuera). Se quiser jogar conversa fora ao vivo e a cores --ou ter certeza de que eu existo de verdade e não sou uma simulação que fugiu de tédio do Second Life -- é só aparecer por volta das 15h que eu vou estar por ali, no estande da Webrun, junto com a blogosfera do portal. Deixa de preguiça e VAI LÁ!
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Próxima parada: estação Cruce


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 23/09/09 às 11:47 na(s) categoria(s) historias de corrida
Agora virou fato: minha próxima big prova será em fevereiro de 2010 e atende pelo nome de Cruce de Los Andes (http://www.columbiacruce.com/carta2.htm). Agora que eu fiz o anúncio de forma blazé e controlada, posso falar como me sinto realmente: CEEECIIIII,UUHÚÚÚÚÚÚÚ, NÓS VAMOS PRO CRUUCEEEEE!

Ok, sem respirar no saquinho agora, vamos a explicação desse entusiasmo juvenil. Primeiro, algo essencial: essa prova é de montanha e é LINDA. Eu quero dizer, linda MESMO, linda DE VERDADE. Começa na Argentina e termina no Chile, passando nada menos do que pela Cordilheira dos Andes (dã, tá é meio óbvio pelo nome, mas dá uma satisfação contar). São 90K divididos em 3 dias e o mais legal: é em dupla. Digo mais legal porque é a minha 1ª prova desse porte, na montanha MESMO, e poder dividir isso com alguém não tem preço (quero dizer, na prática tem e é em dólar, mas isso a gente abstrai nesse momento).

Minha dupla é minha super amiga e sócia, que além do astral ainda vem uma experiência prévia super bacana de montanha - que vale ouro para alguém que de prova de montanha só lembra daqueles filmes de Everest, onde todos ficam sempre presos em desabamentos, gente morre congelada na caverna depois de cair e ter 3 fraturas expostas e sempre, sempre alguém resolve desafiar os deuses que mandaram sinais dizendo que era melhor não subir naquele dia. Vale também lembrar que a prova acontece no verão (sem congelamento na neve, portanto), não tem nenhuma SUPER altitude comparável ao Everest e tem uma infra ótema: a organização prepara almoço e jantar e leva sua barraca, caixa e sacos de dormir, um luxo só.

Agora que já recebemos o email de confirmação da inscrição é que caiu a ficha mesmo: não tem jeito, agora vai ter que rolar. Nossa equipe foi batizada de DUMA.COM.BR , que é um jabazão merecido da nossa empresa --afinal de contas, é ela quem vai viabilizar nossa ida para a prova, então nada mais justo que destacar nossa patrocinadora-mor (mor porque estamos cercadas de pessoas e empresas bacanas que também estão participando e apoiando nossa empreitada).

Passado momento gente-eu-vou-pro-cruce, começa a fase mais divertida para pessoas control freak como eu e a Ceci: planilhar e listar tuuuuuudo o que tem a ver com a prova. A lista do que é obrigatório levar, do que a gente quer levar e do que seria um sonho poder levar. O tênis certo, o corta-vento ideal. Os treinos que vamos fazer, os preços das passagens, incrições, hospedagens, taxas, refeições e aluguéis de coisas. Que tipo de alimentação vamos levar para o durante a prova. Qual vai ser a produção da nossa equipe (porque obviamente se nossa equipe tem nome esse nome vai ter que estar em algum lugar visível). O que vai no nosso kit de Primeiros Socorros e nem tão primeiros assim (de pomadinhas mágicas a algo mais power que a gente espera nunca precisar). O que vamos usar para dormir, para a prova, para a chuva, para o sol, para antes e para depois. É praticamente o paraíso dos planejadores!

E, claro, no meio de tudo isso temos que treinar bem. No nosso caso, muita corrida e muito yoga, essa é a nossa fórmula mágica para unir fortalecimento, alongamento, respiração e flexibilidade com um volume considerável de corrida. E muitas subidas, de preferência na trilha. Aliás, pessoas mais experientes, estou super aceitando sugestões de locais bacanas para treinar na trilha em SP ou arredores, de preferência lugares onde seja seguro se for um grupo pequeno e apenas feminino -- se bem que qualquer coisa eu levo a minhã cã feliz, a Mindy, que é uma fofa mas não deixa de ser um pastor alemão preto tamanho G com cara de lobo das estepes.

Enfim, a aventura já começou - e com certeza esse blog e vocês leitores já fazem parte dela.


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Cachorro cansado é cachorro feliz


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 31/08/09 às 20:29 na(s) categoria(s) historias de corrida
Quem tem cachorro sabe que isso é quase um mantra. E nada deixa um cão (ou uma cã sorridente como a minha) mais feliz que uma boa corridinha.



Depois que vi esse vídeo juro que fiquei tentada a transformar num business e oferecer nas horas vagas --que seriam sei lá que horas, mas para projetos mirabolantes isso não importa.
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Uma questão de perspectiva


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 31/08/09 às 19:24 na(s) categoria(s) historias de corrida
Esses dias estava falando com a minha amiga Ceci, que tem aquele dom parabólico de captar o que está rolando sem vc precisar dizer nada. Falávamos de percepções de esforço durante os treinos, que é aquele tipo de conversa que faz quem não corre bocejaaaar, bocejaaar e desejar ter ido assistir TV Senado que ia ser mais divertido. O ponto central desse tão intrigante tema era o quanto o mental afeta a nossa percepção de velocidade e cansaço.

Lembro que uma vez, quando estávamos treinando para uma meia maratona, teve um mês onde fizemos 6 tiros de 1K (entre vários outros tipos de treinos, claro). Mas por quase 5 loooongas semanas, chegava 3ªf e a gente já tinha aquela sensação de deja vu: tiro de mil. Aí vc corria naquela bendita (pq estou uma moça fina de família hoje) volta de mil do Ibirapuera. A descidinha que te anima, a sensação de ai-meu-deus-vai-começar quando o embalo da descidinha acaba, o lago de um lado, aquele mato escuro suspeito do outro (eu corro a noite, lembrem-se), a subidinha no final dos 500m, se aguenta como pode até o banheiro e dali o sprint corre-pra-vomitar até o final. Daí respira 1 min e começa tudo de novo.

Na 4ª volta parecia que não ia dar. Sempre dava, claro, mas era tudo muito sofrido. Sim, porque a gente Sofria com S maiúsculo. Seja por ver sempre aquela mesma volta no mesmo bat percurso seja porque parecia que o coração ia sair pela boca. Ah, éramos jovens e tolas e achávamos que aquilo era um treino de tiro hard.

Aí, treinando para outra prova, nem tanto tempo depois, nos deparamos com suaves treinos de tiros de 1K novamente. Só que, olha só que delícia, eram 10 tiros ao invés de 6. Na mesma bat volta, claro. E sabem de uma coisa? Não sofremos nem metade do que sofremos com as antigas 6 voltas. Os 10 tiros de mil saíam mais rápidos, mais fortes e terminávamos em melhores condições, o que significa que você conseguia até entender o que as pessoas falavam para você no final do treino -- sim, porque eu quando corro fazendo força DE VERDADE não só não consigo sorrir ou responder perguntas, eu simplesmente não ouço e não entendo o que as pessoas falam. Eu vejo que os lábios delas se mexem, eu sei que elas estão falando alguma coisa, mas eu não faço a menor idéia do que seja. Quem me conhece durante um treino de tiro acha que eu sou a pessoa mais antipática do mundo, quase o Grinch. Mas juro que na hora de soltar eu melhoro e sou até educadinha. Sou capaz até de arriscar um sorriso e responder sua pergunta.

Mas o fato é que ficou muito claro que a nossa perspectiva havia mudado. Não havia passado tanto tempo assim para dizer que tinhamos melhorado nossa performance ao ponto das 10 voltas serem a mesma coisa que as 6 voltas eram antes. O que mudou mesmo foi a nossa EXPECTATIVA.

Como já sabíamos que seriam 10 voltas, nos preparávamos para isso e a 6ª volta era só um ufa-já-passou-da-metade e não a volta final pra morte. Ao mesmo tempo, dava uma sensação boa ver que estávamos conseguindo fazer o treino bem, e isso dava forças para correr a próxima.

Ou seja, aquele sofrimento todo com os 6 tiros era basicamente só cabeça e não corpo.

O cérebro dizendo que era cansativo, que não ia dar e o corpo realmente se exauria. A percepção do cansaço era muito maior e a performance muito pior. Quando a percepção de cansaço diminuiu, mesmo com um volume bem maior (e intervalo menor) a performance melhorou.

Não é toa que cada vez mais atletas vêm usando PNL nos treinos (programação neurolinguistica). Não, não estou falando de repetir "hei de vencer" e sim de tentar simular elementos da prova mentalmente antes de enfrentá-los. Porque o cérebro lida melhor com coisas que ele já viveu --e a pegadinha é que ele não sabe bem diferenciar se viveu MESMO ou se foi uma simulação bem feita. Então se vc enfrenta uma prova onde dá um cansaço master, dói alguma coisa ou ocorre algo que te desanima, se vc conseguiu treinar seu cérebro a ignorar o desânimo vc consegue ir em frente. Ele olha a situação, procura nos arquivinhos do passado e diz "Ahhh taaaa, isso já aconteceu antes e deu tudo certo, é só continuar". Agora, se ele acha que é uma situação nova e potencialmente perigosa, ele começa a fazer seu corpo diminuir o ritmo, aumenta a sensação de cansaço e te enche de pensamentos tipo deu-acho-que-vou-parar.

Na prática, vc precisa deixar seu cérebro em um estado feliz-meditativo, ou pelo menos mante-lo quietinho e calminho enquanto seu corpo faz o que é preciso. No mínimo incorpore a linha se-não-vai-ajudar-pelo-menos-não-atrapalha. Não precisa parar de pensar, lógico, senão vc vira uma ameba corredora e isso não é bom, certo? Ou então distraia sua mente com questões como essa, ou fique planejando como vai ser seu próximo post no blog. Vale tudo para ela esquecer que vc está ali correndo.

No fim das contas, a moral da história é: ignore sua mente, abaixa a cabeça e faz força :-) Né Cris?
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Antes de iniciar a prática esportiva consulte um médico para realizar exames que qualifiquem o seu estado de saúde para tal.
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