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nataliay
São Paulo, SP

Corredora Zen :-)

Corredora Zen :-)


Histórias de corrida e um pouco sobre qualidade de vida, yoga, saúde e alimentação e, claro, provas. Para mim, corrida é um tipo de meditação e escrever um tipo de diversão. Muito prazer, eu sou a Natalia Yudenitsch, mas pode me chamar de Nat.

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Cobertura Cruce


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 01/03/10 às 10:33 na(s) categoria(s) provas
Pessoas queridas que acompanharam os perrengues do Cruce comigo neste blog, aí vai um vídeo feito por uma das pessoas bacanas e divertidas do nosso mega grupo, com descrições narradas em 1ª mão pela pessoa que não só me abriu este mundo da corrida mas que me fez acreditar que qualquer meta maluca, como fazer o Cruce de los Andes, não só dava como ia ser divertido: Cris, nossa treinadora e amiga, que para variar arrasou  e levou, junto com o Manzan, o 1º lugar de duplas mistas do Cruce, a única bandeirinha brasileira no podio patagônico.







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Cruce parte final - Yes we can!


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 17/02/10 às 20:19 na(s) categoria(s) provas
Pronto pessoas, juro que essa é a parte final desse relato, senão vcs vão ter que me abater a tiros. Aliás, vcs devem ter notado que o post anterior quase não tem fotos - isso porque no meio da desgraceira, na chuva, com seu cérebro parcialmente congelado, ninguém se arrisca a soltar um "que tal uma fotinho?", que era capaz de juntar uma matilha de corredores mal humorados e repolhar o autor da idéia (repolhar: aquilo que faziam com seu caderno de escola e que o deixava com cara de repolho, totalmente imprestável).

Mas ah, o 3º dia foi outra categoria de dia. Primeiro que de manhã parou de chover (exatamente como a previsão dos sites de esqui tinha dito, gente, acreditem na internet). Mesmo tendo que vestir uma outra peça de roupa úmida, a perspectiva de um solzinho já é outro papo. E olha que nós, refugiados do campo 1, mais conhecido como Acampamento do Vale da M*** (leiam post anterior para entender), tivemos que percorrer 5K para poder largar, já que a largada foi super estrategicamente posicionada no Refugiados 2. Ou seja, ao invés dos 37K prometidos para o dia, foram 42K, uma maratona na Patagônia, tudo o que vc queria depois de dois dias se acabando nas trilhas.

Ao chegar no acampamento amigo, de novo aquele enrolation para poder largar (desaquece tudo de novo, põe fleece, luva, gorro, a rotina das filas). A essa altura ninguém mais respeitava nada, a organização estava com moral zero e as pessoas só queria largar logo e pronto. Para não quebrar a rotinha, 2K da largada ela, a sua, a nossa... fila! Mas foi a única do dia e demorou só 40min, pois era uma ponte moderna onde podiam passar até 10 pessoas por vez, uma verdadeira multidão.

A partir dali, foi só alegria. Uns 22K de plano - e dessa vez era plano mesmo, e não aquilo que costumam chamar de plano da Patagônia. Só que, ao contrário de um trecho planão de cidade, não era nada monótono: era lindo e mudava completamente a cada 30 minutos. Primeiro vc corria por uma planície aberta, enorme, que se perdia no horizonte e tinhas tons terracota. Aí vc fazia uma curva e ia parar numa trilha pantanosa e cheia de arbustos, com vista para umas corredeiras verde esmeralda. Aí vc chegava num riozinho de águas transparentes e muitas pedras verdes (gente, tem MUITA pedra verde ali). Que vc tinha que atravessar, lógico. Dica: diga bem alto "ah, que bom, aproveito para fazer gelo nas pernas!" e vai com fé.

Aí vc passa por dentro de trilhas da Floresta Encantada, esperando encontrar animais míticos, elfos, orcs, hobbits e quiçá um pote de ouro sem duendes. Quando chega a subida vc já está tão em êxtase que conseguiu correr sem parar até ali que nem liga e sobe feliz e saltitante (tá, talvez só feliz).

Um hora vc chega numa ponte que é o próprio portal para a Terra Média de Tolkien. Sei lá, o 3º dia para mim foi tão bacana que eu estava a própria Pollyana Moça da corrida de aventura, achando que tudo tinha um lado bom e belo. Correndo e comendo pelas trilhas, com o sol marcando presença a ponto de colocar boné.

Aliás, uma parada para falar da alimentação no Cruce: se planeje bem que ela não vai te deixar na mão. Depois de várias experiências (comer de 1h em 1h, comer de 45min em 45min) no 3º dia nosso ponto de equilíbrio foi comer uma merrequinha de 30min em 30min. A dica é: OUÇA SEU CORPO, que ele sabe o que vc precisa a cada momento. Se vc prestar atenção, vai ver que uma hora ele pede salgado, outra hora doce, que as vezes só um gel passa e outras ele quer algo mais substancioso. Outra coisa que a Cris e a Vivi insistiram muito (para nossa sorte): não pare para comer, coma caminhando - pode ser devagar, mas não pare, que parar abre uma diferença de tempo GIGANTESCA da qual vc vai se arrepender depois.

Mais uma dica - super obrigada Zé - é, na hora que seria mais ou menos hora do almoço, coma algo com mais "sustância". No meu caso, uma bisnaguinha recheada de peanut butter. É, eu amo peanut butter, a de verdade, não aquela coisa cristalizada que vendem na maioria dos supermercados nacionais. Mas se vc não for alien como eu, pode comer a bisnaguinha com polenguinho (só lembre que o recheio vem na caixa e tem que ser algo que não estrague fora da geladeira, aliás nada do que vc trouxer).

Algumas coisas que levamos para comer:
  • castanhas salgadinhas
  • damascos secos
  • bananinha (que qualquer loja de bairro de doces vende)
  • gel (no nosso caso GU chocolate, devidamente dentro da garrafinha que não pode levar sachê na prova)
  • sanduiche c/ pão de fácil digestão (no nosso caso, achamos a bisnaguinha recheada perfeita)
  • barra de proteína (corte em uns 4 pedaços e vá comendo aos poucos senão não desce)
  • isotônico (no Cruce tinha Gatorade a vontade na largada e chegada, então dava para encher as garrafinhas)
  • sal
Ah, e deixe tudo isso nos bolsos laterais da mochila e nos bolsos, nada que vc tenha que parar ou abrir a mochila para pegar. E pessoas, não subestimem a alimentação, tem que comer mesmo se não sentir fome, que a prova acaba para muita gente por não comer e beber água direito.

Mas voltando ao dia 3: e então uma hora começou a ficar com cara de que estava chegando. Vc começa a ver pessoas caminhando com suas famílias. Pessoas com o abadá da prova batendo um pratão paradas no acostamento. Aí vc tem certeza de que chegou. Ainda bem que uma gentil alma feminina nos previniu: "está quase chegando, mas tem uma subida IMPORTANTE e aí chegou", ela disse. Quando uma corredora diz que a subida é importante, se prepara mermão. Que aí vem casca.

Dito e feito. Faltando tipo 2K para a chegada, tem um paredão que vcs não têm NOÇÂO. Daquele tipo que se vc ficar reto cai pra trás, sacumé? Imagina depois de tudo aquilo ainda ter que passar aquela coisa vertical. Tive muita dó de quem estava meio machucado e tinha se segurado até ali. Porque depois de subir o paredão tinha, óbvio, que descer o mesmo paredão do outro lado. Precisava MESMO gente?? Jura?

Mas OK, depois disso realmente era a chegada. E nessa hora as endorfinas bombam, vc chega num estado de euforia de dar inveja em personagem de desenho animado. Vc perdoa tudo, esquece o perrengue do dia 2, a chuva, o cansaço, o mundo é belo e vc conseguiu TERMINAR O CRUCE! É uma sensação sem igual e nessa hora ter uma dupla é tudo, porque é um momento uuhuuuuuuu que vc TEM que dividir com alguém. E eu dividi, com a minha dupla nota 1000, que resumiu nossa conquista de forma brilhante em uma frase Obama style que eu pego emprestado para batizar esse post: CRUCE: YES WE CAN!

Eu adoraria terminar o relato aqui. Porque seria o ponto final lindo. Só que não foi bem assim. Porque passada a chegada, tiradas as fotos, dados os gritos de vitória, tinha a parte da emigração. E começou a chover. Resultado: vc tinha que ficar na chuva enquanto o povo examinava, assinava e carimbava LEN-TA-MEN-TE seu passaporte. Eles não pareciam se importar de ficar na chuva, nem de deixar a tinta escorrer pelos documentos, mas eles não tinham fechado 100K (porque os 90K originais com os adendos viraram 100K) em 3 dias.

Mas OK, passou essa etapa. Aí vc tinha que andar (numa subida) até o local onde iam te levar de volta para o hotel quentinho para vc tomar um banho quente e gostoso e comemorar com seus amigos. Seria a chave de ouro do evento. Mas isso se as vans tivessem vindo nos buscar. Porque sabe quanto tempo tivemos que esperar NA CHUVA, ACABADOS, CANSADOS, NO FRIO? Duas horas. MAIS DE DUAS HORAS! Gente, é muito! Porque nessa hora sua resistência acabou. Mesmo trocando de roupa seu tênis tá encharcado, continua a chover, não tem onde se abrigar e a droga da van não vem - e vc sabe que a volta é um percurso de MAIS de 2h.

Isso foi a falha que considero realmente imperdoável da organização. Porque eles SABIAM quantas pessoas estavam inscritas, logo sabiam quantas vans iam precisar. E olha que teve um monte de desistências einh? Essa logística não tem desculpas. Porque sabe tudo aquilo que eu falei da alegria de terminar, da euforia onde vc começa a planejar voltar ano que vem, do momento em que vc perdoa tudo? Pois é, ele só vale até aquele momento em que vc termina. Pisar no tomate depois disso é estragar a experiência do cliente, e logo num momento em que ele estava disposto a esquecer erros passados e começar a se programar para a próxima.

Passamos tanto frio que foi ali que usamos nossos cobertores térmicos de sobrevivência: na espera da van. Ridículo né? O pior foi chegar ao hotel as 23h30, não ter mais restaurante aberto e vc ter que jantar batata e atum em lata no quarto do hotel. Ah sim, e seu avião sai no dia seguinte de manhã e vc tem que tirar suas coisas da caixa. Que está lá abandonada, sem nenhum controle, no mesmo campinho. Não tinha ninguém da organização lá nem as 11h da noite nem no outro dia de manhã quando pegamos nossas coisas. Se alguém quisesse arrombar sua caixa e levar tudo, beleza, não ia ter ninguém para ver ou impedir.

Uma pena isso, porque o final da parada deu uma azedada - mas não o suficiente para tirar o gostinho de vitória que eu sou uma pessoa zen, né? E com amigos de prova como os nossos - daqueles que comem palhacitos de manhã e fazem vc rir o resto do dia- nenhum perrengue é intransponível.

Pesando tudo, se vale a pena? VALE! Vale MUITO. Porque a adversidade faz parte, tem muita coisa ali que não tem como controlar, outras que foram falhas gravíssimas de organização, mas o prazer da prova é só seu, ninguém tasca!

Então pense nisso antes de desistir. A Cris falou bastante com a gente sobre o preço de desistir de uma prova e vou guardar isso pra sempre, porque é muito verdade: se vc tiver se machucado de verdade é uma coisa. Aí parar é uma questão de responsabilidade, tem que parar SIM. Agora se vc está sentindo uma dor que sabe que não é de lesão, se vc está cansado, quebrou na subida, não aguenta mais chuva, perrengue, dor muscular, cansaço, fila e erros da organização, não para não. Senão vc vai sempre ficar com aquela dúvida: e se? E se eu tivesse terminado? Será que dava? Será que não dava? Como seria? É um preço alto a pagar. E o ganho de terminar é gigantesco. Vc se sente gigante. Vc vira gigante. Porque vc conseguiu, não importa em que condições nem em quanto tempo. Yes, you can :-)

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Cruce parte III - O Vale da M....


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 16/02/10 às 16:39 na(s) categoria(s) provas
Dia 2 do Cruce, o grande divisor de águas da prova. Porque qualquer pessoa que tivesse tido o trabalho de acompanhar online as previsões das estaçoes de esqui mais próximas (fica aqui a dica) sabia que no sábado ia chover. E muito.

Isso ficou claro já na noite de sexta, quando a água começou a castigar as barracas de madrugada. Como a nossa era alugada, no melhor estilo é-o-que-tem-para-hoje, havia o inquietante risco dela nao aguentar chuva forte. Já havia até um plano B de para quais barracas a gente ia correr se a danada alagasse. Que reconfortante, nao? Mas eu dormi tão pesado - apesar do ronco estilo Globo da Morte de Certa Pessoa que negou ser autor de tão doce melodia depois - que só fui me preocupar com isso pela manhã, ou seja, a barraca resistiu firme e forte.

A complicaçao começou com a largada, que ficou sendo muito, mas MUITO mais tarde do que eu pensava: quase 10h. Na boa, quem não é elite e não termina a prova em 3h não deveria ter que largar depois das 8h, pq chega muito tarde. E NUNCA consegue pegar o almoço pelo qual pagou, então fica a dica: pessoas não-elite, pensem bem antes de gastar seus dolarzinhos suados reservando os almoços, porque nós nao vimos nem a cor dessa refeição, poderíamos ter pago só o jantar e ter gasto o resto com chocolate e vinho que teria sido muito mais bem pago.

Largar na chuva nunca é bom. Largar na chuva, no frio e sabendo que ia pegar fila e a pior pirambeira da prova é infinitamente pior. Mas vambora que faz parte. Já no comecinho, adivinha? Acertou, fila de novo. Dessa vez pq a trilha estava um lamão e o povo passava devagar, tateando bastante antes de decidir onde passar, com medo de escorregar logo no comecinho da prova. Anota aí, mais 50min de piadas e gritaria do nosso grupo, só que debaixo de chuva. Um mimo.

Daí pra frente só foi piorando, como esperado. Mesmo fazendo um percurso alternativo - o que foi um ponto positivo nesse dia péssimo- porque o principal ia ficar inviável na chuva, foi uma subida só. Nesse dia eu conheci o trekking pool, aquele bastão moderninho de caminhada. Olha, tenho que confessar: não nos demos muito bem.

No começo, como em todo relaconamento, eram tudo flores. Ele me salvou de morrer afundada na lama movediça das encostas encharcadas, evitou que eu escorregasse e basicamente foi essencial para esses trechos lamacentos. Mas aí a lama diminuiu, a subida ficou mais íngreme e nossa relação começou a ficar desgastada. Eu juro que nao consegui me acertar com ele. Porque meu jeito de subir ladeira da morte pressupoe uma certa mecanica, com as maos se movendo no mesmo ritmo que as pernas e ajudando na subida, estilo curvada-para-frente-mao-no-músculo-da-coxa-a-cada-passada, sabe como é? Pois com o danado do trekking pool nao dá para fazer isso, seus braços tem que seguir um ritmo bem diferente das pernas e nao podem encostar nas pernas. 

Teoricamente eu deveria estar distribuindo meu peso com o 3º apoio e fazendo menos força para subir, como as pessoas afortunadas que sabiam o usar o bastão infernal. Não foi o meu caso, me senti fazendo o dobro da força que normalmente faria, me sentia desengonçada, simplesmente não conseguia subir. Tipo péssimo.

Minha sábia dupla, habilidosa e faceira com seu trekking pool que só, não estava acreditando na minha dficuldade. Quero dizer, não que ela duvidasse de mim, é que parecia bizarro demais para ser só um problema de relacionamento com um objeto inanimado. Ela me garante que era algo mais que isso, mas juro, eu não estava me sentindo mal, nem fraca, nem com dor. Eu só não conseguia subir como uma pessoa normal, estava mais para zumbi escalador, sabe aquele andar lento e desengonçado de quem já morreu e esqueceram de avisar? Era eu.

Mas uma hora eu consegui começar a ignorar aquele equipamento desconcertante e voltar a acelerar. Tá, eu basicamente comecei a parar de usá-lo, até que a lama acabou ao ponto de eu poder devolve-lo. Um dia quem sabe revemos nosso relacionamento, quando eu superar meu bode e fizer as coisas direito, ou seja, treinando com ele antes para pegar o jeito como fizeram as pessoas mais espertas.

Enquanto isso, a trilha seguia rumo ao céu. O lugar mais lindo do dia para mim, disparado, foi a Trilha do Abismo, um caminho estreito tão no alto que vc corria acima das nuvens. PÁRA TUDO E IMAGINA: vc correndo e do seu lado direito a encosta da montanha e do lado esquerdo um abismo, com as nuvens paradas ABAIXO de vc. Inesquecível.

As coisas complicaram quando começamos a nos aproximar do fim. A chuva apertou muito e mesmo um bom impermeável uma hora joga a toalha, pq vc já cozinhou por dentro e pq esse entra e sai dos rios gelados + o temporal já conseguiu te encharcar até a alma. Aí nós fizemos algo que vcs nunca devem fazer: perguntar a alguém da oranizaçao quanto fatava para a chegada. O carra disse com muita convicção: un quilometro e medio. BELEZA! Mamão no açucar, estamos chegando, nem precisa mais comer. Acreditou? Dançou playboy. Faltavam mais de 5K. O que é ridículo no Ibirapuera, mas é uma vida no final do pior dia do Cruce.

Teve uma hora que comecei a correr de puro desespero. Tremia tanto de frio que achei que ia congelar ali mesmo e um dia, no futuro distante, iam me achar presa dento do bloco de gelo, tipo vejam a anta pré-histórica que acreditou na información do cabrón.

Aí vc finalmente chega e descobre que algo mais deu errado. Mais da metade das caixas, os banheiros e coisas do camping não chegaram nem vão chegar. Com a chuva uma ponte quebrou e só alguns caminhões conseguiram passar. Então, se sua caixa está lá, vc fica ali mesmo, se não, entra num caminhão de campo de concentração, anda 500m, desce dele e anda mais 5K até o acampamento 2, passando por um rio geladésimo.

Acharam péssimo ir até o acampamento 2? Isso porque vcs não ficaram no acampamento 1 como eu. Por que esse acampamento ficava num lugar batizado de.. Vale da Merda. Aliás, antes que alguém reclame, este é um blog fino e de família, que não usa de palavras de baixo calão. O termo, neste caso, é apenas a descrição literal da verdade. Quase um termo técnico. Porque o chão desse acampamento era feito de.. bem, não tem um jeito delicado de dizer, excremento de vaca. Nao estou exagerando, nao dava para ver nem um pedacinho de grama molhada ali, era esterco puro. E os lugares que não estavam assim digamos, decorados, estavam alagados.

Daí vem a pior tarefa da noite: montar a barraca na chuva, no cocô, tremendo de frio, encharcada e a um passo da hipotermia (pelo menos era essa a sensaçao). Nosso amigo francês de alma bondosa que se dispôs a ajudar a montar a barraca deve ter ficado impressionado, no pior sentido possível. Já sentiram o cérebro congelar? É assim: alguem te fala "pega aquela estaca ali" e seu cérebro fala "estaca? o que é uma estaca?" e durante esse processo vc fica imobilizada, tremendo, com cara de ã, tipo protetor de tela com janelas Windows voando. As pessoas falam com vc e na sua expressão as janelas continuam voando. Aí quando vc consegue processar a informação e pega a tal estaca, não consegue colocá-la onde devia, pq seus dedos estão duros de frio e vc treme tanto que erra o alvo diversas vezes. Uma delícia, especialmente se vc lembrar que vc PAGOU para ter essa experiância. Palmas para vc. Gênio.

Aí vc entra catatônica na barraca, se troca e o cérebro começa a descongelar, junto com as roupas quentinhas. Nao fica ótimo, pq afinal nao pára de chover, vc está literalmente na merda, seu abadá está encharcado, assim como a mochila, impermeável, luvas e manguito. E vc vai ter que usá-los no dia seguinte. Oba!

Somando isso ao fato de que no Campo de Refugiados 1 (o nosso) não teve banheiro, a comida chegou as 20h, tudo na barraca estava úmido e nao tinha ninguém da organizaçao p/ vc se informar, nao foi assim um final de dia gostoso. E consta que o povo do Refugiados 2 foi quem se rebelou, dizem que houve gritaria, palavras de baixo calão, pitís e muitas muitas desistências, já que a organizaçao estava toda lá. E olha que no camping deles tinha até banheiro, alem do chão ser de grama com apenas eventuais presentinhos das vacas aqui e ali. Tem gente que era feliz e não sabia.

Eu entendo o povo que desistiu. Dava vontade mesmo. Quem tinha ido no clima um-passeio-mais-longo-entre-lindas-paisagens viu a casa cair. Mas por outro lado, na montanha CHOVE, gente. Pontes caem. O que pegou foi a falta de informação nos campings e um preparo mehorzinho para a chuva, já que sabendo que ia cair o mundo podiam ter pensado pelo menos numas loninhas de cobertura e numa logística de largada melhor.

Mas afinal, depois de dormir no Vale da M**** vc acha que a gente ia desistir? ÓBVIO QUE NÃO, NÉ? Porque a lógica diz que piorar não podia, entao o dia 3 só podia ser ótimo. E foi!


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Cruce parte II - Permiso! Permiso!


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 12/02/10 às 12:16 na(s) categoria(s) provas
Eu sei, eu devia ter postado isso ontem, mas me deem um descontinho que eu ainda estou meio slow motion, sabe aquela tirinha do Calvin quando ele era atacado pela câmera lenta e só conseguia fazer as coisas leeennnnnntaaaaaamennnnnttttte? Pois é, me pegou também. Mas senta que lá vem a história. Cruce de los Anes 2010, dia 1.

Primeiro a dúvida cruel: afinal, larga cedo, médio ou tarde? Porque tem mais de 1h de busão para chegar até a largada. Super cedo dava medo de ter que ficar horas esperando a elite largar. Muito tarde vc pega todos os caminhantes. E o seu tempo no 1º dia vai definir o horário de largada dos próximos. Tentamos o meio termo, mas na prática ficou tarde e acabamos pegando muito trânsito de pessoas. Conclusão: larga cedo e se tiver que esperar, espera lá.

Na largada, muita emoção, WOW COMEÇOOOOOU! Trilha adentro, logo começa a pirambeira. Só que uma prova de aventura com 1.500 pessoas tem suas desvantagens: faz fila. Isso mesmo, vc acha que deixou Sampa para trás com suas filas para tudo e ali, em plena Patagônia, adivinha: uma fila! Que delícia. E nos trechos de trilhas estreitas, nem tem como ultrapassar ninguém, ou seja, vc tem que esperar quem for mais lento conseguir subir ou atravessar um trecho mais difícil.

Aliás, a ultrapassagem merce um comentário a parte. Todo mundo que fez o Cruce aprendeu que para passar alguém é assim: vc grita "Permiso! Permiso! Por la esquerda! Por la esquerda!" e sai cotovelando e se enfiando na frente que quem for. O primeiro que me passou desse jeito delicado como um hipopótimo com dor de dente quase me joga montanha abaixo, um exemplo de urbanidade. E tem também as pessoas que não te dão o tal permisso nem que a vaca tussa, bata palmas e cante Aída. Tipo de picuinha mesmo, abrem bem os braços, colocam seus trekking pools em posição de ataque (aquela que se vc tentar passar de qualquer um dos lados vira literlamente espetinho) e brincam de surdinhos, mesmo quando dava para passar uma pessoa de cada lado com folga.

Mas enfim, vc aprende que gritar "Permiso! Permiso!" é a senha para sai-da-frente-senão-eu-passo-por-cima. Claro que também tem muita gente educadinha que fala "Permiso!" sem trincar de dentes nem olhos injetados e que percebe que em alguns lugares não tem como dar passagem, porque só passa um, espera a 1ª abertura e ainda solta um gentil "Gracias!" quando consegue passar. E vc que achava que a aventura da corrida de aventura era só porque não era asfalto né?

O grande mico do 1º dia foi também a grande beleza. O mico leão dourado premium desse dia 1 foi ela, a fila. Imagina que vc está aquecido, finalmente passou aquele bolão de caminhantes e pessoas mais lentas que vc, trotando feliz e contente pela Patagônia adentro quando de repente... vc pára. E vê na sua frente uma fila de umas 80 pessoas. Todas paradas e pelo jeito há um tempo. É tipo estar a 110KM na estrada e de repente surge aquela fila do pedágio.

E sabe por que a fila? Porque tinha uma ponte láááá na frente onde só se podia passar de 2 em 2. Façam as contas, 750 duplas (tirando o povo de elite que era, sei lá, chutando umas 100 pessoas) tendo que passar civilizadamente em duplinhas - e a próxima dupla só passa depois que a primeira pisar o último pé fora da ponte. É ÓBVIO que ia empirulitar o trânsito né? Claro que são normas de segurança e precisam ser seguidas, mas valia um fracionamento melhor de quantidade de pessoas largando para não embolar desse jeito né não? Pisada no tomate da organização. E chuta quanto tempo a gente ficou nessa fila? 1h30. É, leu certo, uma-hora-e-meia.

Deu tempo de comer, esfriar completamente, vestir o fleece, luvas e gorro, fazer amizade com todo mundo próximo a vc na fila, contar piadas biligues e trilingues, fazer xixi no matinho, sentar no chão de pernas cruzadas, passar umas 3 ondas de ÔLA pela fila, tirar tudo de novo e guardar na mochila.

Só que quando chegou nossa vez de passar na ponte, ficamos até sem fala. Pessoas, que visual era aquele?? Foi de longe o ponto mais lindo do dia. Porque debaixo dessa ponte passava un rio caldaloso verde esmeralda com uma queda d´água majestosa logo acima que juro, era de tirar o fôlego e perdoar na hora o tempo de espera.

O duro é voltar a correr depois que vc já esfriou totalmente. Mas enfim, faz parte e continuamos. O percurso desse dia era assim: piramba, descidinha, piramba, descidinha, alguns metros de planinho, outra piramba. No meu caso isso signifcou anda-corre-anda-corre, o que eu gostei.

Mas quando vc achava que toda essa coisa de fila estava no passado, aconteceu de novo. Parou tudo. Isso porque dessa vez a promessa era que seríamos levados de barco para atravessar um trecho do lago lindo (de onde vc já ouvia os sons de pessoas felizes que chegaram muuuuito antes de vc ao acampamento, tipo aquele trecho da meia do RJ onde vc passa pela chegada no aterro do Flamengo). Ah, ok, vamos passear de lancha, uhuuu! Daí, uns 40min depois, novo aviso: gente, cancelamos os barcos! Tá demorando muito e ficou decidido que vcs vão fazer esse trecho a pé.

Traduzindo: vai andar 4K a mais que o resto e ainda voltar boa parte do trecho e contornar o lago, pegando, lógico, subidas. Teve gente que chorou ali. Eu só fiquei com um mau humor do cão e saí correndo e fazendo cara de serial killer para qq pessoa de fleece vermelho da organização. No final, a parte ruim dessas esperas todas é que a fila foi um grande unificador de tempos. Se vc saiu mais forte, no final chegou quase junto com quem estava bem mais fraco, pq a fila aproximou todo mundo. Que democrático né?

A chegada no acampamento, porém, foi o máximo. O camping era num vale lindo, cercado de montanhas de picos nevados, as ruazinhas coloridas todas organizadinhas (porque cada container tinha uma cor, que correspondia a uma rua onde vc tinha que montar sua barraca). Nós, pessoas privilegiadas que temos gente do calibre da Cris, Zé, Belô, Camila, Vivi, Marcela, Laurent & Cia nos ajudando já estávamos com as caixas ali. Aí era montar a barraca (seguindo instruções, lógico, senão estava até hoje lá olhando para as estacas com ar perdido), tomar aquele banhão de baby wipes, trocar de roupa (2ª pele + fleece grosso + blusão impermeável + calça+ meia quente + croc no pé), pegar seu pratinho e talheres e rumar para a tenda da comida. Que aliás, estava ótima! Comi super bem, disso não posso me queixar. Tinha massa, carne p/ os carnívoroes (que falaram que estava excelente), sopa e até salada.

Pança cheia, o lance era deixar tudo pronto para o dia seguinte, pegar o saquinho com as roupas já prontas do dia 2 (que nós somos mocinhas organizadas e prevenidas), separar as comidas para durante a prova, o café da manhã, tomar uns goles de vinho e apagar. Se eu dormi? Não, eu praticamente morri e ressuscitei no dia seguinte. Que foi onde toda a desgraceira começou - mas isso é para o próximo post.

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Cruce parte I - chegar é 1 aventura


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 10/02/10 às 13:31 na(s) categoria(s) provas
Pessoas, estoy de vuelta del Cruce! Pelo título, vcs já notaram que essa prova vai render váááários posts, então quem já está com sono desde já melhor ir assistir maratona Agente 86 ou algo assim. Para resumir e acabar com o suspense principal, sim, a prova é O Máximo. E sim, é casca. Vc passa uns perrengues que jura que nunca-mais-na-minha-vida-entro-numa-roubada-dessas e depois que acaba já começa a planejar a próxima e acha tudo lindo, até o congelamento cerebral que vc sofreu depois de passar horas na chuva gelada.

Mas estou me adiantando. Como toda boa história, essa começa com uma jornada. Nada complexo, teoricamente só pegar avião para Buenos Aires, dali para Bariloche e dali o transfer para Cerro Catedral. Longo mas simples né? Seria se as bagagens viajassem junto com vc.

Porque a nossa aventura começou mesmo no aeroporto de Bariloche, depois de 2 voos tão lotados de equipes brasileiras conhecidas que super parecia aquela excursão de busão da 6ª série. Com direito a pessoas gritando, zilhões de piadinhas infames, gente atirando bolinha de papel em quem dormia, pessoas dando olhares de reprovação e um clima de alegria geral. Que lindo.

Em Buenos aquele verão ameno, uns 24°C. Todo mundo de bracitos de fora, alguns shorts, muita descontração. Aí chegamos em Bariloche e o piloto avisou: temperatura local 8°C. E baixando. Nossa dupla, previnida e control freak que só, já estava de botas do Gato de Botas e uma jaqueta bem quente na bagagem de mão. Ótimo, pensamos em tudo. Em tudo menos na possibilidade das suas malas não chegarem.

Na esteira do aeropuerto de Bariloche, uma coisa estranha. Um mocinho não parava de tirar malas da esteira e acumular numa pilha cada vez maior no canto. De quem seriam? E por que as nossas não chegavam? Meia hora mais tarde, depois que apenas uns 30% das pessoas do voo tinham conseguido resgatar metade de suas malas, um aviso singelo: gente, as malas de vcs não vieram nesse voo! Era muito peso e como já estávamos trazendo as bagagens do voo de ontem, que também não chegaram junto com seus donos, não deu para trazer as de vcs, foi mal. Amanhã a gente manda pro hotel, beijo tchau.

Simples assim, não adianta chorar, reclamar, gritar, dar pití. Hoje não tem mais voo Buenos-Bariloche e só amanhã as 10h chega um novo. Para mostrar o quanto vcs são importantes, nós mandamos entregar no hotel e that´s it.

Aí teve aquela cena do povo de blusa de alcinha tiritando de frio e gente que tinha trazido a bike sentindo aquele frio no estômago porque a bike superequipada estava perdida em algum lugar entre Buenos e Bariloche. Aliás, tenha MEDO, muito medo desse aeroporto. Coisas ruins acontecem ali. Suas malas somem e quando aparecem parece que uns 150 anões de Minas Morgul tentaram escavar diamantes com picaretas da sua bagagem - e conseguiram, porque vem faltando umas partes.

Mas como eu sou uma pessoa zen, fui para o hotel curtir o friozito, que aliás estava ótimo. O hotel era bacanito, com cara de casinha do Papai Noel e um visual estonteante da janela. No dia seguinte, hora de pegar o kit Cruce.

Nesse quesito, nota 10 para a organização: vc andava por um shoppingzinho passando por vários estandes e recolhendo coisas na sacola, tipo um videogame. E olha só quanta coisa: fleece, chip, pratos, talheres, copo, canecas térmicas, garrafinha, barrinha, chá mate, chocolates, toalha, bandana e, claro, o abadá. Abadá é como batizamos a camiseta da prova, pq afinal de contas como chama a vestimenta obrigatória para participar de um evento coletivo? Abadá gente, lógico. Que era até personalizado com seu nombre e bandeira do seu país, um luxo. Só mais tarde é que a gente lamentou que fosse só 1 abadá. Porque pensa, é para usar o mesmo nos 3 dias né? Cheirosinho que só.

Um toque muito bacana foi ter a bandeirinha para poder colocar na sua mochila. As nossas fizeram o maior sucesso, super detalhe legal. Depois disso o jeito foi passear em Bariloche, já que as malas não tinham dado o ar da graça. Super chato, uma cidade fofa, com várias ruas infestadas de lojas compráveis, lugarzinhos simpáticos para comer e beber e muito chocolate. Um inferno. Nem tem do que ficar reclamando.

Aí na volta, começa a corrida: pegar as malas voando, separar tuuuuudo para o seu container, levar as coisas até ele (que ficava lááááá embaixo, num campo), fazer tudo caber, fechar, entregar e pronto. Graças aos deuses que ainda existem cavalheiros nesse mundo, senão nossa dupla de mocinhas finas de família teria penado com aquele monte de coisas desengonçadas sendo levadas rampas e escadas abaixo até o tal local das caixas.

No dia seguinte, o momento mais esperado de todos, após um traslado de 1h: a largada. Aliás, um toque: largue cedo. Não tão cedo que vc atrapalhe a elite, mas não tão tarde que vc pegue a massa de caminhantes e pene horas para ultrapassá-la em trilha estreitas.

Descobertas iniciais, anote no seu check list:
  • arrume um manguito, que foi o equipamento categoria revelação da prova; em um clima esquizofrênico como o da Patagônia, que uma hora congela e outra faz sol, não dá para ficar parando vestindo e tirando roupa
  • bandana é tudo de bom, leve a sua (ou use a da prova), evita o suor, protege suas orelhas do vento gelado, segura a onda do cabelo e tem mais umas 1001 utilidades, igual aquele produto
  • tênis p/ trilha é essencial. Parece redundância dizer isso, mas não é. Não ache que o seu tênis de treino no parque serve. Não serve. O grip é tudo nessa vida quando vc precisa subir uma montanha lamacenta. Ah, e leve o 2º par para a prova também. E, precisa sim. (se vc for elite isso não vale para vc, que provavelmente consegue correr perfeitamente até de papete e deve estar achando esse post um tédio)
  • calça ou bermuda com bolso. Sim pessoas, faz diferença o tal bolso, não é frescurite. Pq tudo o que vc não quer é ter que mexer na mochila, então todas as comidas e acessórios que vc for usar durante a prova têm que estar a mão, nos bolsos que ficam no fecho da frente da sua mochila (tipo na sua barriga) e nos bolsos da calça.
  • Óculos. Essa não é unanimidade, mas se vc é como eu e adora um óculos escuro, leve aquele de lente rosa ou vermelha, não vai se arrepender
  • Meia de compressão. Se vc tem, leve, aqui ela faz uma diferença. Se não tem, não vai morrer por isso, não se estresse.
  • Impermeável. Não vá para a Patagônia sem ele. Certifique-se de que ele é impermeável MESMO e não vai te deixar na mão se vc tiver que correr na chuva forte por horas, porque provavelmente vc vai ter que.
  • Luvas. essa também é só para quem tem frio nas mãos como eu. Foi minha salvação e ficava no bolso da calça. Congelou, veste um pouco. Esquentou, taca no bolso.
  • Hipoglós: não saia sem deixar seu pé realmente besuntado nele. Nada de passar de levinho e deixar absorver, é para deixar melequento e nojento e tacar a meia por cima. Vale a pena gente, terminamos o Cruce sem uma bolhazinha sequer, o pé cansado mas inteirão.
  • Meias: tecnológicas, tipo dry fit ou similar, nada de meia de algodão.
  • Camiseta dry fit: leve para por debaixo do abadá, senão vc não aguenta o futum de correr 3 dias com ele e nem sempre dá para lavar e secar (no nosso caso isso nem foi cogitado pelo timing das coisas).
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Agora que passou a São Silvestre...


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 15/01/10 às 12:43 na(s) categoria(s) provas
... acho que dá para fazermos algumas considerações sem o calor do momento. Não, esse ano não corri, porque como vcs já sabem, estava subindo ladeiras em Atibaia. Mas quando corri, tenho que confessar que adorei (tem um pouco disso aqui nesse post).

Adorei o astral, as pessoas fantasiadas, a forma de comemorar o encerramento de um ano e o percurso. Como já falei, não foi nem a mais fácil, nem a mais difícil, nem a mais bonita das provas que já corri, mas com certeza foi a mais *divertida*. Isso APESAR do bafo quente que sai do asfalto e da quantidade de gente que te faz sentir que nem naqueles metrôs japoneses na hora do rush, onde tem funcionários que empurram as pessoas para dentro do vagão para caber mais gente.

Independente disso, assistir a São Silvestre é algo que eu faço questão de fazer. Faz parte dos rituais de reveillon. Tem gente que pula ondinha, come semente e vira o derriére para a lua --assistir à São Silvestre faz parte desse sincretismo, assim como usar roupas de cores específicas ou essa maledeta mania de soltar rojões (quem tem cães que piram com o barulho me entende, tenho certeza).

Para mim, essa corrida tem ligações afetivas, já que é também o dia do aniversário do meu pai e, quando eu era jovem e inocente e a São Silvestre era a meia-noite, assistíamos a corrida preparados com as taças na mão: acabava, rolava a contagem, o brinde e o parabéns, quase que tudo ao mesmo tempo. By the way, eu adoraria que voltasse a ser uma corrida noturna e acabasse a meia-noite. Eu sei, eu sei, tem zilhões de argumentos contra, mas eu continuo preferindo a corrida da virada.

Pois bem, esse ano achei a cobertura da corrida FAIL, uma decepção. Nas 2 emissoras. Aliás, por que sempre tem uma dupla comentarista formada por alguém que sabe do que está falando + alguém que não tem a menor idéia e faz os comentários mais estapafúrdios do planeta? Tipo "vejam o corredor nº xxx acabou de encostar no pelotão de elite!" (era um pipoca, que tinha entrado de gaiato na prova naquele trecho para aparecer um pouquinho). Ou então "e lá vai ele, tranquilo na liderança" (era um atleta que ia parar antes do final, por isso estava dando aquele gás master).
 
Considerando a quantidade de comentários infelizes, a cobertura de imagens tinha que ser ótima, né? Só que não foi. A disputa feminina vc viu? Pq eu não vi. Só vi a largada e depois de muuuuiiiiito tempo mostraram a líder e quando ela ganhou. Os comentaristas nem sabiam dizer quem estava em 2º lugar até mostrarem a pessoa. Ninguém viu como é que a Pasalia disparou, como estava a disputa no pelotão, como estavam as outras corredoras - enfim, como foi a prova em si. E olha que, na minha modesta opinião, o feminino costuma ser mais emocionante que o masculino (não, não é sexismo, é que no feminino costumam rolar mais surpresas, proporcionalmente, mas claro que as surpresas podem rolar em qq corrida) - quem lembra da última maratona olímpica?

No masculino a cobertura também deixou muito a desejar, muito tempo só acompanhando o líder e nada de mostrar aquela disputas e momentos emocionantes que rolam nos pelotões.

Além disso, tem Aquela Questão Espinhosa, que é a das quotas de atletas estrangeiros nas corridas. Acho que não tem resposta fácil para a questão. Quem é a favor de limitar a quantidade de estrangeiros diz que os atletas nacionais, que já nadam em dificuldades e dificilmente arrumam patrocínio, vão perder o pouco incentivo que têm e que dessa forma não conseguem as pontuações necessárias para as provas maiores.

Quem é contra, diz que fazer reserva de mercado é tapar o sol com a peneira e que tem é que melhorar a performance nacional e parar de mimimi, que a vida de atleta é dura e a competição é cruel mesmo.

Eu acho que é fácil bater martelos e distribuir veredictos. Mas a verdade é que essa força queniana (africana no geral) incomoda em todos os países. Nos EUA tem rolado uma queda mo interesse do público leigo em acompanhar as provas porque nenhum norte-americano vence. Ao mesmo tempo, se todo mundo limitar, os quenianos só vão poder concorrer mesmo e pontuar... no Quênia. E quantas provas internacionais e importantes acontecem lá mesmo?

Não é uma questão fácil, esporte para crescer precisa ter público, fãs, heróis nacionais. Ao mesmo tempo, o esporte tem o dom de dar espaço para talentos incríveis que podem surgir dos lugares mais improváveis, mais sem condições - e isso não dá para perder.

Ou seja, eu não tenho uma posição fechada a respeito, pq vejo razão dos dois lados da questão - não vejo é uma solução simples! Na dúvida, continuo em dúvida. E vcs?

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Próxima parada: estação Cruce


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 23/09/09 às 11:47 na(s) categoria(s) provas
Agora virou fato: minha próxima big prova será em fevereiro de 2010 e atende pelo nome de Cruce de Los Andes (http://www.columbiacruce.com/carta2.htm). Agora que eu fiz o anúncio de forma blazé e controlada, posso falar como me sinto realmente: CEEECIIIII,UUHÚÚÚÚÚÚÚ, NÓS VAMOS PRO CRUUCEEEEE!

Ok, sem respirar no saquinho agora, vamos a explicação desse entusiasmo juvenil. Primeiro, algo essencial: essa prova é de montanha e é LINDA. Eu quero dizer, linda MESMO, linda DE VERDADE. Começa na Argentina e termina no Chile, passando nada menos do que pela Cordilheira dos Andes (dã, tá é meio óbvio pelo nome, mas dá uma satisfação contar). São 90K divididos em 3 dias e o mais legal: é em dupla. Digo mais legal porque é a minha 1ª prova desse porte, na montanha MESMO, e poder dividir isso com alguém não tem preço (quero dizer, na prática tem e é em dólar, mas isso a gente abstrai nesse momento).

Minha dupla é minha super amiga e sócia, que além do astral ainda vem uma experiência prévia super bacana de montanha - que vale ouro para alguém que de prova de montanha só lembra daqueles filmes de Everest, onde todos ficam sempre presos em desabamentos, gente morre congelada na caverna depois de cair e ter 3 fraturas expostas e sempre, sempre alguém resolve desafiar os deuses que mandaram sinais dizendo que era melhor não subir naquele dia. Vale também lembrar que a prova acontece no verão (sem congelamento na neve, portanto), não tem nenhuma SUPER altitude comparável ao Everest e tem uma infra ótema: a organização prepara almoço e jantar e leva sua barraca, caixa e sacos de dormir, um luxo só.

Agora que já recebemos o email de confirmação da inscrição é que caiu a ficha mesmo: não tem jeito, agora vai ter que rolar. Nossa equipe foi batizada de DUMA.COM.BR , que é um jabazão merecido da nossa empresa --afinal de contas, é ela quem vai viabilizar nossa ida para a prova, então nada mais justo que destacar nossa patrocinadora-mor (mor porque estamos cercadas de pessoas e empresas bacanas que também estão participando e apoiando nossa empreitada).

Passado momento gente-eu-vou-pro-cruce, começa a fase mais divertida para pessoas control freak como eu e a Ceci: planilhar e listar tuuuuuudo o que tem a ver com a prova. A lista do que é obrigatório levar, do que a gente quer levar e do que seria um sonho poder levar. O tênis certo, o corta-vento ideal. Os treinos que vamos fazer, os preços das passagens, incrições, hospedagens, taxas, refeições e aluguéis de coisas. Que tipo de alimentação vamos levar para o durante a prova. Qual vai ser a produção da nossa equipe (porque obviamente se nossa equipe tem nome esse nome vai ter que estar em algum lugar visível). O que vai no nosso kit de Primeiros Socorros e nem tão primeiros assim (de pomadinhas mágicas a algo mais power que a gente espera nunca precisar). O que vamos usar para dormir, para a prova, para a chuva, para o sol, para antes e para depois. É praticamente o paraíso dos planejadores!

E, claro, no meio de tudo isso temos que treinar bem. No nosso caso, muita corrida e muito yoga, essa é a nossa fórmula mágica para unir fortalecimento, alongamento, respiração e flexibilidade com um volume considerável de corrida. E muitas subidas, de preferência na trilha. Aliás, pessoas mais experientes, estou super aceitando sugestões de locais bacanas para treinar na trilha em SP ou arredores, de preferência lugares onde seja seguro se for um grupo pequeno e apenas feminino -- se bem que qualquer coisa eu levo a minhã cã feliz, a Mindy, que é uma fofa mas não deixa de ser um pastor alemão preto tamanho G com cara de lobo das estepes.

Enfim, a aventura já começou - e com certeza esse blog e vocês leitores já fazem parte dela.


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Pós-prova é DUREZA


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 22/07/09 às 19:16 na(s) categoria(s) provas
Pessoas, tenho que confessar que SUPER me identifiquei com esse vídeo. Especialmente no domingão pós-Montanholi :-D É ou não é assim mezzz??




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Montanholi, um dia você ainda vai correr


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 21/07/09 às 14:56 na(s) categoria(s) provas
WOW! Essa é a forma sintética de descrever o que foi o 8º Circuito Montanholi, que rolou nesse sábado em Morungaba. A não sintética eu vou derramar aqui nesse post :-) Porque foi uma aventura, que começou às 5h30 da manhã, horário que eu acordei para dar tempo de buscar minha amiga Jacque e encontrar o povo do Núcleo num posto da Rod. Bandeirantes. Esse encontro, aliás, foi legal para dar o start no clima de prova, mas não teve absolutamente nenhum propósito prático.    

Sim, porque a idéia era todo mundo se reunir e ir JUNTO para Morungaba, estilo comboio. Pois bem, depois de um cafézinho para acordar e um tricô básico, as pessoas entraram em seus respectivos carros e .... sumiram. Isso mesmo, deram área. Rolou um momento uhúuuu-pé-na-tábua e ninguém lembrou de ver se estava sendo seguido ou se estava mesmo seguindo alguém. Eu, por exemplo, que tenho um nível primário de cognição antes das 8h e preciso pensar para responder qual o meu nome se for antes das 7h, não lembrava nem quais eram os carros da galera. Resultado: foi cada um por si e TODOS se perderam. Todos, cada um em uma parte do trajeto, uns mais, outros menos. Com direito a stress cogitando se chegaríamos a tempo para a largada e tudo, só para os neurônios comatosos começarem a fazer sinapses para tentar descobrir se estávamos indo na direção certa e entender porque Itatiba é uma espécie de cidade onipresente, não importa em que rodovia vc esteja nem em que direção vc vá, vc sempre acaba passando por ela.

No final, igual em filme da Disney, deu tudo certo e chegamos no sítio Santa Clara não só a tempo de pegar chip como até de pegar a chepa do café da manhã, acabando com um dos meus grandes temores do dia - correr uma prova dessas de estômago vazio. A essa altura eu já estava acordadíssima, pensando que eu ia ter que correr aquela subida que o carro teve que fazer uma forcinha para manter a marcha (vc passa por parte do percurso para chegar de carro ao local da largada).

A infra da prova é de dar lição de moral em umas e outras por aí: marcação de quilometragem impecável, postos de água, chipagem em 3 pontos, medalha, camiseta, nº pesonalizado, café da manhã tudo de bom e almoção farto no final - onde conheci só gente bacana, impressionante: José Carlos Montanholi e a família, os colegas blogueiros webrúnicos Harry e Fernanda (que é tão rápida que só a vi depois da prova terminada), dona Mitiko e mais vários corredores e corredoras alto astral. Só para não dizerem que eu sou uma deslumbrada e que não reclamar de nada não é normal no ser humano moderno, vou lamentar que a menor camiseta era uma M masculina, ou seja, com cinto dá um vestido anos 80. Pena, porque essa é uma camiseta que daria o maior orgulho de usar, mas talvez se mantiver a idéia da colcha patchwork de camisetas desse post anterior, isso não importe, né?

A largada foi pontualíssima, as 9h30, sob sol e céu azul, ladeira acima, deixando o visual da prova uma distração importante nos momentos de maior sofrimento, já que eu sou uma pessoa que abstrai na adversidade e fica olhando o visual para distrair o cérebro e impedí-lo de tentar diminuir o ritmo da corrida.

O trajeto da prova é composto por 3 pernas. O que eu ADOREI foi que graças a essa ida-e-volta de cada perna, o povo elite passa por vc 3 X durante o percurso. E eu acho O MÁXIMO acompanhar a corrida de quem está disputando pódio, fico emocionada de verdade, me dá um entusiasmo sem explicação. Eu, durante as provas, pareço aquelas pessoas que bebem e amam todo mundo do mundo. Grito, incentivo, trato desconhecidos como amigos do peito, fico toda feliz. Sei lá, deve ser a endorfina.

Mas nem tudo são flores e endorfinas felizes. Porque essa prova É EFETIVAMENTE a meia maratona mais difícil do Brasil. Da minha vida pelo menos, com certeza foi. No meio da 2ª perna deu um momento de pânico. Eu estava começando uma subida (lembrando que essa prova NÃO TEM TRECHOS PLANOS) quando meu cérebro ameaçou começar um motim. "Deu", ele disse. "Chega, parei". E foi diminuindo o passo, diminuindo, diminuindo até que eu retomei o controle e fiz um acordo: "tá, a gente trekka um pouco, mas depois a gente solta igual maluco na descida para compensar, ok?". Ok. E assim foi, seguindo o que a Cris - que além de ganhar a prova ainda teve tempo de gritar um incentivo e uma orientação para cada aluna quando passava voando pela gente- falou: anda na subida e corre sempre que der.

E teve momentos em que até andar era um esforço. O que É aquela subida no KM 17 minha gente? Meu pobre Sanderinho urbano 1.6 ia ter dificuldades de subir. Vc passa num posto de água lá pelo KM 15 ou 16, vê que está perto do final da prova e aí... vc vê a montanha. E umas silhuetas curvadas e sofridas lááááááááá no topo, muuuuuuuuito longe de vc. Isso num momento em que vc já está no bico do corvo, os músculos apitando. É tão avassaladora essa última subida que vira até um momento zen. Tipo vc desconecta e simplesmente vai. E sobe. E sobe. E sobe. Aí, em um momento distante, vc faz a curva da terceira perna e começa a voltar. E sobe mais.

Mas aí no KM 18 me deu uma endorfinada master e eu fui. Corri os últimos 3K no máximo (máximo para a quele momento, bem entendido). Acelerei tanto quando chegou na descidona final que, se eu tivesse escorregado ali, teria literalmente rolado até a linha de chegada, pq não ia ter dado para parar. Nesse ponto, fiquei feliz de estar sol, apesar do sofrimento ser maior: eu, newbie total de corrida na terra, não tenho tênis cross country, ou seja, se tivesse chovido e rolasse uma lama, eu estava perdida. Mas os deuses sorriram nesse sábado e eu cheguei. Passei na linha de chegada como se fosse do pelotão quênia, comemorando com a mulherada que me esperou pacientemente: valeu Vivi, Cris, Marcela, Jacque & cia! Terminei feliz feliz feliz de ter conseguido, mesmo fazendo um tempo leeeento, de 2h34 (34 min a mais do que meu tempo de meia maratona). Mas foi a 1ª né? Primeira prova cross country, primeira prova de montanha, primeira meia maratona com esse grau de dificuldade. Mas com certeza a primeira de muitas, que esse lado sadomasô da corrida faz vc gostar das provas que mais fazem vc sofrer.

Mas o que importa é que eu FIZ O MONTANHOLI, terminei e terminei correndo hehehe Mas fiquei tão lesada que nem alonguei, o que garantiu um day after estilo Resident Evil, andando que nem zumbi, com aquela perna dura meio coxeando. Mas who cares? Ano que vem, se tiver convite sobrando, TÔ DENTRO!!
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Montanholi vem aí


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 29/06/09 às 18:30 na(s) categoria(s) provas
Esse ano vou correr o Montanholi, simpático nome dessa meia maratona que começou em 2002, no sítio do... Romanholi. É isso mesmo, Romanholi + Montanha = Montanholi. Já tinha lido várias coisas sobre, mas nunca tinha participado. Esse ano pintou um convite e eu, que sou facinha facinha (não pensem bobagem) para aceitar participar de tudo quanto é prova sem pensar muito sobre o grau de dificuldade da dita cuja, topei na hora!

Vamos participar do Montanholi? Vaaaamos. Beleza. Tranquilo. Topei na hora. Super legal, exatamente no momento em que ando querendo ir mais para a corrida em trilha, com árvores, verde e desafios diferentes do tipo pedra, raiz e lama. Aí fui singela e faceira olhar o site da prova. De cara, uma definição meiga: a meia maratona mais difícil do Brasil. Oi? Como assim por exemplo?

Aí fui vendo onde é que eu fui amarrar minha cã (porque eu não tenho égua, só tenho uma cã preta sorridente). Dei uma olhada na altimetria e soltei um wow! Não tem trechos planos. Só montanhas, ou melhor, subidas e descidas de pirambas. Nem unzinho pedaço plano. Foi então que realizei: eu tinha aceitado correr uma prova dificésima em menos de 1 mês, para a qual eu ainda não tinha treinado nada específico - como por exemplo muitas subidas. Subo a Biologia lá da USP toda semana, mas é meio que só. Vai ser uma BELEZA essa prova.

Aí fui xeretar os tempos do povo que correu outros anos, porque eu tenho esse lado meio masoquista-competitivo (tem que ter para ser corredora né?). Aí vi que a minha treinadora, a Cris, que já venceu o Montanholi cravando 1h38min, no seu *pior* tempo fez 1h47min. Considerando que, normalmente, eu faço exatamente o DOBRO do tempo que ela e o povo de elite faz em provas, eu estou seriamente concorrendo ao posto de lanterninha da prova.

Sim, porque não tem tantos participantes assim para eu passar desapercebida entre os que correm médio e os que correm mais fraco. São 100 pessoas ao todo, então não dá para sair a francesa discretamente se vc for MUITO mal e quebrar na metade. Tem que chegar se arrastando, aguentar a tiração de sarro e ir para o almoço churrasqueiro que te espera no pós-prova (o que dá um certo temor e receio em pessoas vegetarianas como eu, mas faz parte da aventura da prova).

E provavelmente, enquanto dirijo de volta para Sampa, meu cansado cérebro vai apagando a dor e aqueles momentos de questionamento interior quando vc se pergunta "por que demônios eu fui correr essa prova maledeta?? para que se submeter a esse tipo de tortua??" --ou se vc for minha amiga Rê e REALMENTE entrar numa crise existencial no meio de uma meia maratona, vai chegar à raiz da coisa e se perguntar para que a humanidade corre, por que correr, quem sou eu e qual o sentido de tudo isso. Mas é garantido: depois que vc termina a prova tudo isso PASSA e vc fica alegremente combinando qual vai ser a próxima.

Então é isso aí: eu vou conhecer a tal mais dificil do Brasil. Hey, ho, let´s go! Pelo menos deve render um post divertido.
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Corrida da T&F, testando estratégias


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 29/06/09 às 14:33 na(s) categoria(s) provas
Uma das primeiras corridas de 10K que eu participei foi a Track & Field Run Series, aqui em Sampa. O que eu gosto desse circuito é que:

1) é sempre o mesmo
2) é quase que totalmente plano, só tem subidinha na ida e volta da ponte do Jaguaré, bem na metade da prova

Para mim, a maior qualidade desse circuito é que ele me permite testar várias estratégias de corrida. Como eu já conheço o percurso, sei exatamente onde começa a subida, onde costuma apertar etc. E como não é uma prova técnica, dá para socar a bota e fazer muita fooooorçaaa :-D

Toda vez eu tento algo diferente. Nessa vez, eu queria ver se conseguia fazer a 2ª parte mais rápido do que a 1ª. Porque normalmente eu gosto de sair forte e tentar manter, mas dessa vez tentei diferente. Consegui médio :-) Ou melhor, consegui, mas só a partir do KM 7, ou seja, consegui dar uma boa acelerada nos últimos 3K. Mas vi que poderia ter acelerado mais no começo, já que fiz em 53min. Ou seja, na próximo eu tento novamente.

Eu acho essencial ter provas assim, que vc conheça bem e possa testar estratégias. Ajuda a conhecer melhor como a gente reage em prova (pq treino é treino e prova é prova, coisas bem diferentes!). Além do que essa prova tem uma infra 100%, com direito a estacionamento dentro do shopping Villa Lobos, um luxo só. Super recomendo, tanto para quem está começando a correr provas de 10K quanto quem está querendo se testar.
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Bertioga-Maresias parte I - pegamos podio, ueba!


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 02/06/09 às 11:11 na(s) categoria(s) provas
A prova de revezamento Bertioga-Maresias definitivamente cresceu. Muito mais equipes em todas as modalidades da prova, mais gente fazendo apoio, mais trânsito - sim, o revezamento com certeza ficou mais competitivo. Para ter uma idéia, ano passado tinham 5 ou 6 equipes na categoria Feminino Força Livre, a de 9 pessoas, onde competimos - e pegamos 2º lugar. Esse ano tinha algo como 13 ! Ah, e subimos ao pódio novamente, UEBA, dessa vez no 3º lugar - mas isso tem uma historinha, que conto na parte II desse post.

Primeiro, o tempo: nada da anunciada chuva. Abriu o sol e nem um pingo d´água, o que não é tão bom assim para quem pegou os trechos mais piramba, onde uma chuvinha era mais do que bem vinda. Segundo, o trânsito: ainda não está estilo a Volta a Ilha de Floripa, mas a dificuldade em parar os carros de apoio e chegar/sair dos PCs já começou a estressar a galera. Váááárias pessoas entraram com o carro por cima da pista por onde os corredores passavam, ou seja, quem estava tentando dar um sprint final até o PC tinha q desviar dos carros e passar quase que de lado entre os carros e as pessoas que assistiam a prova.

O lado bom é que dessa vez teve até água distribuída pela organização! (ano passado era cada um por si). Também é legal ver essa prova crescendo, pq é uma das mais bacanas especialmente para quem mora em SP - é perto, é mais trail run e tem várias opções (desde o solo até equipe de 9).

Meu trecho foi a largada - 10,8K 100% na praia, uma delícia. A areia estava mais para durinha, o trecho é plano, então dá para socar a bota. Nos primeiros 100m vc já se depara com o 1º canal, ou seja, enfia os 2 pés na água e começa a correr já com tênis e meia molhados. A partir daí, a cada 500m mais ou menos surgia outro canal desses.

Teve gente que preferiu desviar dando a volta por cima, mas vamos combinar: além de perder um tempo essencial fazendo isso, evitar molhar o pé numa prova off road na PRAIA não faz sentido. Pular ou desviar de uma poça aqui e ali ok, mas quem foi reto, enifou o pé na água e saiu com o tênis fazendo choc-choc passou pelo menos 5 pessoas sem fazer força, só por não desviar. Para mim, o único lado ruim foi não ter marcação de quilometragem. Por outro lado, foi legal correr só na sensação do corpo, sem controlar tanto o tempo.

Outra coisa essencial ali foi o apoio da equipe. Gente, acreditem: ter o povo da sua equipe gritando alucinadamente te dá um gás que vc não sabia que tinha. A dica é fazer como as meninas da minha equipe fizeram: ficar uns 100m ou 200m antes da chegada fazendo festa. Na hora em que vc acha que estava morrendo descobre que ainda tem forças para dar um sprintzinho, afinal vc não quer decepcionar a equipe!

Trecho terminado, chega a hora de focar no apoio. Leva uma, busca outra, grita, incentiva, corre do lado da corredora com a garrafa de água ou gator, tira foto, come uma bisnaguinha. Apoio é ESSENCIAL nessa prova. Aliás, errar o PC, chegar 5 minutos antes da largada e passar nervoso na fila de carros que não anda também faz parte. Assim como entrar num momento sangue-nos-zoio e ficar fazendo milhões de cálculos para saber quem está na frente, além de tentar descobrir quem afinal de contas é a concorrência - HELLO organização, vamos colocar uma idenitificação mais clara nos números do peito para a gente saber quem são as outras equipes femininas de 9 que estão disputando com vc?? Senão a gente fica num esquema assim: vê uma mulher correndo e fica tentando sacar se ela faz parte de uma equipe mista, se é equipe feminina de 3, 6 ou 9. Mais para o final da prova fica mais fácil de saber, mas no começo não dá! Podia colocar uma cor diferente, já resolvia o problema, né?




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Bertioga-Maresias, me aguarde!


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 25/05/09 às 11:10 na(s) categoria(s) provas
Pessoas, próximo sábado tem revezamento Bertioga-Maresias - e eu VOU! Até sábado estava em dúvida se ia mesmo dar para ir por questões logísticas (vulgo tenho que voltar no mesmo dia e não queria ir e voltar sozinha), mas agora tudo esquematizado, yuhuuuuuu!!

Eu tenho que dizer que a-do-ro essa prova. Primeiro porque é na PRAIA, segundo porque é revezamento, ou seja, rola um espírito de equipe + piadas non stop + altíssimo astral e terceiro porque é uma prova muito bacana em termos de percurso. Como o nome já sugere, é uma prova onde vc começa em Bertioga, ao lado da Balsa, e termina em Maresias. Dá para montar equipe de 3, 6 ou 9 atletas ou, se vc for forte MESMO, arriscar de carreira solo os quase 75K da prova. Tem desde percursos fáceis e curtos (tipo 5,5KM) até a pirambeira master: a serra de Maresias.

Minha equipe - 100% feminina - vai de 9 corredoras. Em 2008 eu fiz minha estréia nessa prova no melhor estilo batismo de fogo: subi a maledeta serra de Maresias, o trecho final. Na verdade quem ia enfrentar a ladeira era minha amiga Jacque, que é fera e já conhecia a danada. Como ela não tinha certeza se ia mesmo querer fazer o percurso, combinamos que eu treinaria para pegar esse trecho também, tipo reserva. Então eu sabia que faria esse ou um dos 2 anteriores (os 3 últimos são os mais casca grossa).

Faltando tipo 1 semana para a prova, nossa titular para a piramba se machucou feio e teve que ficar de fora. Resultado: respirei fundo e assumi o posto. Olha, nem os treinos de subir 3 X consecutivas a ladeira da Biologia na USP te preparam para essa serra. Na verdade, vc fica com saudades daquela elevação leve que é a Biologia comparada com aquele paredão.

Tá, não é um paredão, mas quando vc chega no pé da serra e olha para cima e vê que vai ter que subir aquela montanha e descer até o outro lado dá um frio no estômago. Eu sei que tem provas muito piores e subidas muito mais íngremes, mas gente, esse negócio de olhar para a frente e ver: subida + curva, aí vc finalmente chega lá e... subida+curva, aí vc sobe mais essa e... outra subida + curva é dureza. Mas dá. E quando vc finalmente chega lá no alto e começa a descer, juro, é o NIRVANA. As portas do paraíso se abrem para vc.

Eu lamento por quem faz esse percurso sozinho. Eu fiz com uma equipe de apoio sen-sa-cio-nal. A mulherada da equipe gritando, incentivando, correndo ao seu lado para dar isotônico e água, não tem preço. Subiram comigo aquelas meninas. Sem elas não sei não.

Na mesma prova correu um mocinho que tinha e não tinha equipe. Quero dizer, equipe ele tinha, mas como era o trecho final, a equipe tinha ido... preparar o churrasco. Como assim por exemplo?? Deixaram o rapaz ali no PIOR trecho da prova e aproveitaram o tempo para tomar um banhinho e botar fogo no carvão, afinal já tá quase terminando né? Pessoas, não façam isso. Mesmo que o corredor diga que "tudo bem, podem ir", não é tudo bem não. Fazer prova de equipe sem a equipe é o fim. Vai contra o espírito da prova em si, além de ser uma tremenda sacanagem com a pessoa. Tem idéia a falta que faz ter um copinho de água/isotônico na 4ª curva que vc faz e ainda falta metade? E ver outras pessoas sendo incentivadas pelos respectivos apoios e vc ali, correrdor-ronin-lobo-solitário-no-deserto? Não tá certo. Ainda bem que os apoios são solidários com os solitários e não faltou água para o corredor em questão. Mas fica aí o toque para quem não tinha pensado nisso e já estava cogitando em ir pegar uma prainha enquanto os últimos corredores terminam seus trechos. Volta lá e acompanha a sua equipe até a linha de chegada, com muita festa e gritaria fazendo o favor. Faz diferença e MUITA.

Até porque a comemoração fica xoxa se faltar quorum - imagina se vc pega podium, como nós conseguimos em 2008? Levamos a medalha de prata e quase perdemos o resto do fôlego que nos faltava gritando êêêê!!! em cima do palco.

E esse ano, será que vai dar? A previsão ameaça uma prova chuvosa - menos calor e mais areia molhada. Estou animada, especialmente pq esse ano a serra de Maresias não é minha hehehehe Essa já conquistei, então seja qual for o meu trecho, pior que o de 2008 não tem como.

Aguardem cenas dos próximos capitulos. PS- alguém mais vai correr o revezamento?

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Qual o seu mantra?


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 22/05/09 às 10:40 na(s) categoria(s) provas
Mantra + corrida? Como assim, por exemplo? Bem, vamos por partes. A palavra mantra vem do sânscrito e é formada por 2 partes: a 1ª sílaba MAN significa mente e a 2ª sílaba TRA quer dizer libertar-se de. Ou seja, mantra = libertar-se da sua mente. Na prática, vc ocupa sua mente compulsiva, obsessiva e neuras com o mantra enquanto vc faz coisas mais importantes, como por exemplo, viver o presente e.. correr.

Eu não sei vcs, mas minha mente é uma control freak de primeira. Nas provas de rua ela passa os primeiros 4KM me pentelhando. "Ai que saco, já cansei, vamos voltar? Vc sabe que pode parar a hora que quiser né? Afinal não é uma obrigação ou algo assim. Mas que idéia idiota, correr essa meia maratona no SOL, tá CALOR e é só o começo". Se eu ignoro, ela muda de tática. "Ih, é aquela dorzinha na canela de novo? E se for? É, não é? E se piorar no KM 15? E se der aquela travada no lado direito de novo? E se. e se..". Minha mente também a-do-ra fazer check lists. "O gel tá aí? Tá. O chip tá bem preso? Tá. Esse shorts não vai assar? Passou protetor solar? Tá com sede? Quando é o próximo posto de água mesmo? Gel é no KM 9 e depois no KM 16. Ou é melhor no 17? Ou adianta e toma no KM 15?".

Mas lá pelo KM 5, acontece uma mágica: minha mente se cala. Com seu jeito TOC de ser, sua capacidade incrível de racionalizar, resolver problemas, analisar situações e me dizer que sou eu, onde estou, quem é vc e se é bonito aqui - ela simplesmente emudece. A passada encaixa, o corpo entra num ritmo próprio e a mente esvazia. Eu consigo olhar a paisagem, checar o relógio de pulso e ver meu pace, acenar para a foto, observar outros corredores e ajeitar o boné - mas a gritaria da mente já era. Pois é, pessoas, isso é meditação! Essa sensação de estar presente, sentir o corpo no aqui e agora e curtir aquela onda de felicidade e bem estar, cortesia das nossas amigas endorfinas - isso é exatamente o que o povo que medita em posição de lotus busca. Caminhos diferentes, mesmo destino.

Claro que em provas duras, especialmente as mais longas, a mente volta e meia está de volta, puxada pelo corpo - ou falando português claro, pela DOR, nossa companheira de corrida como diz minha amiga Jacque. É aquela hora que a idéia da possibilidade de desistir surge. Um pensamento sedutor de ir dar um mergulho no mar, ou simplesmente sentar e dar um tempo.

Mas a parte guerreira de vc quer terminar a prova, de preferência BEM. E é aí que vc vê a diferença que faz saber controlar a mente. Porque na minha opinião, se vc treinou para a prova, corpo não vai ser problema - mas a mente... Responde por uns 60% da prova ou mais (de novo, se vc treinou direitinho né?).

Então nessa hora da dureza, cada um tem uma técnica. Uma corredora de elite, acho que a Paula Radcliffe, mas não tenho certeza, disse uma vez que conseguiu completar uma maratona onde ela estava com muita dor repetindo apenas "Keep running" sem parar. O Hoffman (desse blog AQUI) e que inspirou esse post, já tem o mantra dele para a Maratona de SP - que eu particularmente achei meio sofridinho demais, mas gosto é gosto.

Tem gente que canta. Tem gente que repete mantra indiano. Tem gente que prefere as visualizações, tipo vc chegando em grande estilo, sendo aplaudido - até sendo entrevistado se sua imaginação for generosa. Tem gente que fica resolvendo problemas da relação, imaginando os diálogos e tudo. Tem gente que se dá bem repetindo que está tudo bem, que a corrida está ótima ou simplesmente um grito de guerra qualquer. Um sujeito numa lista de discussão disse que repete "esquerda-direita-esquerda-direita-INSPIRA-direita-esquerda-direita-esquerda-EXPIRA" e que dá super certo.

E vc, qual seu mantra?


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Sai da frente que aí vem o Homem Aranha, o Cubo ...


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 06/05/09 às 13:13 na(s) categoria(s) provas
Você já correu a São Silvestre? A prova mais famosa de São Paulo - e talvez do Brasil - tem várias particularidades em seus 15K, a subida da Av. Brigadeiro; o percurso que começa e termina na Av. Paulista, um dos cartões postais da cidade; o Centro e a minha predileta: os corredores fantasiados.

Das provas que já corri, a São Silvestre não é a mais bonita, nem a mais difícil ou fácil, mas com certeza absoluta é a prova mais alto astral que já vi. Por ser no dia 31 de dezembro, talvez, o clima de festa, reveillon, já começa quando vc chega. As pessoas sorridentes, em clima de "adeus-ano-velho-feliz-ano-novo", o povo que assiste, aplaude, incentiva, comemora, torce. E os corredores que são um show a parte.

Eu já fui ultrapassada pelo Homem Aranha na São Silvestre. E vejam bem, estava uns 40°C, eu de shorts + regata morrendo de calor, e o heróico corredor estava de máscara. Repito, DE MÁSCARA, daquelas que cobrem a cabeça toda, incluindo nariz e boca, só com furinho para os olhos, além da roupa com pleta do aracnídeo. Eu já gostava do Homem Aranha, agora ele é definitavamente meu herói.


Tem os figurinhas carimbadas, quase um arroz de festa das provas brasileiras, que estão em todas, tipo o Homem Árvore, que defende o arvorismo e que sempre arranca aplausos da torcida. A última vez que o vi foi na Meia Maratona do Rio, outra prova difícil e quente, MUITO quente, onde ele passou com aquele macacão-árvore que cobre o corpo todo e deve ser um forno.

Eu já vi gente trajando um outfit de fazer inveja ao Clovis Bornay. Por exemplo, vc sabia que a Catedral de Brasília já correu a São Silvestre ? Correu sim, eu vi, só não sei se correu a prova inteira ou se resolveu conversar com a Catedral da Sé no meio do caminho.

A criatividade do povo é sensacional. Já vi a Emilia do Sítio do Pica Pau Amarelo, o Michael Jackon, o presidente Lula, anjos e demônios, o Cristo Redentor igual ao que está no Rio de Janeiro, o ex-presidente americano Bush, Zé do Caixão, o Super Homem e, na maratona de Londres, o Cubo Mágico.


Juro, achei tão legal que resolvi que, se eu for correr a São Silvestre de novo, vou fazer alguma produção. Algo bem ousado como uma tiara com antenas, por exemplo, que eu não tenho vocação de camelo para viver feliz com um casaco de pelos sob o sol do Saara.



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