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São Paulo, SP

Corredora Zen :-)

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PERFIL

Histórias de corrida, yoga, alimentação, produtos e provas. Para mim, corrida é um tipo de meditação e escrever um tipo de diversão. Muito prazer, eu sou a Natalia Yudenitsch, mas pode me chamar de Nat. Se quiser, fala comigo no corredorazen@gmail.com

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Cruce parte III - O Vale da M....


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 16/02/10 às 16:39 na(s) categoria(s) dicas, fail, historias de corrida, provas
Dia 2 do Cruce, o grande divisor de águas da prova. Porque qualquer pessoa que tivesse tido o trabalho de acompanhar online as previsões das estaçoes de esqui mais próximas (fica aqui a dica) sabia que no sábado ia chover. E muito.

Isso ficou claro já na noite de sexta, quando a água começou a castigar as barracas de madrugada. Como a nossa era alugada, no melhor estilo é-o-que-tem-para-hoje, havia o inquietante risco dela nao aguentar chuva forte. Já havia até um plano B de para quais barracas a gente ia correr se a danada alagasse. Que reconfortante, nao? Mas eu dormi tão pesado - apesar do ronco estilo Globo da Morte de Certa Pessoa que negou ser autor de tão doce melodia depois - que só fui me preocupar com isso pela manhã, ou seja, a barraca resistiu firme e forte.

A complicaçao começou com a largada, que ficou sendo muito, mas MUITO mais tarde do que eu pensava: quase 10h. Na boa, quem não é elite e não termina a prova em 3h não deveria ter que largar depois das 8h, pq chega muito tarde. E NUNCA consegue pegar o almoço pelo qual pagou, então fica a dica: pessoas não-elite, pensem bem antes de gastar seus dolarzinhos suados reservando os almoços, porque nós nao vimos nem a cor dessa refeição, poderíamos ter pago só o jantar e ter gasto o resto com chocolate e vinho que teria sido muito mais bem pago.

Largar na chuva nunca é bom. Largar na chuva, no frio e sabendo que ia pegar fila e a pior pirambeira da prova é infinitamente pior. Mas vambora que faz parte. Já no comecinho, adivinha? Acertou, fila de novo. Dessa vez pq a trilha estava um lamão e o povo passava devagar, tateando bastante antes de decidir onde passar, com medo de escorregar logo no comecinho da prova. Anota aí, mais 50min de piadas e gritaria do nosso grupo, só que debaixo de chuva. Um mimo.

Daí pra frente só foi piorando, como esperado. Mesmo fazendo um percurso alternativo - o que foi um ponto positivo nesse dia péssimo- porque o principal ia ficar inviável na chuva, foi uma subida só. Nesse dia eu conheci o trekking pool, aquele bastão moderninho de caminhada. Olha, tenho que confessar: não nos demos muito bem.

No começo, como em todo relaconamento, eram tudo flores. Ele me salvou de morrer afundada na lama movediça das encostas encharcadas, evitou que eu escorregasse e basicamente foi essencial para esses trechos lamacentos. Mas aí a lama diminuiu, a subida ficou mais íngreme e nossa relação começou a ficar desgastada. Eu juro que nao consegui me acertar com ele. Porque meu jeito de subir ladeira da morte pressupoe uma certa mecanica, com as maos se movendo no mesmo ritmo que as pernas e ajudando na subida, estilo curvada-para-frente-mao-no-músculo-da-coxa-a-cada-passada, sabe como é? Pois com o danado do trekking pool nao dá para fazer isso, seus braços tem que seguir um ritmo bem diferente das pernas e nao podem encostar nas pernas. 

Teoricamente eu deveria estar distribuindo meu peso com o 3º apoio e fazendo menos força para subir, como as pessoas afortunadas que sabiam o usar o bastão infernal. Não foi o meu caso, me senti fazendo o dobro da força que normalmente faria, me sentia desengonçada, simplesmente não conseguia subir. Tipo péssimo.

Minha sábia dupla, habilidosa e faceira com seu trekking pool que só, não estava acreditando na minha dficuldade. Quero dizer, não que ela duvidasse de mim, é que parecia bizarro demais para ser só um problema de relacionamento com um objeto inanimado. Ela me garante que era algo mais que isso, mas juro, eu não estava me sentindo mal, nem fraca, nem com dor. Eu só não conseguia subir como uma pessoa normal, estava mais para zumbi escalador, sabe aquele andar lento e desengonçado de quem já morreu e esqueceram de avisar? Era eu.

Mas uma hora eu consegui começar a ignorar aquele equipamento desconcertante e voltar a acelerar. Tá, eu basicamente comecei a parar de usá-lo, até que a lama acabou ao ponto de eu poder devolve-lo. Um dia quem sabe revemos nosso relacionamento, quando eu superar meu bode e fizer as coisas direito, ou seja, treinando com ele antes para pegar o jeito como fizeram as pessoas mais espertas.

Enquanto isso, a trilha seguia rumo ao céu. O lugar mais lindo do dia para mim, disparado, foi a Trilha do Abismo, um caminho estreito tão no alto que vc corria acima das nuvens. PÁRA TUDO E IMAGINA: vc correndo e do seu lado direito a encosta da montanha e do lado esquerdo um abismo, com as nuvens paradas ABAIXO de vc. Inesquecível.

As coisas complicaram quando começamos a nos aproximar do fim. A chuva apertou muito e mesmo um bom impermeável uma hora joga a toalha, pq vc já cozinhou por dentro e pq esse entra e sai dos rios gelados + o temporal já conseguiu te encharcar até a alma. Aí nós fizemos algo que vcs nunca devem fazer: perguntar a alguém da oranizaçao quanto fatava para a chegada. O carra disse com muita convicção: un quilometro e medio. BELEZA! Mamão no açucar, estamos chegando, nem precisa mais comer. Acreditou? Dançou playboy. Faltavam mais de 5K. O que é ridículo no Ibirapuera, mas é uma vida no final do pior dia do Cruce.

Teve uma hora que comecei a correr de puro desespero. Tremia tanto de frio que achei que ia congelar ali mesmo e um dia, no futuro distante, iam me achar presa dento do bloco de gelo, tipo vejam a anta pré-histórica que acreditou na información do cabrón.

Aí vc finalmente chega e descobre que algo mais deu errado. Mais da metade das caixas, os banheiros e coisas do camping não chegaram nem vão chegar. Com a chuva uma ponte quebrou e só alguns caminhões conseguiram passar. Então, se sua caixa está lá, vc fica ali mesmo, se não, entra num caminhão de campo de concentração, anda 500m, desce dele e anda mais 5K até o acampamento 2, passando por um rio geladésimo.

Acharam péssimo ir até o acampamento 2? Isso porque vcs não ficaram no acampamento 1 como eu. Por que esse acampamento ficava num lugar batizado de.. Vale da Merda. Aliás, antes que alguém reclame, este é um blog fino e de família, que não usa de palavras de baixo calão. O termo, neste caso, é apenas a descrição literal da verdade. Quase um termo técnico. Porque o chão desse acampamento era feito de.. bem, não tem um jeito delicado de dizer, excremento de vaca. Nao estou exagerando, nao dava para ver nem um pedacinho de grama molhada ali, era esterco puro. E os lugares que não estavam assim digamos, decorados, estavam alagados.

Daí vem a pior tarefa da noite: montar a barraca na chuva, no cocô, tremendo de frio, encharcada e a um passo da hipotermia (pelo menos era essa a sensaçao). Nosso amigo francês de alma bondosa que se dispôs a ajudar a montar a barraca deve ter ficado impressionado, no pior sentido possível. Já sentiram o cérebro congelar? É assim: alguem te fala "pega aquela estaca ali" e seu cérebro fala "estaca? o que é uma estaca?" e durante esse processo vc fica imobilizada, tremendo, com cara de ã, tipo protetor de tela com janelas Windows voando. As pessoas falam com vc e na sua expressão as janelas continuam voando. Aí quando vc consegue processar a informação e pega a tal estaca, não consegue colocá-la onde devia, pq seus dedos estão duros de frio e vc treme tanto que erra o alvo diversas vezes. Uma delícia, especialmente se vc lembrar que vc PAGOU para ter essa experiância. Palmas para vc. Gênio.

Aí vc entra catatônica na barraca, se troca e o cérebro começa a descongelar, junto com as roupas quentinhas. Nao fica ótimo, pq afinal nao pára de chover, vc está literalmente na merda, seu abadá está encharcado, assim como a mochila, impermeável, luvas e manguito. E vc vai ter que usá-los no dia seguinte. Oba!

Somando isso ao fato de que no Campo de Refugiados 1 (o nosso) não teve banheiro, a comida chegou as 20h, tudo na barraca estava úmido e nao tinha ninguém da organizaçao p/ vc se informar, nao foi assim um final de dia gostoso. E consta que o povo do Refugiados 2 foi quem se rebelou, dizem que houve gritaria, palavras de baixo calão, pitís e muitas muitas desistências, já que a organizaçao estava toda lá. E olha que no camping deles tinha até banheiro, alem do chão ser de grama com apenas eventuais presentinhos das vacas aqui e ali. Tem gente que era feliz e não sabia.

Eu entendo o povo que desistiu. Dava vontade mesmo. Quem tinha ido no clima um-passeio-mais-longo-entre-lindas-paisagens viu a casa cair. Mas por outro lado, na montanha CHOVE, gente. Pontes caem. O que pegou foi a falta de informação nos campings e um preparo mehorzinho para a chuva, já que sabendo que ia cair o mundo podiam ter pensado pelo menos numas loninhas de cobertura e numa logística de largada melhor.

Mas afinal, depois de dormir no Vale da M**** vc acha que a gente ia desistir? ÓBVIO QUE NÃO, NÉ? Porque a lógica diz que piorar não podia, entao o dia 3 só podia ser ótimo. E foi!


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