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São Paulo, SP

Corredora Zen :-)

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PERFIL

Histórias de corrida, yoga, alimentação, produtos e provas. Para mim, corrida é um tipo de meditação e escrever um tipo de diversão. Muito prazer, eu sou a Natalia Yudenitsch, mas pode me chamar de Nat. Se quiser, fala comigo no corredorazen@gmail.com

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Dia de tiro


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 28/07/10 às 11:58 na(s) categoria(s) dicas, historias de corrida, saude
Toda semana você sabe que vai ter Aquele Dia. O dia em que você vai morrer, bater no inferno e subir ao paraíso, tudo em algo como 1h de treino. Sim, é ele, o Dia de Tiro. O treino sangue-nozóio. A hora do vamo-vê. Impressionante minha relação de amor e ódio com esse treino de velocidade.

Porque têm outros treinos na semana onde você faz força, mas é diferente. Eu lembro do primeiro tiro que eu dei na minha vida, de 1k. Fiz em 5h48. Um aparte: é, eu lembro, porque eu tenho uma facilidade absurda de gravar informações super úteis como essa, assim como as palavras exatas ditas pelas pessoas há 10 anos atrás e números de telefone antigos. Parece que as únicas duas coisas que eu nunca consegui lembrar são nomes das pessoas e datas. Eu sou aquela que jamais lembrou de coisas como aniversário de namoro. Aliás, eu já casei e me separei há muito tempo e não, nunca consegui gravar sequer o ano em que essas coisas aconteceram, que se diga o mês e o dia.

Mas lá vou eu divagar sobre a Maldição da Memória. Voltemos aos treinos de tiros. Eu fiz esse 1º tiro da minha vida há uns 5 anos atrás e na verdade eu peguei o tempo para passar para a Cris, mas não tinha sequer parâmetros para saber se isso era um tempo péssimo ou bom. De lá para cá, se for pensar racionalmente, as coisas não mudaram tanto assim. Até hoje ainda não consegui chegar aos 4min cravados no tiro de mil. Meu recorde está em 4min10, e isso foi antes de Cruce.

Segunda-feira, meu dia de tiro oficial, fizemos 10 tiros de 1K - depois de um aquecimento de 3k, claro. Para conseguir fazer os 10, minha meta era manter nos 5min, o que até que deu certo - os primeiros tiros na base dos 4min58 ou 5min05 e a segunda parte na base dos 4min53, enquanto o povo fazia um pace suave de 4h30 ou 4h. Isso porque era para correr ritmo e não forte. Mas eu gostei, por incrível que pareça.

Outro treino de tiro que eu gosto é o pirâmide, aquele que vc começa fazendo tipo 500m forte e fraco, vai aumentando até chegar a 2K e depois desce novamente. Ou os tiros de 1,5K. Ou os curtinhos de 250m.

Na verdade, eu acho qualquer tiro que não sejam 6 de 1k bom. Porque esses 6 tiros de mil para mim são sempre os piores. Deve ser psicológico, porque não como 8 tiros de 1K serem melhores - mas são. Eu morro muito no de 6. Tipo no 3º minha mente fala "deu, posso ir embora?". No 4º eu tenho a sensação de que estou me arrastando e não aguento mais ver o mesmo percurso, aquela mesma curvinha no final da subidinha, o mesmo batbanheiro e a mesma maldita batvolta de 1K no Ibira. Já no último, que é assim pra morte, chego daquele jeito que tem que dar uma andada para não passar mal depois de terminar. E no fim, quando vejo os tempos, nem foi ruim. Mas a sensação durante é péssima.



Agora, que é isso que faz A Diferença na sua corrida, é uma verdade inegável. Nada ajuda tanto a melhorar performance (e estou falando de performance de pessoas normais como eu, não de gente que corre para baixo de 3min50 o km) quanto treino de velocidade. E a deixar o coração e o pulmão preparados.

Agora, uma coisa que já entendi, é que mais do que corpo o tiro tem a ver com a mente. Ou melhor, o quanto vc consegue deixar sua mente fora disso. Porque tem uma coisa chamada limite de desconforto que é tipo gosto, cada um tem o seu. A diferença é que quanto mais vc consegue ampliar esse limite, melhor e mais rápido que vc corre.

Um dia estávamos soltando pós treino no parque, batendo papo como sempre acontece, e a Cris comentando em como as pessoas tinham essa idéia de que os atletas de elite sofriam menos, que parecia que não sentiam desconforto algum a não ser quando estavam nos picos de velocidade em provas. E o quanto isso não era verdade. Porque assim que saem do trotinho, eles também saem da zona de conforto, como eu e você. só que o limite deles de aguentar o desconforto é muito muito superior.

Claro que existe a genética, biotipos, base sólida de corrida e muito treino. Não estou querendo dizer que vc amplia seu limite de desconforto e vira o Usain Bolt. Mas estou dizendo que se vc conseguir aumentar esse limite um pouquinho, a diferença nos seus tempos de tiro vai ser grande, isso sem alterar sua rotina atual de treinos.

E como faz isso? Infelizmente não tem uma fórmula. Tipo repita o mantra X enquanto respira de forma Y e corre de forma Z. Mas vc tem que dar um jeito de ignorar um pouco seu cérebro. Porque é ele quem diz para o seu corpo que vc chegou ao limite, normalmente beeeem antes de isso ser verdade. Seu cérebro é uma entidade precavida que tem por objetivo (bem louvável por sinal) evitar que seu corpo entre em colapso.

Então ele aperta o botão de pânico normalmente bem antes de qualquer ameaça real. Com o tempo, ele vai vendo que o corpo aguenta esse esforço e vai liberando mais, deixando você fazer mais força antes dele ordenar às suas pernas que diminuam o ritmo. Ou seja, ou vc se convence de que dá, acredita e continua a fazer força mesmo quando uma voz diz que não dá ou descobre outros jeitos de burlar essa trava automática que existe dentro de vc. E ampliar essa zona significa ter uma relação diferente com a dor e o desconforto. Porque eles vão continuar existindo, não se iluda. Só não vão ter tanto efeito sobre você.

Mas antes que me chamem de sem noção, vamos ressaltar algo que deveria ser óbvio: não faça isso sem antes passar por um check up e um teste ergoespirométrico e ter certeza de que seu corpo aguenta mesmo o tranco. Porque vencer limites é bem diferente de ser irresponsável.

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