Login Meus Pedidos Webrun Mobile
000 itens | R$ 0,00    |   Fechar Pedido  
Dicas de treinamento

A pior corrida da minha vida!


Por Prof. Nelson Evêncio | 16/06/2011 - Atualizada às 07:30

\"Treinei como nunca para aquela prova\", conta Nelson Evêncio.
"Treinei como nunca para aquela prova", conta Nelson Evêncio.
Foto: Harry Thomas Jr/ www.webrun.com.br
1 
Treinei como nunca para aquela prova. Segui a planilha à risca, a dieta da nutricionista, sem falhar se quer um dia, mudei meus hábitos e tudo mais. Minha vida mudou muito após este período de treinos. Fiquei mais saudável, mais feliz, mais disposto no trabalho e conheci novos amigos. Após meses de treino, finalmente chegou o grande dia!

Tive boas horas de sono na véspera, acordei cedo, tomei um café da manhã reforçado e saí de casa bem tranquilo. Ecologicamente correto que sou, fui de bicicleta. Ainda mais que estava perto da largada e o caminho era todo plano. Mas meu colega que foi de carro disse ter estacionado muito fácil e não ter sido abordado por nenhum flanelinha.

O dia estava lindo. Ensolarado, porém frio. Ótimo para correr. Estava tão confiante que já conseguia sentir no ar o cheiro de recorde pessoal. Para melhorar, naquela semana, depois de muito anos meu time havia sido campeão da Libertadores e eu não me continha em alegria.

Precisei utilizar o banheiro químico e ele estava limpinho, limpinho. Antes de guardar minha mochila, ouvi o toque do celular soando. Era uma mensagem de texto e ao ver o nome da pessoa que enviara, meu coração disparou. A bonitona. Até suspirei! Há muito tempo não nos falávamos dado àqueles famosos, mas inexplicáveis desencontros da vida. Teria esquecido de vez aquele cidadão que não vale a pena e finalmente resolvido pensar em meu caso? Provavelmente, pois dizia ser algo URGENTE e desejava-me uma ÓTIMA corrida!

Aqueci bem, me dirigi à largada e como seria dada em avenida larga, fui logo indo lá para frente. Os corredores perceberam minha pinta de corredor feroz, minha concentração de atleta sério e abriram caminho. Acabei saindo em baixo da faixa, bem ao lado da Animal e daquele corredor de bermuda de lycra, óculos escuros, bandana e corpo cheio de tatuagens.

Sem muvuca, não perdi sequer um segundo. Passei o primeiro quilômetro muito rápido, mas sentindo-me inteiro, como se ainda não tivesse corrido nada. Os quilômetros passavam, eu corria forte e dando risada. Aquele definitivamente era meu dia!

Em determinado momento da prova ultrapassei meu colega Butenas. Tudo bem que na véspera ele havia feito um treino longo de 35 quilômetros, em ritmo abaixo de quatro minutos por quilômetroe estava usando a prova como um treino regenerativo, mas não importa. Depois foi a vez de ultrapassar meu amigo professor Branca. Corria fácil, marcando ritmo para um aluno. Também não importa, pois em corrida alguma nesta vida eu havia chegado a sua frente e jamais poderia perder esta singular oportunidade.

Os quilômetros se passavam, fazia as melhores parciais de minha vida e ainda sentia-me inteiro. Não sabia mais responder se aquilo realmente era uma corrida ou um sonho.

O percurso era maravilhoso. Passava por várias ruas arborizadas, muito limpas e havia muita gente torcendo. Crianças estendiam as mãos para eu tocar, senhoras batiam palmas e belas moças sorriam para mim. Ninguém me ultrapassava e eu ultrapassava vários de uma vez. Água servida na temperatura ideal e placas de quilometragem em seus exatos lugares.

Faltando ainda mais de 1.500 metros para a chegada e a turma do “tá chegando” já gritava sem parar. Eu ria do que estava acontecendo e ainda mantinha aquele ritmo para lá de assustador. Do outro lado vi os amigos lá do Sul Giovanni, Déa, Chris Coelho, Tiago Pinto, Sergio Xavier e Lucena, que vinham trotando com suas camisas tricolores, discutindo com sotaque se valia ou não manter Renato Gaúcho no time. Um pouco mais atrás, Marthinha Dallari voltando de mais uma ultra na África, sem a mínima pressa em chegar, assim como Ciça Moraes, Bel Cristina, Cachorrão, Bombom debutando na distância e Grace Cristina escutando Beautiful Day em seu MP3.

Faltando um quilômetro vejo meus colegas Mario Sergio e Marcos Paulo, lado a lado. Marião aplaudia sem parar com um sorriso enorme. Marcão gritava bem alto e bravo, ao me confundir com um de seus alunos, afinal inocentemente eu corria com uma camiseta amarela. Mais um pouco vi Castilho e Adauto gritarem meu nome. Sinal que logo avistaria o pórtico de chegada, fatalmente bateria meu recorde pessoal e, à noite, poderia comemorar feliz da vida com a bonitona. Dia sensacional. Tudo perfeito. Sorte no amor e sorte também na corrida.

Ao avistar a chegada, ouvi várias pessoas aplaudindo e gritando meu nome. Já me imaginava contando vantagem e recebendo o cumprimento pessoalmente ou por e-mail de muitos dos meus amigos. Minha vida nunca mais seria a mesma após aquela prova e a bela foto da chegada do Tião, com meu tempaço estampado, logicamente viraria o pôster que decoraria a sala de meu escritório.

Nos últimos 200 metros dei um sprinter fortíssimo e ultrapassei mais alguns, incluindo
Harry, Eli Reinert (primeira colocada) e até os muito mais rápidos do que eu Vicent e Iberê.
Ergui os braços sorridente e finalmente cheguei triunfante com tantos feitos magníficos, ainda mais a frente do Balú, com quem apostará um almoço!

Foi uma corrida histórica, mas opa, ao olhar meu cronômetro, percebi que não havia batido meu recorde pessoal por míseros dois segundos...

Logo meu humor modificou-se totalmente. Que frustração. Aonde teria errado? Seria culpa do treinador que pediu para eu alongar antes da prova, enquanto revista X diz que não? Seria o fato de ter esquecido em casa aquela minha famosa pulseira do equilíbrio? Teria sido culpa da nutricionista que me deixou frustrado ao explicar que os sete comprimidos de BCAA na metade da prova mais os dois saches de gel antes da largada e três durante não fariam o menor sentido para uma distância de dez quilômetros?

Já sei: maldito organizador! A culpa é toda dele. Quando chegar em casa vou ligar o computador e criticá-lo no Twitter, Orkut, Facebook e em todos os fóruns de corredores. Dois segundos em uma prova de rua é realmente uma eternidade. Que tremenda decepção.

Prometo nunca mais voltar a esta que foi a pior corrida da minha vida!


Prof. Nelson Evêncio


Consultor Webrun da seção Dicas de Treinamento. Pós-Graduado em Treinamento Desportivo (CREF n.o 016048-SP), IAAF Nível 3 - CBAT n.o 525. Sócio-fundador e atual presidente da ATC (Associação de Treinadores de Corrida) e Titular da Nelson Evêncio Assessoria Esportiva.

publicidade






INSCRIÇÕES ONLINE

Antes de iniciar a prática esportiva consulte um médico para realizar exames que qualifiquem o seu estado de saúde para tal.
Copyright© 2002-2012 Webrun Ltda. Proibída a cópia ou reproducão do conteúdo sem autorização prévia.