Por Prof. Nelson Evêncio |
18/08/2010 - Atualizada às 13:28
Revendo o vídeo da mega atleta, recordista mundial da maratona, Paula Radcliffe, sentada na calçada e chorando após desistir da Maratona Olímpica de Athenas, onde era a favorita, cada vez mais entendo que o corpo não é uma máquina e que tem dias que ele realmente não quer correr. Anos atrás estava treinando para uma Meia Maratona importante e acordei bem cedo para fazer um treino intervalado no Parque do Ibirapuera. Já estava no período específico e aquele treino era dos mais difíceis do planejamento, mas tinha plena consciência de como ele seria importante e me daria confiança para a prova alvo.
O problema é que na noite anterior não havia dormido as horas necessárias e logo que iniciei o aquecimento já senti que a coisa não estava boa. Fiz o primeiro tiro sofrendo e em ritmo bem acima do programado. O segundo foi pior ainda, meu organismo estava dando vários sinais negativos e como tinha um horário livre na parte da tarde, resolvi que iria interromper a sessão, ir para casa descansar e voltar para cumprir o treino inteiro depois.
Lá pelas tantas da tarde estava eu na pista do Centro Olímpico novamente fazendo meu treino. Já no aquecimento me senti bem mais à vontade. Sai para o primeiro tiro e foi até fácil. Segundo, terceiro, quarto, quinto e assim foi. Para ajudar, alguns atletas estavam na pista e ficavam gritando e me incentivando a cada volta.
Tiros e mais tiros fortes e quando vi já havia completado os meus 20 de 400 metros com pausa de 100 metros trotando. Foi simplesmente inesquecível. O melhor treino de minha vida. Agradeci o apoio da turma e saí de lá rindo à toa, me sentindo o melhor atleta do mundo!
Bom senso - Se tivesse insistido em realizar o treino na parte da manhã, além de gerar em meu organismo uma carga totalmente desnecessária e acima do programado. Eu demoraria muito mais para me recuperar, comprometeria a semana de treinos e correria o sério risco de sofrer uma lesão e de ter que ficar um bom tempo parado, podendo inclusive ficar fora da prova para a qual tanto havia treinado.
Quando o corpo não quer correr, seja em um treino ou em uma prova, o mais sensato é reduzir o ritmo e, se necessário, até interromper o treino ou abandonar a prova. Que nos perdoem aqueles que acham lindas as histórias “heróicas” de quem chegou cambaleando, porém chegou, mesmo que após tenha ficado meses sem poder calçar um tênis. Na concepção mais moderna, inteligente e sensata, preconizada pelos grandes estudiosos, antes de cada sessão de treino ou prova é muito importante saber como está o corredor.
É importante saber se dormiu as horas necessárias, se está bem alimentado e como está seu ânimo para cumprir aquela meta. Qualquer sinal apresentado também durante o treino deve ser avaliado. Em épocas passadas o treinador dizia que o corredor tinha que fazer aquele treino e acabou. Alguns até fizeram resultados com esta metodologia militar, mas muitos outros talentos foram desperdiçados ou infelizmente lesionaram-se gravemente.
Consultor Webrun da seção Dicas de Treinamento. Pós-Graduado em Treinamento Desportivo (CREF n.o 016048-SP), IAAF Nível 3 - CBAT n.o 525. Sócio-fundador e atual presidente da ATC (Associação de Treinadores de Corrida) e Titular da Nelson Evêncio Assessoria Esportiva.