Exato momento da ultrapassagem de Cordeiro de Lima sobre o marroquino
Foto: Harry Thomas Jr Arquivo WebRun
Na VIII Maratona de São Paulo, realizada domingo, 14 de julho, na fria manhã de 10 graus e umidade relativa do ar superior aos 80%, fato que pode interferir na performance dos corredores, o superatleta Vanderlei Cordeiro de Lima, além de provar para os críticos de que esta vivo e bem vivo, vence a maratona, bate o recorde da prova, estabelece o melhor resultado em solo nacional e mantém seu alto nível técnico (sempre entre os cinco primeiros nas principais provas do Brasil e ao redor do mundo) desde a sua estréia como "coelho" em maratonas em 1994 na cidade de Reims, na França.
Vale relatar aqui este curioso episódio. Os brasileiros são conhecidos no exterior por serem excelentes "coelhos", atletas que ditam o ritmo da prova para um ou vários competidores que pretendem estabelecer novas marcas. Na ocasião, "Cordeiro" foi convidado para ser o "coelho" da prova para ajudar o atleta de Portugal Peter Fonseca a melhorar o resultado da prova. Disciplinado como sempre. "Cordeiro" saiu na frente ditando o ritmo sugerido pela organização do evento, onde sua missão terminaria no quilômetro 21,1 (meia maratona). Ao passar pela marca em ótimas condições físicas, perguntou ao organizador que estava no carro madrinha (carro com relógio que vai à frente do atleta líder) se poderia continuar até o quilômetro 30 km. E assim o fez. Ao passar novamente bem, gesticulou se poderia continuar, uma vez que o segundo colocado se perdia de vista da organização. Resultado final: campeão na sua estréia com 2h11.
A história se repetiu alguns anos à frente quando a convite do NYRRC - Clube dos Corredores de Nova York, que organiza a famosíssima maratona, fora convidado para ser o "coelho" até o quilômetro 21,1. Só que desta vez cumpriu o combinado.
Nem sempre o atleta que sai na frente é o vencedor:
Para quem acompanhou a Maratona de São Paulo achava que seria impossível alguém vencer o atleta marroquino Gahmouni Rachid, de 24 anos. Quem assistia à prova, e percebia a facilidade com que corria o marroquino, já dizia: "É barbada". Mas a maratona cada vez mais prova que não é bem assim. Vamos analisar alguns fatos importantes:
Ritmo de prova
No quilômetro 5, Gahmouni Rachid passou com 14´43, média de 2´57 por quilômetro (muito forte). O recorde da prova até então pertencia ao queniano Stephen Rugut (vencedor da edição anterior) com 2h14min30s, média de 3´11 por quilômetro. No km 10, o marroquino ainda estava muito rápido, com em 30´04 (média de 3´00 por km). E continuou: para os 15 km, 45´36 (média de 3´02), e para a meia maratona, 1h03min39s (média de 3´01 por km). Se dobrasse daria em torno de 2h07, o que seria impossível para um percurso com tantas curvas e subidas como a Maratona de São Paulo.
Os atletas que já participaram em ocasiões anteriores e que completaram entre 2h16 e 2h14 são atletas que tem em seu currículo resultados entre 2h07 e 2h09. Por aí, podemos ver a dificuldade que apresenta a Maratona de São Paulo.
Na prova tudo muda: 80% é cabeça e 20% condicionamento físico
A inteligência, paciência e a experiência são fatores de sucesso na prova oficial mais longa do atletismo. Vanderlei "Cordeiro" de Lima provou isso, seguindo o planejamento estratégico de passar a marca dos 21 km em 1h06 e fechando os 21 km finais em 1h05 (como se diz em Portugal: ele correu com o relógio nas pernas). O mais importante de tudo foi não se abater com os adversários e os comentários críticos antes da prova.
O atleta de alto nível nesse momento (como o próprio nome já diz) está concentrado no seu trabalho e traçando sua estratégia para a prova, estabelecendo tempos de passagens a cada quilômetro e mentalizando para seguir à risca o planejado.
Enquanto que o líder...
O vencedor não é obra do acaso:
Vanderlei "Cordeiro" de Lima, além da vitória mais importante de sua carreira neste domingo, é o brasileiro com mais pódios na São Silvestre (seis no total) e possui vitórias expressivas em provas de 5, 10, 15 e 21 km.
Sua maior conquista é sem dúvida a medalha de ouro na maratona dos Jogos Pan-americanos de Winnipeg em 1999.
Vanderlei também foi o campeão das Maratonas Reims, na França, em 1994, e da Maratona de Tóquio, no Japão, em 1996. Seu melhor resultado foi estabelecido em Roterdã, em 2000, quando chegou em 3º lugar com 2h08min34 (média de 3´03 km).
Atualmente, o recorde mundial pertence ao marroquino naturalizado americano, Khalid Khannouchi, de 30 anos, que no dia 14 de abril deste ano, estabeleceu o tempo de 2h05min38s, média de 2min57s por km (1h02min42sec nos 21 km iniciais), em Londres.