As areias do deserto provocam miragens
Foto: Arquivo Pessoal/ Rodrigo Cerqueira
Os atletas eram responsáveis pela sua alimentação
Foto: Arquivo Pessoal/ Rodrigo Cerqueira
Carlos Dias enfrentou o deserto mais quente do mundo
Foto: Arquivo Pessoal/ Carlos Dias
Entre os últimos dias 26 de outubro e primeiro de novembro a porção egípcia do Deserto do Saara recebeu competidores do mundo inteiro para a disputa de uma das etapas da ultramaratona 4 Deserts, que durante o ano percorre os locais com condições mais extremas do mundo. Carlos Dias, que correu ao lado de outro brasileiro, Rodrigo Cerqueira, conta como foi a experiência.
Segundo ele, ao chegar ao Cairo reparou que a cidade enfrenta problemas parecidos com os grandes centros brasileiros, como poluição; trânsito caótico e pobreza. Reencontrei amigos que havia conhecido em Gobi na China, como o Rodrigo, que chegou um dia depois de mim. No dia 25 de outubro um comboio de ônibus sendo escoltados por policiais federais e civis partiu do Cairo rumo ao acampamento no deserto, numa viagem de cerca de sete horas”.
Ao chegar ao acampamento a delegação foi recebida com festa pelos beduínos e Carlos já começou a vislumbrar os problemas que enfrentaria nos dias a seguir. “Minha mochila pesava 11 quilos e eu estava preocupado com o esforço e como terminaria o primeiro dia. Conversei muito com o Rodrigo na tenda, onde ficamos com atletas da África do Sul, Estados Unidos e Inglaterra”.
A primeira etapa começou no dia 26 com um trajeto de 35 quilômetros num trecho predominantemente de rochas, o que deixou o brasileiro com câimbras e muito cansado. “A sensação era de ter corrido uma prova duas vezes maior, mas fiquei feliz com os meus pés que não apresentaram nenhuma bolha”.
Após algumas horas de sono ele saiu para enfrentar o segundo trecho, num percurso de 41,8 quilômetros de terreno arenoso e com algumas pedras. “Ainda com câimbras e preocupado com a hidratação, fiz uma corrida mais tranqüila e sempre procurando manter um ritmo que me desse reserva para o dia seguinte, mas o sol e a areia castigavam todos e era difícil tentar falar alguma coisa de tanta exaustão”.
A terceira etapa foi disputada nas dunas e, a partir deste ponto, as famosas miragens que o deserto provoca nas pessoas pareciam afetar Carlos Dias. “A beleza das dunas era mortal, pois o esforço muscular a cada subida nos deixava alucinados e fracos. Elas me lembravam o feitiço das sereias, que nos atraem para o fundo do mar”. Ele diz ainda que começou a imaginar uma xícara de café revigorando suas energias e até sentia o cheiro da bebida.
A metade da competição havia ficado para trás e o próximo desafio, a quarta etapa, deveria ser enfrentado num percurso de 37 quilômetros ainda em meio às dunas, mas um oásis em meio ao deserto fazia parte da paisagem para aliviar os ânimos. “Eu pensava somente em terminar, não pensei momento algum em qual posição ficaria, pois em um ambiente como o Saara chegar era uma grande e majestosa vitória. Eu e o Rodrigo seguimos dando força um ao outro e isso me fez sentir muito melhor por ter feito um grande amigo tão longe de casa”.
Parte final - Se os dois últimos trechos foram traiçoeiros, a quinta e penúltima etapa teve que ser disputada com mais cautela ainda, já que os mais de 100 quilômetros tiveram que ser percorridos em parte durante à noite. “Sentindo o ambiente do acampamento no rosto de cada atleta, a ansiedade e o frio na espinha de cruzar o deserto dia e noite era notório. Eu e o Rodrigo mantivemos um ritmo de 5,5 quilômetros por hora durante 20h17min, cruzando todo o dia e a noite juntos, parando 15 minutos a cada 11 quilômetros. Uma vez só paramos 25 minutos para preparar nossa comida antes de continuar noite adentro”. Finalmente, às 4h17 eles avistaram o acampamento e o choro foi inevitável, numa mistura de alegria e cansaço. “Éramos como crianças novamente”, confessa Carlos.
Finalmente, no dia primeiro de novembro eles partiram para a sexta e última perna da competição, um trecho curto de 5,9 quilômetros, que os levou até as Pirâmides de Gezé. “A prova era curta, mas tivemos que buscar forças no fundo da alma para subir a areia quente. Ao final, veio a grande visão das pirâmides, além de muitos aplausos, abraços e choro”. Finalmente Carlos e Rodrigo conquistaram o sonho de completar os 254 quilômetros do deserto mais quente do planeta.
Carlos Dias afirma que recebeu mensagens de apoio de diversas partes do mundo, como Vietnã; China; Estados Unidos. Itália; Chile; Singapura Malásia e também do Brasil, algo que o ajudava a ter forças para enfrentar as duras etapas. “O pensamento vinha para a família. Eu lembrava do meu filho todo o tempo, das minhas irmãs e meus amigos”. Ele agradeceu também o apoio da Crocs, empresa que o patrocinou e manda um recado para a sua mãe: “Estou com fome do seu feijão!”.