O excesso de hidratação pode fazer mal
Foto: Arquivo Webrun
“Não se acostume a beber ou a consumir algo durante a maratona; alguns grandes corredores o fazem e isso não é bom.” (James Sullivan, representante americano na maratona olímpica em 1908.)
Poucos assuntos na corrida devem ter tanto material publicado aos praticantes. Todo mundo parece que já aprendeu sobe o assunto, mas uma pesquisa americana apontou que quando questionados sobre Hidratação, 83% dos atletas erravam questões bem simples. E os erros cometidos no início do século passado, como o exagero impensável da frase acima, passaram a fazer com que treinadores e pesquisadores apontassem suas recomendações ao outro extremo, ao excesso na hidratação.
Eu conversava com um treinador conhecido, dono de assessoria, e descobri que coincidentemente nós dois não tomamos nem carboidrato em gel nem água em treinos de até 15 quilômetros por pura inconveniência de carregar água. E isso faria mal?
No último texto eu falei aqui que o nosso organismo regula muito mal nosso mecanismo de sensação de fome, porém ele regula muito bem nosso mecanismo de sede! Vale lembrar que o homem é o animal mais inteligente, mas por que precisaria ser avisado pelos outros de quando seria o momento de beber? Será que não sabemos quando temos sede? Lógico que sabemos! Ninguém precisa se lembrado de se hidratar.
Com essa preocupação tão exagerada criou-se um mito que é o de “Se a sede aparecer, é tarde demais”. Não é! Uma famosa pesquisa descobriu quais seriam os efeitos da desidratação nos corredores. Foi estabelecido que a desidratação de 2% ou mais seria prejudicial ao desempenho. Pois a um grupo de corredores proporcionou-se 5% de desidratação (aproximadamente três litros) para analisar os efeitos. E o que ocorreu?
Descobriu-se que NÃO houve qualquer queda de desempenho na economia de corrida (eficiência), nos níveis de fadiga ou concentrações de lactato deles. Estes resultados vêm mostrar duas coisas MUITO importantes no tema hidratação em corredores:
1 Como na corrida carregamos nosso próprio peso, a perda de parte da água compensa a perda de desempenho, por isso, mesmo perdendo 5% de peso em água, os atletas NÃO perderam NADA em desempenho.
2 Pelo fato de que para cada grama de glicogênio muscular carregamos cerca de três em água, quando queimamos essa reserva perdemos água que, pra efeito de cálculo, não “seria originalmente nossa”. Assim, os métodos de análise de necessidade de reposição líquida hoje são SUPERESTIMADOS em até 30%!
Se água em excesso não traz qualquer benefício na corrida e se nosso organismo trabalha bem, mesmo com 5% de hidratação, por que se preocupar e carregar o excesso que beberíamos exageradamente?
É hora de voltar ao básico, beber água em provas apenas quando a sede mandar e em quantidade que acabe com a sensação de sede. Começar a atividade hidratado consumindo uma hora antes uma garrafa de 500ml a 6% de carboidrato, concentração da maioria das bebidas esportivas, é comprovadamente mais do que suficiente.
Não se iluda com a insistência em consumir muito mais do que isso. Vale lembrar que muito do material hoje disponível e consultado quando falamos sobre hidratação foi produzido e divulgado por empresas que “misteriosamente” em todas as suas pesquisas apontam para uma necessidade de se consumir muito líquido!
O excesso não traz benefícios e pode apenas gerar a rara situação de hiponatremia, que é a queda anormal da concentração de sódio no sangue pela combinação da perda de sódio no suor com ingestão excessiva de água. Se você for um corredor pesado, mulher, lentos e/ou destreinado, mais cuidado ainda!