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Treinamento em Altitude


Por Ricardo D´Angelo | 05/02/2005 - Atualizada às 00:01

Qual a altitude ideal para se treinar? E em que momento da periodização? Importantes aspectos que devemos considerar no planejamento de uma temporada de treinamento em altitude, o local e sua época, devem ser escolhidos por critérios específicos.

A aclimatação à altitude depende de uma série de mecanismos fisiológicos, basicamente pela descarga decrescente de oxigênio nos tecidos periféricos. Para a maioria dos indivíduos, estas adaptações fisiológicas acontecem entre altitudes de 2.200 e 2.500m, embora tenhamos informações de melhora da resistência em altitudes de até 1.250m. Acima dos 2.500m é provável que tais adaptações sejam maiores, porém, em altitudes de até 4.000m, a hipoxia resulta em possível perda de peso e redução na massa muscular. Uma altitude entre 2.500 a 2.800m oferece uma maximização no processo de aclimatação e minimiza as possíveis complicações colaterais (Levine & Straygundersen, 1999). Na prática, o treinamento em altitude normalmente é conduzido em alturas moderadas, entre 1.800 e 2.400m.

O treinador de fundo Bruce Tulloch (Alford, 1994) destaca que seus atletas geralmente chegam até 2.150m e realizam alguns treinos em altitudes superiores e que nunca descem a menos de 1.850m. O centro de treinamento de altitude de Font Romeu (França) tem exatamente 1.850m. Outros centros ao redor do mundo são: St. Moritz (Suíça), Sestriere (Itália), Belmeken (Bulgária), Albuquerque (Novo México/EUA), Flagstaff (Arizona/EUA), Gunnison, Alamosa e Boulder (Colodado/EUA). Durante os meses de inverno, Nairobi (Quênia), Addis Ababa (Etiópia), África do Sul e cidade do México são alternativas populares para os campings de treinamento em altitude, principalmente para atletas Europeus (Baumann, 1994; Popov, 1994). De acordo com Levine & Straygundersen, as sessões de trabalho intervalado deveriam ser realizadas mais próximo possível do nível do mar, de preferência abaixo de 1.500m, para maximizar a velocidade de corrida e a intensidade do treinamento.

Entretanto, alguns fatores adicionais merecem ser considerados quando se escolhe o treinamento de altitude. Martin (1994) destaca que dependendo da residência habitual do atleta, uma altitude em particular pode ou não provocar as adaptações desejadas. Como exemplo, os atletas da cidade do México não consideram seus 2.300m como altitude, optando em subir a 3.500m nas colinas montanhosas nos arredores de Toluca para receber um estímulo em altitude. Por outro lado, os atletas que vivem nas cidades litorâneas, encontram um grande desafio no treinamento desenvolvido na cidade do México.

Quanto a melhor época para “subir”, devemos considerar o principal objetivo de um camping de treinamento em altitude: desenvolver uma sólida base aeróbia. Para tanto, o momento mais efetivo para um camping deste tipo é sempre o primeiro período de preparação básica. Para aqueles que optam pela periodização convencional, pode-se ainda repetir curtos períodos em março e abril, logo após as temporadas de cross-country e pista coberta, e em julho, depois da primeira parte da temporada de pista ao ar livre (Baumann, 1994). Outra razão para este momento é que para os corredores de meio fundo, por exemplo, é muito difícil manter e/ou melhorar seu volume (velocidade de pernas, rapidez) na altitude (Martin, 1994). Um camping de treinamento em altitude somente se deve planificar se existe tempo suficiente de permanência de pelo menos 3 semanas, mais 12 a 14 dias de aclimatação ao nível do mar (Baumann, 1994).

Existem outras considerações especiais e importantes que devemos observar antes de planejar o camping em altitude. Uma série de estudos envolvendo mais de 100 corredores competitivos de fundo em treinamento em altitude, revelou que 40% (60% de mulheres e 25% de homens) tinham reduzido seus depósitos de ferro baseado na ferritina sérica. Os atletas com baixos níveis de ferritina (proteína sanguínea) antes de qualquer exposição à altitude (homens e mulheres) não foram capazes de aumentar o volume de massa de glóbulos vermelhos (volume de glóbulos vermelhos menos volume de plasma) e não aumentou o VO2max ou melhorou o rendimento da corrida. Como o ferro é um componente crítico importante, sua carência não só pode comprometer a capacidade de transporte de oxigênio como também reduzir o VO2max.

Assim, os depósitos de ferro devem estar normalizados antes de se encarar um treinamento em altitude. Para se atingir essa normalização, poderá ser necessária alta dose de ferro por via oral, em doses divididas, que geralmente são bem toleradas em preparações pediátricas líquidas (Levine & Straygundersen, 1999).

Na próxima edição, estarei abordando aspectos como duração e freqüência do treinamento em altitude, bem como a metodologia de treinamento indicada para se obter os melhores benefícios.

Referência Bibliográfica: IAAF@-Letter, dezembro 2003, n.o 6.


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