A mulher na mira da medicina esportiva parte I: questões neuromusculares e anatômicas

Fotografia de um estudo neuromuscular simulando um aterrissagem (foto: Arquivo Taktos Medicina Esportiva)
Fotografia de um estudo neuromuscular simulando um aterrissagem (foto: Arquivo Taktos Medicina Esportiva)

A partir de março o Webrun estreia a coluna Mulheres Corredoras, comandada pelo médico ortopedista especialista em cirurgia do joelho, Dr. Adriano Leonardi. Mestre em ortopedia e traumatologia pela Santa Casa de São Paulo, ele atualmente coordena um estudo sobre lesões em mulheres.

Neste primeiro artigo vamos falar sobre alguns motivos que levam as mulheres a sofrerem tantas lesões quantos os homens, ou mais. Dividido em duas partes, a seguir abordaremos as questões neuromusculares e anatômicas.

Sem dúvida, cada vez mais mulheres do mundo todo têm frequentado campos de futebol, quadras e pistas de corrida. A prática esportiva, a crescente profissionalização nas mais diversas modalidades e a busca do fitness e da qualidade de vida através do esporte, trouxeram maior exposição e, consequentemente, lesões que outrora eram quase que exclusiva dos homens.

Estudos publicados nos últimos 20 anos mostram que as mulheres não apenas estão se lesionando, mas que o fazem em taxas absurdamente maiores que os homens. Para o futebol, por exemplo, atletas do sexo feminino têm quatro vezes mais chance de sofrer uma lesão ligamentar do joelho e, para a corrida de rua, esta proporção extrapola o índice de um homem para sete mulheres lesionadas para a mesma intensidade e volume dos treinos.

Arendt e Dick, estudando atletas do sexo feminino no basquetebol e futebol, notaram que, em cinco anos, a taxa média de lesão do ligamento cruzado anterior do joelho foi de 0,31 por
1000 atletas para jogadoras de futebol feminino, em comparação para os 0,13 por mil atletas de exposições para os seus homólogos masculinos. Para o basquete, a taxa foi de 0,6 por mil atletas mulheres em comparação com 0,07 por mil atletas homens.

Mas, afinal, por que isso acontece? A ciência tenta explicar esta discrepância através de três teorias:

  • a) Neuromuscular:

    Autores que defendem a primeira, afirmam que as atletas exibiriam um tempo de recrutamento de grupos musculares e tempo de ativação destes músculos maiores que os observados em homens e que isso poderia afetar a dinâmica de diversas articulações, principalmente o joelho. De maneira mais compreensiva, isso significa que, em uma aterrissagem do vôlei, ou a cada passo de uma corrida de rua, o “comando” vindo do cérebro para que a musculatura se contraia de maneira adequada, chega “atrasado”, fazendo com que as articulações estejam mal posicionadas e em maior risco de lesão, tanto por micro-trauma repetitivo, quanto para entorses e distensões.

    A figura ao lado mostra a diferença de uma aterrissagem de uma mulher (à esquerda) e de um homem (à direita). Note que os joelhos da mulher caem “para dentro” (valgizado) e em rotação interna e que isso não acontece com o homem.

  • b) Anatômica

    A teoria anatômica tenta explicar a discrepância do índice de lesões entre homens e mulheres através das diferenças morfológicas.

    No quadril, a bacia mais larga aumentaria o braço de alavanca sobre os músculos rotadores do quadril, especialmente os glúteos médio e mínimo, predispondo a bursite e tendinites trocantéricas. No joelho, a patela alta e lateralizada e o sulco troclear raso (trilho por onde a patela desliza quando se flexiona o joelho) seriam responsáveis por um contato reduzido entre a patela e o fêmur e, consequentemente, à doenças causadas pela pressão excessiva na cartilagem articular, como a condromalácia, síndrome da hiperpressão lateral, sinovite e hoffite do joelho.

    O tamanho e espessura reduzido dos ligamentos do joelho e tornozelo colocariam estas articulações em risco nos casos de entorses e contusões

    Por fim, eixo dos membros inferiores, ou seja, o formato das pernas das mulheres tende a ser em “X”, conhecido na ortopedia como joelho valgo ou genu valgum. Isso seria um fator de maior lateralização da patela, predispondo às doenças do joelho descritas acima, além de causar sobrecarga medial das tíbias, levando à canelite e fraturas de estresse da tíbia e a tendinite do tornozelo.

    Não deixe de acompanhar na próxima semana a terceira e última teoria sobre o aumento de lesões em mulheres, os hormônios.

    1 – Hewett TE, Myer GD, Ford KR, et al. Biomechanical measures of neuromuscular control and valgus loading of the knee predict ACL injury risk in female athletes. Am J Sports Med. 2005;33:in press.

    2 – Beynnon BD, Fleming BC. Anterior cruciate ligament strain in-vivo: a review of previous work. J Biomech 1998;31:519 25.

    3 – Li G, Rudy TW, Sakane M, et al. The importance of quadriceps and hamstring muscle loading on knee kinematics and in-situ forces in the ACL. J Biomech 1999;32:395 400.

    4 – Markolf KL, Graff-Redford A, Amstutz HC. In vivo knee stability: a quantitative assessment using an instrumented clinical testing apparatus. J Bone Joint Surg [Am] 1978;60:664 74.

    5 – Besier TF, Lloyd DG, Cochrane JL, et al. External loading of the knee joint during running and cutting maneuvers. Med Sci Sports Exerc 2001;33:1168 75.

    6 – Rozzi SL, Lephart SM, Gear WS, et al. Knee joint laxity and neuromuscular characteristics of male and female soccer and basketball players. Am J Sports Med 1999;27:312 19.

    7 – Wojtys EM, Ashton-Miller JA, Huston LJ. A gender-related difference in the contribution of the knee musculature to sagittal-plane shear stiffness in subjects with similar knee laxity. J Bone Joint Surg [Am] 2002;84:10 16.

    8 – Zazulak BT, Ponce P, Straub SJ, et al. Gender comparison of hip muscle activity during single-leg landing. J Orthop Sports Phys Ther 2005;35:in press.

    9 – Myer GD, Ford KR, Hewett T. The effects of gender on quadriceps muscle activation strategies during a maneuver that mimics a high ACL injury risk position. J Electromyogr Kinesiol 2005;15:in press.

    10 – Besier TF, Lloyd DG, Ackland TR, et al. Anticipatory effects on knee joint loading during running and cutting maneuvers. Med Sci Sports Exerc 2001;33:1176 81.

    Este texto foi escrito por: Dr. Adriano Leonardi

  • Redação Webrun

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