A vida depois de um problema cardíaco

Foi-nos solicitado comentar sobre o assunto: como viver depois de um problema cardíaco? Um fato ocorrido no ano de 1971, com um quarto zagueiro do glorioso São Paulo FC (atenção, sou Corinthiano) e da seleção brasileira, na época com 27 anos de idade chamou a atenção dos médicos. Durante um jogo do campeonato paulista, após uma disputa de bola, teve forte aperto no peito, que na hora não lhe preocupou muito, porque foi melhorando aos poucos. No dia seguinte o médico do SPFC, Dr. Dalzel F. Gaspar, preocupado, decidiu levá-lo ao Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, no Ibirapuera.

Lá, após ser examinado por uma junta médica liderada pelo Prof. Michel Batlouni, teve o confirmado o diagnóstico de que havia tido um infarto do miocárdio. Para completo esclarecimento, ele foi submetido ao cateterismo das coronárias (também chamado de cinecoronariografia) e iniciado o tratamento clínico. Depois de alguns meses, foi liberado para continuar sua carreira de futebolista. Tão certa foi essa decisão, que pôde ainda jogar no México e voltar à seleção brasileira de futebol, sem maiores problemas.

Pode-se dizer que, no início dos anos 70, começou uma revolução na prevenção, tratamento e de um futuro próximo do normal, para uma das mais graves doenças do coração, o infarto do miocárdio. Hoje, com a rapidez no atendimento do infartado, seja o paciente pobre ou rico, os 60 % de óbitos que aconteciam nas primeiras 24 horas, baixaram para menos de 10% nos dias atuais. Nas UTI da maioria dos hospitais, até seis horas do início dos sintomas de infarto, é usada uma injeção com uma substância que dissolve o coágulo causador do entupimento da coronária (infarto) ou então se faz a angioplastia que é o desentupimento pelo cateterismo.

Depois desse atendimento, para a maioria dos casos de infarto, os passos seguintes são animadores. O tratamento poderá ser somente clínico, ou seja, com medicamentos e mudanças no estilo de vida, como foi o caso do futebolista, ou então tratamento intervencionista, com angioplastia ou pela cirurgia de pontes de veia safena e de artéria mamária.

A regra médica é a de preparar o paciente para liberação para atividades gerais e físico/esportivas em dois meses, participando de algum programa de reabilitação cardiovascular supervisionado por médico e professores de educação física, ou então fazendo sua reabilitação com orientação médica individualizada. Caso for para atividades esportivas competitivas serão necessários seis meses de preparação. O médico é que irá concluir o estado clínico do paciente e suas condições cardíacas durante esforços físicos, pelo teste ergométrico (de esforço, na esteira ou bicicleta) feito por um cardiologista.

Com o avanço dos conhecimentos, podemos dizer que a vida após um problema cardíaco ficou muito favorável, o maior problema é a indisciplina e até abandono do tratamento. Estatísticas incríveis mostraram que 65% dos ex-fumantes voltam a fumar um ano depois de terem parado. Quase 60% dos que tem pressão alta, abandonam o tratamento depois de um ano. Entre os que têm colesterol um pouco alto, depois de três meses, quase 80% simplesmente “esquecem as recomendações alimentares e de tomar os medicamentos”.

Pergunto: se ninguém quer sofrer por quê então as pessoas são indisciplinadas mesmo sabendo que podem voltar a ter vida normal? A resposta está na natural negação de uma doença que nós humanos praticamos sem querer, por isso o médico, a família e os amigos, sem terrorismo ou muita pressão, devem ajudar a tornar possível um novo estilo de vida saudável, confiando nas instruções médicas e tirando da frente no dia a dia, as dificuldades inúteis e pondo um pouco de amor na sua vida, como dizia o poeta.

Este texto foi escrito por: Dr. Nabil Ghorayeb

Redação Webrun

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