Como ter um abdômen equilibrado?

Fortalecer ou não? Trincar ou não trincar? Pela lógica, parece realmente fazer sentido que se pense: quanto mais forte meu abdômen, melhor será meu desempenho, certo? Errado! Isso pelo simples fato de que qualquer grupo muscular exercitado em excesso, vai causar um desequilíbrio no sistema. Ah, então a solução é fortalecer os músculos da lombar, assim teremos equilíbrio, certo? Errado!

Vamos aos fatos: artigos como o The myth of core stability publicado em 2010 no Journal of Bodywork & Movement Therapies deixam claro que a força abdominal, ou melhor, o fato de um indivíduo ter ou não força abdominal, não está relacionado diretamente com a dor na coluna lombar. Percebam que aqui relaciono diretamente a dor lombar com uma disfunção, pois se há dor, pode ter certeza que este é um alerta para uma em 95% dos casos, pois estatisticamente, apenas 5% de dores lombares tem indicação direta de cirurgia quando nos referimos a casos ortopédicos, sem tumores relacionados.

Será que o foco total no fortalecimento do abdômen é tão importante? Foto: oneinchpunch/Fotolia
Será que o foco total no fortalecimento do abdômen é tão importante? Foto: oneinchpunch/Fotolia

 

O que tem ficado muito em evidência nos estudos antropológicos, como o The ancestral shape hypothesis: an evolutionary explanation for the occurrence of intervertebral disc herniation in humans. BMC Evolutionary Biology (2015), é que o sentar parece ser o grande vilão da coluna, causando deformidades nas vértebras para se adaptarem, perdendo assim as características que desenvolvemos quando nos tornamos bípedes.

Claro que quando mal interpretados estes estudos podem gerar polêmicas de todo tipo, mas ao unirmos estes dados com a prática clínica, não restam dúvidas de que mais importante do que fortalecer o abdômen, é manter o equilíbrio entre os músculos do tronco, assim como de qualquer articulação. Dessa informação pode pode vir a dúvida: fortalecendo muito todos os grupos musculares terei a coluna protegida? Como citei no início do artigo, esta ideia está equivocada, pelo simples fato de que fortalecimento em excesso leva a tensões musculares e rigidez. Nossos ancestrais não faziam exercícios abdominais e viviam bem, mas claro, eles se movimentavam o tempo todo, não ficavam sentados horas em computadores como nós.

Temos que começar a retornar a nossa essência e lembrar que as articulações precisam de movimento para serem lubrificadas naturalmente, o excesso de exercícios com carga vai levar a rigidez e isto é contrário à boa mobilidade articular. Estamos falando aqui de um conjunto de articulações, que quando bem estabilizadas por uma boa sinergia entre músculos equilibrados, geram um movimento coordenado e articulações saudáveis. A rigidez leva a falta de mobilidade, à diminuição dos espaços articulares e em longo prazo à dor e artrose (degeneração das articulações).

Além disso, muitas vezes esquecemos que os músculos abdominais devem ser “alongados”, para compensar as horas que ficamos em posição de flexão de coluna quando sentamos. Massagear o abdômen também vale, assim como nossas mães faziam quando não íamos ao banheiro. O “alongar” pode ser simplesmente deitar numa bola de Pilates grande com a cabeça, a lombar e dorsal bem apoiadas e os braços abertos. Claro que exercícios como estes devem ser feitos preventivamente, no caso de dor o fisioterapeuta ou médico devem ser consultados.

O alongamento muscular deve ser feito diariamente Foto: javiindy/Fotolia
O alongamento muscular deve ser feito diariamente Foto: javiindy/Fotolia

 

Lembre-se que para correr melhor é preciso ter um corpo livre de tensões, cadeias musculares bem equilibradas, boa mobilidade articular e consciência corporal. Cargas elevadas só vão levar a desgaste articular e tensões musculares desnecessárias para um esporte como o nosso. Sempre estimulo que meus pacientes priorizem como fortalecimento aulas de Pilates ou funcional, exercícios ao ar livre em gramados descalços, trabalhos com pouca carga e equilíbrio também são ótimas opções.

Boas treinos!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Claudio Cotter

Claudio Cotter

Fisioterapeuta formado, sempre trabalhou com reabilitação esportiva na clínica, em vários eventos nacionais e internacionais, incluindo O 1º mundial FIFA pela Seleção Sub 17 Feminina como fisioterapeuta da equipe. Ao mesmo tempo se especializando em postura e análise de marcha e da corrida. Hoje, desenvolve trabalhos dentro de um conceito de equipe multidisciplinar em sua clinica e pós graduando em medicina psicossomática, aplicando seus conhecimentos em pacientes esportistas ou não, com o objetivo de tratar a fundo as causas das dores, sendo físicas, relacionadas à postura no trabalho ou na corrida, ou emocionais. Além de consultor da Mizuno em alguns projetos nos últimos 3 anos e ultramaratonista.

Ver todos os posts