Achilles Marathon 2002

O “The Achilles Track Club” (ATC) é o maior clube de corredores deficientes existente no mundo e foi criado em Nova York no ano de 1983. Sua luta em prol das Pessoas Portadoras de Deficiência (PPD’s) fez com o que o clube se expandisse através de associados por mais de 100 países ao redor do mundo.

Deficientes visuais, amputados, pessoas que utilizam próteses, cadeirantes, pessoas com câncer e AIDS fazem parte do Achilles que desde o ano de 1998 realiza anualmente a Achilles Marathon.

Achilles Marathon 2002 – Para essa edição, o Achilles Track Club esperava a participação de 2.500 atletas, entre cadeirantes, handcycles, amputados, surdos, cegos e outras deficiências, infelizmente a chuva atrapalhou bastante.

A prova no Prospect Park, Brooklin será realizada, talvez, por mais um ano dentro do parque e após isso, provavelmente sairá para as ruas, tal a dimensão que tomou. Estavam 20 países representados e já existe a intenção e a negociação com a prefeitura de Nova York para que isso seja possível já está em andamento.

Existe uma probabilidade muito grande de no ano que vem esta prova ser disputada no Central Park ou talvez já nas ruas de Nova York.

Vitória verde amarela: Chuva e frio não foram obstáculos para que esse ano dois brasileiros alcançaram o lugar mais alto do pódio na Achilles Marathon. Na modalidade Cadeirantes, Carlos Roberto de Oliveira (Dado Bier) foi o vencedor, enquanto, Paulo de Almeida (Branca Fitness/BR Petrobrás) venceu entre os Amputados.

Cadeirantes: Desafiando a chuva que dificulta a “tocada” e pilotagem da cadeira o brasileiro Carlos Roberto de Oliveira, 41, confirma sua posição de melhor cadeirante brasileiro da atualidade ao vencer a prova com a marca de 2:21:47, quase oito minutos mais rápido que o vice-campeão, o norte-americano Reginald Jarrett com 2:28:37.

O terceiro colocado foi o libanês Edouard Maalouf, 30, com a marca de 3:24:56.

Amputados: Outro destaque brasileiro foi o corredor Paulo de Almeida (Branca Fitness/BR Petrobrás) que venceu a prova categoria amputados – com mais de uma hora de vantagem sobre o 2° colocado. Almeida é recordista mundial da modalidade maratona categoria amputados e, entre seus feitos foi completar ano passado a Comrades Marathon (89 Km).

Essa é a segunda boa performance de Paulo Almeida, 36, na Achilles Marathon, ano passado ficou em 2° lugar com 3:52:27, já nesta edição, concluiu os 42.195 metros em 3:44:58.

Já o segundo colocado foi o norte-americano Stephen Terrien, 48, com 4:49:16, seguido de seu compatriota Malachi Ananias , terceiro colocado, com 7:50:29.

Segundo, Vanderlei “Branca” Severiano, técnico de Almeida, os treinos do campeão seguiram uma programação não muito diferente de um corredor normal, pelo fato de que a amputação do atleta está localizada abaixo do joelho.

“Fizemos um trabalho de musculação, natação e até bicicleta, por causa da estrutura física e sobrecarga de treino e do dia a dia, afinal, falta algo, e de uma certa forma temos que compensar com alongamentos e fortalecimentos, pois a impulsão da perna artificial é bem maior e isto faz com que haja um desequilíbrio muscular e sobrecarga sobre a perna normal. Já quanto a parte de treinamento de corrida fizemos uma média de 2 à 3 longos acima de 25 Km e trabalhado de acordo com as condições físicas e genética do atleta, explicou, Branca.

WebRun – Como foi sua vitória na Achilles Marathon?
Carlos Roberto de Oliveira: Foi fantástico vencer esta prova. Eu me preparei muito para ela, comecei o meu treino em novembro. Minha mãe no mês de maio me cobrou que desde novembro eu a visitei apenas três vezes. Eu no verão fui apenas quatro dias ao litoral (Porto Alegre não tem praia, mas fica apenas uma hora de carro, a minha não ida foi para manter o treino e concentração mesmo), meus amigos me cobraram que não saia mais, enfim muitas coisas foram deixadas de lado neste período para que eu pudesse atingir o índice técnico que atingi ao final de cinco meses de treinamento.

Foi um preço super alto, mas valeu a pena pois não é todos os dias que você é página do New York Times e principais jornais e revistas do Brasil.

Chovia muito na hora da largada da prova esse muito poderia ser traduzido como torrencialmente, ao ponto dos fotógrafos não terem as fotos dos cadeirantes que fizeram a primeira largada às 7h00 da manhã. Só conseguiram fotos dos amputados, cegos, surdos e
outros que largaram às 10.00 uma vez que neste horário a chuva tinha dado uma amainada.

Ao final ainda quase que fico sem o título pois não havia muita gente na hora da minha chegada e eu cheguei atrás um corredor equatoriano (que utilizava um handcycles) e que chegou em terceiro lugar na categoria de handcycles (os handcycles são aquelas cadeiras com engrenagem, sobem “muiiiiito” mais rápidos as ladeiras e na chuva nem se fala) e o nome dele aparecia na lista na minha frente e eles não tinham a identificação de que tipo de
equipamento ele tinha usado até que apareceu o árbitro de chegada e confirmou a minha vitória. Eu certamente teria finalizado a prova na casa de 1:45:00 mim não fosse a chuva, me preparei muito para isso.

WebRun – Como os americanos trataram você após a conquista?
Oliveira: Foi fantástico o reconhecimento, não se é notícia no New York Times sem reconhecimento. Dei autografos, posei para muitas fotos, com corredores, colegiais, recebi assédio de garotas, enfim toda aquela pompa de um campeão da Maratona de Nova York. Foi muito legal mesmo, espero poder repetir tudo de novo. Faz bem para o ego!

WebRun – Como surgiu sua deficiência?
Oliveira: Eu tive poliomielite com 1,8 meses de idade. Tenho seqüela desta doença com um comprometimento de 100% no MID (membro inferior direito) e de 20% no MIE bem como escoliose e lordose.

WebRun – Como o esporte entrou na sua vida?
Oliveira: O esporte, acredito eu, já nasceu no meu sangue, pois há muito tempo, bem antes de serem televisionadas as corridas de rua eu já sonhava em correr a Corrida de São Silvestre, pois quando garotinho vi o meu Tio Jorge correndo com um frango na mão (como se fosse a tocha olímpica) dizendo que estava participando da Corrida de São Silvestre, achei muito engraçado e aquilo não me saiu da cabeça até um dia participar e vencer uma corrida de São Silvestre sem saber que estava vislumbrando o futuro naquela época.

Eu encontrei a corrida após passar pelo basquete sobre rodas. Tive um experiência com os basqueteiros, mas não afino com os esportes coletivos. Não gosto de passar minhas tarefas a ninguém e é o que acontece quando eu estou mal (aqueles dias que você não rende 100%), em contrapartida não superto carregar o fardo de ninguém. Prefiro treinar e colher os frutos deste treinamento.

Se treino legal vou vencer, se não treino vou levar pau é isso o atletismo é exato e não tem a interferência da sorte e nem de árbitros com decisões que as vezes beneficiam A ou B. Existem decisões de árbitros que influenciam no resultado das partidas e se essa decisão for contra mim ?

WebRun – Quais foram os benefícios que o esporte trouxe para você?
Oliveira: Além da qualidade de vida o esporte trás o meu suprimento diário de droga (endorfina e outras produzidas pelo corpo) eu adoro as sensações que as drogas naturais exercem em mim. Satisfação, euforia, etc… Meu médico me falou que sou viciado nessas drogas, pois não consigo ficar uma semana sem treinar. Fico irritadiço e com coceiras pelo corpo, me falou ele, resultado da não ação das drogas no corpo.

Todo PPD (portador de deficiência) necessita de outros movimentos para poder suprir a sua deficiência. Eu uso muito os braços para suprir a minha deficiência das pernas e como maratonista tenho uma habilidade descomunal nos braços, além da força necessária para
isso. O esporte já me mandou para os quatro cantos do planeta. Certamente não teria conhecido todos os lugares que conheci não fosse o esporte. Certamente não seria conhecido no Brasil e exterior, não fosse o esporte que me abriu e me abre muitas portas.

Tem também a satisfação pessoal, você ser conhecido por um público de Maratonas é fantástico.

Os caras gritam o seu nome é maravilhoso. Isso sempre acontece em Curitiba e Porto Alegre. Em Curitiba é fantástico, apesar de ter corrido apenas um ano lá fiquei deslumbrado. O povo “entra” na prova. O locutor oficial me fez prometer que retornaria este ano, após ter batido o recorde da prova ano passado e o que se seguiu foi uma ovação ensurdecedora da assistência, isso é impagável. Já em Porto Alegre esse ano eu iria correr apenas 21 km, pois uma semana antes tinha corrido em New York em condições bastante adversas, mas o povo começou a gritar o meu nome e eu senti que tinha
que dar algum retorno (satisfação) àquelas pessoas que acompanham as minhas performances por jornal e revistas e acabei batendo o recorde da prova com 1.57.07, sendo assim o primeiro atleta na história da Maratona de Porto Alegre a cruzar a linha de chegada
abaixo das duas horas (Há também a satisfação de poder ajudar quem está começando, pois quando eu comecei não tinha informação alguma, não existe bibliografia sobre esta modalidade (corrida) e havia apenas um profissional em todo o Brasil que conhecia alguma coisa do assunto e não trabalhava comigo.

Aprendi a acertar errando e hoje eu acumulo uma experiência fantástica que já estou dividindo com vários corredores do Brasil.

Este texto foi escrito por: Carlos Oliveira (Carlão)

Redação Webrun

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