• Saúde - Anti-inflamatórios antes/após o exercício: heróis ou vilões?

Anti-inflamatórios antes/após o exercício: heróis ou vilões?

O relato nas mídias leigas e especializadas acerca do uso desenfreado de anti-inflamatórios orais por praticantes de atividade física, incluindo a corrida, em todo o mundo trouxe à tona uma polêmica ainda muito longe de ser encerrada. A situação fica ainda pior quando profissionais da área da saúde orientam seus pacientes a utilizar esta classe de medicamento quando surgem sintomas de dor, ou mesmo antes de provas mais longas, o que tornou a questão ainda mais complicada.

Os principais agentes anti-inflamatórios são representados pelos glicocorticoides e pelos anti-inflamatórios não hormonais (ou não esteroides), conhecidos pelas siglas AINH ou AINE, que compõem a classe de medicamentos mais utilizada no mundo. Os AINH’s são assim chamados por não derivarem de compostos hormonais em suas fórmulas.

Existem mais de 50 AINH’s comercializados atualmente, porém, nenhum deles é verdadeiramente ideal no controle ou na modificação dos sinais e sintomas da inflamação.  Estas drogas possuem três tipos principais de efeitos:

1- Efeito anti-inflamatório: modificação da reação inflamatória
2- Efeito analgésico: redução da dor
3- Efeito antipirético: redução da febre

Anti-inflamatórios antes/após o exercício: heróis ou vilões?

Foto: Adobe Stock

Como funcionam

Em geral, todos estes efeitos estão relacionados com a ação primária destas drogas, ou seja, a inibição da enzima araquidonato ciclooxigenase (COX), responsável pela produção de substâncias mediadoras dos processos inflamatórios nos tecidos. Existem dois tipos de COX: COX-1 e COX-2, esta última produzida nas células inflamatórias quando estão ativadas.

A ação anti-inflamatória dos AINH’s ocorre pela sua inibição da COX-2, e é provável que seus efeitos indesejáveis decorram, em grande parte, da inibição da COX-1.  Novos compostos que apresentam alguma ação seletiva apenas sobre a enzima COX-2 já são comercializados há algum tempo, como por exemplo o Celebra (celecoxibe), o Arcoxia (etoricoxibe) e o Vioxx (rofecoxibe), apesar destes dois últimos terem sido retirados do mercado pelo fabricante após determinação da Anvisa.

No Brasil, existem dois anti-inflamatórios que são bem conhecidos e muito utilizados pelos corredores: Advil (ibuprofeno) e Flanax (naproxeno sódico). Apesar de serem drogas diferentes, atuam no controle do processo inflamatório e redução da dor pela inibição da síntese de prostaglandinas, como mencionado anteriormente, que são substâncias que atuam no processo do desencadeamento da inflamação. Não existem evidências científicas que mostrem uma absorção adequada destas drogas, ou de qualquer outro AINH, durante exercícios físicos, fato que traz dúvidas quanto à eficácia e/ou à vantagem da sua administração nestas circunstâncias.  E como produzem efeitos colaterais indesejáveis, sua utilização deve ser restrita a situações muito específicas e apenas por tempo limitado, não justificando seu uso para o controle de dores musculares do dia seguinte por exemplo, como veremos adiante.

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Efeitos colaterais 

Os efeitos indesejáveis mais comuns dos AINH’s consistem em problemas gastrointestinais (risco três vezes maior se comparado a não usuários de AINH’s): azia, diarreia, náuseas, vômitos, gastrite, sangramentos e até perfurações do aparelho digestivo induzidas principalmente pela inibição da enzima COX-1, responsável pela diminuição da acidez e proteção da cobertura do trato gastrointestinal.  Os AINH’s mostram-se particularmente eficazes contra a dor associada à inflamação decorrente de lesão tecidual, visto que diminuem a produção das substâncias que podem sensibilizar os receptores das células. Porém, são responsáveis por quase 25% das reações adversas a drogas notificadas em alguns países, como no Reino Unido, e frequentemente figuram nos relatórios de mortes relacionadas ao uso de medicamentos.

Portanto, ingerir estes medicamentos mesmo com alimentos não protege o usuário de seus efeitos colaterais. As lesões da pele constituem o segundo efeito indesejável mais importante dos AINH’s, seguidas dos problemas renais que estas drogas são capazes de provocar, como insuficiência renal aguda, que pode ser reversível com a interrupção da administração do fármaco.

Recentemente alguns estudos demonstraram um aumento do risco cardiovascular (infarto, hipertensão não controlada) em pacientes que utilizavam AINH’s por longo tempo, fato que determinou o laboratório Merck Sharp & Dohme a retirar do mercado mundial os medicamento Vioxx e a apresentação de 120 mg do Arcoxia.  Dessa forma, os anti-inflamatórios não hormonais são medicamentos que devem ser utilizados com critérios rigorosos, respeitando sempre a prescrição médica, e indicados em situações particulares e por um tempo curto e pré-determinado de tratamento.  Todos os profissionais de saúde devem orientar seus pacientes ou alunos em relação aos perigos da automedicação, pois ainda pior do que ela é a “autodesmedicação”.

Estudos sobre a eficácia e a disponibilidade para o organismo destes medicamentos quando ingeridos durante exercícios físicos são escassos e inconclusivos, portanto, a prática de ingerir AINH’s antes de provas curtas ou longas não faz nenhum sentido fisiológico.  As dores músculo-esqueléticas próprias de treinos mais intensos ou competições são normalmente causadas por micro-lesões nos tecidos conjuntivos que envolvem a musculatura, e a dor faz parte do processo inflamatório de reparação destes tecidos. Não é à toa que seu técnico lhe orienta a realizar um treino regenerativo no dia seguinte às provas. O uso de gelo ainda se mostra como um potente agente analgésico e anti-inflamatório, sem trazer os efeitos indesejáveis dos AINH’s.

Bibliografia:
Rang and Dale; Farmacologia, Ed. Elsevier, 2001.
Calabrese, L. & Rooney, T.; The Use of Nonsteroidal Anti-inflamatory
Drugs in Sports, The Physician and SportsMed, vol. 14, 1986

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Dr. José Marques Neto
Graduado em medicina pela Universidade de São Paulo (USP) e em cinesiologia, Magna Cum Laude, pela Texas Christian University, nos Estados Unidos. Médico especialista em Medicina do Esporte pela SBME e em Ortopedia e Traumatologia pela SBOT, pós-graduado em Fisiologia do Exercício pelo Instituto de Ciências Biológicas-USP e em Biomecânica da Saúde e Atividade Física pela Universidade Gama Filho. Consultor em Medicina do Esporte das revistas Contra Relógio e Women's Health, e do site Webrun. Médico do Esporte do Instituto VITA em São Paulo.
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