Calor: o inimigo número um

Sexta-feira, 31 de dezembro de 2004, a octagésima edição da Corrida Internacional de São Silvestre reuniu 15 mil corredores, divididos em 2 mil mulheres e 13 mil homens. A prova feminina teve inicio às 15h15 e a masculina às 17h06. A grande maioria dos corredores que participam da mais antiga e tradicional corrida da América Latina o faz pelo prazer de completar a distância de 15 quilômetros. Já os profissionais, os atletas qualificados de elite, não mais do que cem corredores, lá estão para tentar uma posição de destaque. Esses atletas são extremamente preparados para enfrentar a principal adversidade da prova: o calor. O percurso. que tanto falam, é difícil, sem dúvida; mas não afeta a saúde dos participantes.

Temperatura alta, rendimento baixo – Segundo pesquisas realizadas pelo médico fisiologista Dr. Rogério José Neves, maratonista, medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Atenas com o futebol feminino, membro do Colégio

Americano de Medicina Esportiva e diretor do Sportslab (Laboratório de Performance Esportiva), que acompanhou a prova e estava no posto médico, afirmou: “o calor afeta o organismo dos corredores em situações extremas”.Quando está quente, o corpo luta para manter a temperatura corporal de 36,5 graus. A sobrecarga no coração e vasos sangüíneos podem causar taquicardia e outros problemas “. Os vasos sangüíneos se dilatam, e o coração fica mais acelerado para aumentar o fluxo sangüíneo. A evaporação do suor é eliminada do corpo através da pele. Em situações de umidade relativa do ar alta, esse processo é retardado. Se o suor não evapora, a temperatura corporal aumenta, “é como se estivéssemos correndo envolto por um saco plástico “, afirma o Dr. Rogério Neves. Quando o corpo está muito aquecido, o hipotálamo que é o termostato do corpo localizado no cérebro, dá o primeiro sinal de alerta. Se os líquidos perdidos com o suor não forem repostos de imediato, o corpo começa a se desidratar. Embora a organização da prova segue a risca no que diz respeito à regra internacional de ter postos de água a cada cinco quilômetros, não podemos esquecer que estamos em um país de clima tropical, onde as temperaturas em pleno verão chegam aos 40 graus.

O ideal é se hidratar a cada 15 minutos em corridas de longa duração, como foi apresentado recentemente no Colégio Americano de Medicina Esportiva, realizado em São Francisco nos Estados Unidos. Portanto, poderiam ser colocados postos de abastecimentos a cada três quilômetros.

Outra evidência de que o calor excessivo com temperaturas superiores aos 30 graus apresentado na Corrida de São Silvestre, relacionado com a umidade relativa do ar superior aos 70%, o Dr. Rogério Neves, diz que, “os exercícios tornam-se mais cansativos, ‘pode ocorrer exaustão, cãibra, ‘cansaço e fraqueza. Mas, o maior perigo é o risco de um colapso com sensação de sono, irritabilidade e perda de consciência.

Outro fato que demonstra bem o efeito negativo do calor e umidade relativa do ar, é o resultado dos atletas vencedores. A queniana Lydia Cheromey, que se sagrou tricampeã da prova com vitórias em 1999 e 2000 completou os 15 quilômetros em 53min01seg, seis minutos acima da sua melhor marca de 47min02seg, estabelecido na Holanda (em percurso plano) e temperatura abaixo dos 10 graus. Com o resultado deste ano, Cheromey seria a quarta colocada na São Silvestre de 2003. Já no masculino, não foi diferente, Robert Cheruiyot do Quênia que garantiu o bi-campeonato com 44min43seg , não passaria de um sétimo lugar na edição de 2003.

Wanderlei de Oliveira, 45, maratonista, é técnico de atletismo, participa da Corrida Internacional de São Silvestre desde 1978, foi o comentarista da prova masculina na TV Gazeta.

Este texto foi escrito por: Wandelei de Oliveira

Redação Webrun

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