Comrades: a saga brasileira na África do Sul

Adauto (terceiro da esq p/ dir). Prata inédita para o Brasil (foto: Sakamoto)
Adauto (terceiro da esq p/ dir). Prata inédita para o Brasil (foto: Sakamoto)

Todo ano acontece na África do Sul a mais tradicional ultramaratona do mundo, a Comrades Marathon. E a 79ª edição da prova, que aconteceu na última semana teve a presença de vários brasileiros. Conheça um pouco sobre a competição conhecida como a “Corridas dos Heróis”.

“Estou muito cansado” sussurou Márcio Milan, ao técnico Wanderlei de Oliveira, às 15 horas e 55 minutos do dia 16 de junho de 1997, logo após ter acabado de ter escrito seu nome na galeria de grandes feitos do atletismo brasileiro. Não era para menos. Milan, então com 48 anos, teve a honra de ser o primeiro brasileiro a completar a principal ultramaratona mundial, a Comrades Marathon.

A prova que acontece desde o ano de 1921 tem aproximadamente 90 quilômetros de extensão entre as cidades de Pietermaritzburg e Durban, e anualmente, seu percurso é invertido.

Disputada sempre no dia 16 de junho feriado nacional no país a competição leva multidões ao longo do percurso para aplaudir e incentivar os corredores. Tido como o principal evento esportivo da África do Sul, a premiação dos vencedores é feita por ninguem menos que o Presidente da República Sul Africana.

Concluir essa ultramaratona não é tarefa fácil. Seja qual for a direção da prova uma coisa é certa. Os atletas – que esse ano somaram a bagatela de mais de 12.000 concluintes (!) – enfrentam penosas subidas e descidas. “Tem trecho de subida de 4km que parece que nunca acaba”. revela José Adauto de Paiva, da equipe Branca Esportes, que tornou-se o primeiro atleta brasileiro a ganhar medalha de prata na prova.

Requesitos – “Paciência, humildade, determinação, fé e consciência corporal” são algumas das características fundamentais apontadas pelo técnico Vanderlei Carlos Severiano, o Professor Branca, como indispensáveis para ter êxito na prova.

O Prof. Branca é o técnico que mais levou atletas para disputar a competição, além dele próprio ter competido no ano de 1999. O técnico já orientou 14 atletas (com 18 participações), inclusive, Paulo de Almeida (atleta portador de necessidades especiais). A lista ainda trás, o saudoso atleta veterano (falecido recentemente) Gustave Busch (2 participações), Alfredo Donadio Filho (1), Charbel Bechara (1), Peter Daniel Strimber (1), Milton Mizumoto (2), Nelson Mizunoto (1), Celso “ Coelho” Abugão (1), José “Bem Hur” Gonçalves (1), Sebastião Costa Junior (1), Danilo Ferreira (1), José Adauto de Paiva (1), Noboru Sakamoto também com uma participação.

Hall of Fame – Marcio Milan que treina com Wanderlei de Oliveira e Paulo Renato do Amaral, o Nato, da equipe Branca Esportes, são os atletas brasileiros mais próximos de integrarem o prestigiado clube Hall of Fame.

O fechado clube é destinado a corredores que completaram a prova por 10 vezes. Milan já tem quatro medalhas enquanto Nato tem uma a menos. “Fazer parte deste clube significa respeito e reconhecimento”, sintetiza Nato, que já correu a prova nos dois sentidos, “up e down hll”. O atleta sabe que não é fácil. “Dificuldades temos que enfrentar e superar do inicio ao fim desta prova para vencer os 89Km dentro do tempo limite de 12 horas e conquistar a tão respeitada medalha”.

Querer é poder – O Prof. Branca evoluiu em termos de metodologia de treinamento utilizada nesta prova desde sua primeira participação em 1999. “Treinamento, repouso, musculação, alongamentos e nutrição são elementos básicos do programa preparatório para a prova, a esses itens outros foram inseridos. A grande mudança introduzida [na preparação] foi acrescentarmos treinos de caminhada e muitas reuniões e palestras” revela o técnico.

Outro fato que destaca é a união do grupo. “O trabalho em equipe é fundamental. Se não houver solidariedade, companheirismo é impossível obter êxito sozinho. Portanto só pode dar certo quando uma equipe é mais do que uma equipe, ou seja, uma grande família”, diz orgulhoso Branca, que já está pensando em sua sétima participação como técnico na “Rainha das Ultramaratonas”.

Leia mais nos links abaixo sobre a Comrades Marathon.

O ultramaratonista José Adauto Paiva, da equipe Branca Esportes, foi o primeiro brasileiro a chegar no fim da Comrades este ano com o tempo de 7:06:46. Um resultado que garantiu medalha de prata para o ultramaratonista brasileiro. O WebRun conversou com ele alguns dias depois da corrida. Confira:

Qual foi a maior emoção na Comrades?
Adauto: A chegada. É simplesmente emocionante cruzar a linha de chegada. Além disso, a participação do povo durante a corrida é incrível. Como é feriado nacional o país pára só para ver a corrida. Então durante o percurso a população te apóia. É engraçado porque famílias vão para a beira da estrada fazer churrasco e prestigiar a prova.

E quanto a medalha que você ganhou. Como foi?
Adauto: Eu fui o primeiro brasileiro a ganhar a medalha de prata da competição é uma emoção que não dá para descrever.

O que é mais difícil na prova?
Adauto: O mais difícil da prova foi a subida. Tem trecho de subida de 4km que parece que nunca acaba. Mas eu me preparei para isso e sabia que iria ser assim.

Como foi seu treinamento para a Comrades?
Adauto: Comecei a treinar para a Comrades em janeiro num projeto especial com o Branca (treinador pessoal). Para isso competi a maratona de Águas e de São Paulo. Também fiz treinos de 70km na região do circuito das águas que tem bastante descida e subida. E claro trabalhei meu lado emocional e fiz musculação.

Entenda como funciona o critério de distribuição de medalhas na Comrades Marathon:

A CMA organizanidora da Comrades Marathon instituiu no ano de 2003 uma nova medalha. Até então, conseguia ganhar medalha somente os atletas que conseguiam cobrir o difícil percurso no tempo-limite sub 11 horas (10:59:59).

Agora os corredores ganharam mais uma hora, podendo cobrir o percurso entre 11:00:00 e 11:59:59 e assim ganhar a nova medalha intitulada ”Vic Clapham”.

Vic Clapham – Foi um dos corredores fundadores da primeira edição da prova, que aconteceu em 24 de maio de 1921, quando ele e outros 33 amigos fizeram o difícil percurso pela primeira vez.

Com a ”Vic Clapham,” serão cinco os tipos de medalhas distribuídas, beneficiando principalmente os corredores mais lentos e veteranos.

Tipos de medalhas:

  • Medalha de Ouro – para os primeiros dez colocados no masculino e feminino;
  • Medalha de Prata – do 11° colocado até o tempo sub 7:30:00;
  • Bill Rowan (prata/bronze) – 7:30:00 até sub 9:00:00;
  • Medalha de Bronze – 9:00:00 até sub 11:00:00;
  • Vic Clapham (cobre) – 11:00:00 até sub 12:00:00.

Este texto foi escrito por: Harry Thomas Jr.

Redação Webrun

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