Corro por que te quero

Daniel e Cristiane: juntos dentro e fora das pistas (foto: Harry Thomas Jr  Arquivo WebRun)
Daniel e Cristiane: juntos dentro e fora das pistas (foto: Harry Thomas Jr Arquivo WebRun)

Esporte une casais tanto entre atletas amadores como de elite.

Fabiana Cristine da Silva, de 24 anos, é natural de Recife. Daniel Lopes Ferreira, 36 anos, é de Garanhuns. Esses dois corredores pernambucanos têm uma história curiosa. Se conheceram nas provas de rua e iniciaram o namoro, em 1994, durante uma competição de cross country na Hungria. E de forma romântica, às margens do Rio Danúbio. Os dois passaram a morar juntos em 1996, em Tremembé, interior de São Paulo, e hoje são companheiros na vida e no atletismo. Como Daniel e Fabiana, o atletismo uniu Marílson e Juliana, Diamantino e Marizete, Damião e Soninha, Waldir e Lizete, entre muitos outros. Casais que se conheceram na rotina dos treinamentos e das provas ou transformaram a atividade em uma motivação comum. Um relacionamento que se confunde na corrida e no amor.

É como casais que se conhecem porque trabalham no mesmo escritório ou fazem parte da mesma turma de amigos. Os grupos sociais favorecem os encontros. Desde que virou uma profissão, algo que se aprofundou na última década, a corrida de rua passou a ser também um ponto de encontro entre atletas, quase todos os finais de semana, em algum lugar do Estado, do País, do mundo. “Os atletas se conhecem nas competições, tem contato constante, o que facilita os relacionamentos”, afirma o técnico Ricardo D`Ângelo, da BM&F Atletismo, observando que a corrida é um evento social com muitos adeptos. “É uma paixão em comum entre muitas pessoas, amigos, familiares, casais. Vira uma mania, um ponto de convergência entre pessoas com o mesmo pensamento. Isso facilita as relações.”

O fundista Daniel concorda, tendo como base a relação com a mulher-corredora Fabiana. “Para mim não tem nada de ruim nessa relação. Nós treinamos juntos, trocamos muitas idéias sobre corridas. Ela é muito carinhosa…”, ressalta. Mas vem de Fabiana, tricampeã brasileira dos 5.000 metros e tetracampeã dos 1.500m, a melhor explicação para o casamento entre atletas ser bem-sucedido. “Um ajuda o outro. Temos horário para comer e descansar, estamos sempre viajando para treinar e competir. Atleta tem muita regra. Quem não vive essa realidade tem mais dificuldade para compreender.”

Nas pistas – O fundista Marílsom Gomes dos Santos, de 25 anos, e a corredora Juliana Paula Gomes dos Santos, de 19 anos, não poderiam ter vivido um ano mais feliz em 2002. Na mesma temporada em que Juliana ganhou a medalha de bronze, nos 800 metros, no Mundial Juvenil de Kingston, na Jamaica, Marílson fechou o ano como o segundo colocado, o melhor brasileiro, no pódio da importante Corrida Internacional de São Silvestre. E os dois se casaram.

Estavam juntos há quatro anos. Se conheceram nas competições de pista, em São Caetano do Sul são da mesma equipe, a BM&F (Marílson ainda tem o apoio do Pão de Açúcar). “Conversávamos nos treinos, nas provas e no alojamento”, relata o brasiliense Marílson. O casamento foi em novembro de 2002, mas os treinos e as importantes competições do fim de ano adiaram a lua-de-mel. “Só tivemos um tempo após a corrida de São Fernando, no Uruguai (em janeiro)”, comenta Marílson.

Na folga, o casal, que mora em Santo André, no ABC paulista, gosta de passear no shopping e de viajar para a praia. No dia-a-dia, as conversas sobre atletismo dentro de casa são quase nulas. “Treinamos, descansamos, almoçamos e fazemos várias coisas juntos. Temos de esquecer um pouco o atletismo para não ficar monótono.” Mas nas concentrações, antes das corridas, o assunto vem à tona. “Procuramos passar o que sabemos um para o outro. O incentivo, através do pensamento positivo, também ajuda.”

Para Marílson, o relacionamento e a profissão se misturam no romance do casal-atleta. “Além de termos horários semelhantes de treinos e folgas, entendemos a vida um do outro. Existem competições que eu corro e a Juliana não. Casar com atleta foi algo do destino e do amor, mas facilita.” Quando o casal se separa por causa das competições, a saudade é amenizada com as ligações telefônicas. “Quando a Juliana estava na Jamaica, para o Mundial, me ligava todos os dias. Eu também acompanhava as notícias pela internet”, comenta Marílson.

Apesar de ser o brasileiro mais bem colocado pela segunda vez na São Silvestre, o especialista em meia maratona resolveu mudar de distância no início deste ano e passou a treinar para tentar obter índice para ir aos Jogos Pan-Americanos correndo a maratona.

Mas como somente o primeiro colocado no ranking brasileiro e o vencedor da Maratona de São Paulo terão vaga assegurada, Marílson decidiu competir os 10 mil metros em pista seu melhor tempo é de 28min32 e precisa ser 9 segundos mais rápido para conquistar o índice. “Somente em 2004 vou treinar para a maratona.” Juliana vai trabalhar para obter índice nos 800m e 1.500m. “Só vou desistir quando ver o pessoal embarcando para São Domingos, na República Dominicana”, brinca. Juliana tem o título nos 800 e 1.500 metros do Campeonato Sul-Americano de Atletismo da Argentina, em 2001, além de ser campeã brasileira juvenil nas duas distâncias, no mesmo ano.

Evidência – Tanto quanto Marílson e Juliana, outro casal que ganhou evidência no atletismo no fim da temporada de 2002 foi Diamantino dos Santos e Marizete Rezende, a vencedora da prova feminina da São Silvestre. O casal apareceu pela primeira vez na Maratona de São Paulo, em 2001. Marizete ia “dar uma força” ao marido na prova. Diamantino acabou desistindo no meio, mas viu a mulher cruzar a linha de chegada em primeiro. Desta vez, novamente como marido-treinador e após um trabalho específico do casal para a corrida, Diamantino ajudou Marizete a ser a campeã da São Silvestre.

Os dois estão juntos há quatro anos e, atualmente, moram em Araraquara, no interior paulista, com o filho de Diamantino, Gregory, de 13 anos, que é meia-direita do time da Ferroviária Marizete torce para o garoto jogar no Corinthians. O casal compete pela Fundesport/Araraquara, entidade da Prefeitura patrocinada pelo empresa de ônibus CTA.

Em uma rotina formada por treino, alimentação, descanso, treino e competições, ter alguém ao lado evita a solidão e ajuda a encarar o desafio, observa a goiana Marizete. “Acho que o melhor é o fato de o Diamantino poder passar a experiência que tem com as corridas para mim”, acentua Marizete, que também divide com o marido os afazeres domésticos. A atleta acha que pode tentar índice para ir à maratona dos Jogos Pan-Americanos de São Domingos. “A melhor marca dela foi feita em Porto Alegre, em 2001, mas acho que esse é um tempo que a Marizete ainda pode melhorar trabalhando”, aposta Diamantino. Se a mulher conseguir índice, os dois podem seguir para a casa da irmã de Diamantino, na Suíça, visando desenvolver um treinamento especial na Europa.

Por acaso – Outro casal que convive junto nas competições e no amor é Damião Maciel da Silva e Sônia Maria Rodrigues da Silva, ambos de 40 anos. O romance entre os dois foi por acaso. Durante um treino no Parque do Piqueri, em São Paulo, o casal trocou olhares, o que ‘balançou’ Damião. Encontraram-se novamente no Corinthians, onde Soninha treinava e, a partir dali, começaram a conversar com freqüência, a namorar e sete meses depois estavam morando juntos. O casamento ocorreu 13 anos mais tarde.

O casal, que mora em Guarulhos (SP), está junto há 17 anos e tem muitas histórias ligadas às corridas. “Numa São Silvestre, completei a prova feminina e desci novamente a Brigadeiro Luís Antônio para incentivá-lo na chegada da masculina. Gritei bastante e levei água para ajudar”, conta Soninha. Tanto carinho e afeto são traduzidos na maneira romântica como se tratam. “Nos chamamos de gatinha e gatinho”, revela a paulistana.

Numa corrida em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, foi a vez do paraibano Damião abandonar o pelotão da frente a um quilômetro da chegada, quando percebeu que “alguma coisa estranha” estava acontecendo com a mulher. “Quando a encontrei, desmaiou nos meus braços (Soninha teve hipoglicemia).”

O atletismo não fica fora das conversas em casa. Nos horários de descanso, o casal gosta de praticar outra habilidade da dupla, a massagem, importante para a recuperação física. Damião e Soninha são massagistas. “Trabalhamos em várias corridas e também em competições de ciclismo e triathlon.”

Especialista em corridas de 10 e 15 quilômetros, além da meia maratona, Damião tem uma carreira de sucesso. Foi 9º colocado na São Silvestre de 1987 e 7ª em 1988. Participou de competições importantes como a meia maratona de Lisboa (Portugal) e do Mundial de Cross Country, em Auckland (Nova Zelândia). Este ano, vai correr a Volta da Pampulha ou a Meia Maratona do Rio e a São Silvestre, mais provas no interior.

Soninha ficou os últimos dois anos sem treinar. Agora quer recuperar a boa condição. Corredora dos 10, 15 e 20 quilômetros, acredita no seu potencial. “Estou voltando com paciência. Bem treinada e com apoio dos patrocinadores, poderei estar no pódio da São Silvestre no fim do ano.”

Em família – As corridas não facilitam as relações sociais apenas entre os atletas de elite. As provas de rua também unem anônimos, como os comerciantes Waldir Varga, de 52 anos, e sua mulher, Lizete, de 48 anos. Dono de uma banca de jornal na Avenida Paulista, em São Paulo, Waldir tentou “malhar” em academia, mas não gostava. Após uma dieta para perder 14 quilos e diante da necessidade de fazer alguma atividade física, adotou a corrida. Primeiro, saiu correndo por conta própria, sem controle cardíaco ou professor. Fez uma prova de 6 quilômetros e na sequência correu a São Silvestre. Se empolgou. Procurou o técnico Nélson Evêncio e passou a treinar há dois anos desde então fez três maratonas, duas de São Paulo e uma de Chicago (EUA).

Lizete passou a correr por influência de Waldir. “Eu acompanhava meu marido nos treinos. No início fazia caminhadas, mas depois passei a correr. Ainda tive de parar por um tempo, por causa de um problema no joelho esquerdo, que acho que foi causado por um tênis errado que eu estava usando. Corrigi e passei a treinar com o professor Nélson Evêncio há 1,5 ano.”

Na Maratona de Revezamento Pão de Açúcar de 2002, além de marido e mulher, a equipe de quatro pessoas teve a presença dos dois filhos do casal, Eduardo, de 26 anos, e Paula, de 22. “É um prazer em família. A corrida dá satisfação pessoal porque alia condicionamento físico a melhoria da qualidade de vida”, observa Lizete. Quanto ao casal, observou que ela e Waldir sempre foram muito unidos, mesmo antes da adesão à corrida. “Mas acho que isso nos aproximou ainda mais. Hoje, além de tudo, conversamos sobre os treinos, as provas, vamos juntos para o Ibirapuera. A corrida é um assunto constante na família.”

Este texto foi escrito por: Heleni Felippe – especial para Revista SuperAção

Redação Webrun

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