Djibuti e Ahmed Saleh

Espremido entre a Etiópia e o mar fica um país pequeno chamado Djibuti. Foi colônia francesa até 1977 e tem apenas 23.000 km². Fica próximo ao Quênia e Tanzania, todos países com tradição nas corridas de fundo e maratonas. E por que falar em Djibuti, país que poucos ouviram falar?

Simplesmente porque, nos anos 80, um técnico francês chamado Jacky Fournier tirou este pequeno e desconhecido país do anonimato, pelo menos no mundo esportivo.
O clima do país é exageradamente quente, de condições inóspitas, árido, seco e não tem muito a se fazer como atividade, assim, como outros países da região, as corridas são a melhor maneira de se alcançar ascensão social.

Um dia, Ahmed Saleh, aos 24 anos, ingressou numa prova cujo prêmio era uma cabra. Venceu com facilidade e foi incorporado às forças armadas, onde poderia se dedicar às corridas. Era com homens assim que Fournier trabalharia, levando-os a Paris. E lá foram Ahmed Saleh, Djama Robleh e Charmake. Com um treinamento adequado, apesar de terem que se acostumar ao frio e à neve, que desconheciam, participaram do 1º Campeonato do Mundo de Atletismo em 1983, em Helsinki. Acabou sendo frustrante. Saleh, impetuoso, não sabia correr em pelotão e o fez sempre em zigue-zague se desgastando para acabar caindo e fraturado a tíbia.

Recuperado, Saleh foi à forra e venceu a Maratona de Paris em 2h11min58, enquanto seu compatriota Robleh vencia a Maratona de Lyon, com 2h11min25, onde Saleh foi segundo, com 2h12min34. Foram duas maratonas em quatro semanas, o que acabou prejudicando o desempenho na maratona de Los Angeles, onde terminou em 20º, com 2h15min59, enquanto Robleh obteve um honroso 8º lugar, com 2h11min39 numa maratona olímpica que reuniu grandes nomes do atletismo mundial como Carlos Lopes, John Tracy, Rob de Castela e outros mais.

Saleh era ambicioso e queria mostrar sempre que era o melhor, enquanto Robleh seguia exatamente o planejamento do técnico. Saleh, às vezes, fugia do planejado para exagerar nos treinos, pagando o preço por isso. Mas a lição de Los Angeles foi positiva e deu a volta por cima em Hiroshima, onde estava sendo realizada a 1ª Copa do Mundo de Maratonas. Saleh marcou 2h08min09 a apenas 4 segundos do recorde mundial e seu compatriota Robleh fez 2h08min26, enquanto o inesperado Charmake fechou a equipe com 2h10min33, colocando o nome e a bandeira de Djibuti no lugar mais alto do pódio, não só na vitória individual de Saleh como por equipes.

Djibuti, assim, ficou definitivamente conhecida, pelo menos no atletismo mundial. Estes três atletas viraram heróis nacionais, com direito a assédio de diversas formas. Fournier, que os havia descoberto e revelado ao mundo, passou a ter dificuldades de controlá-los. Logo a seguir, Saleh foi à Maratona de Nova York e escapou do pelotão como um bólido disposto a bater a melhor marca mundial sem levar em conta as dificuldades do percurso.
Pagou o preço por siso. Extenuado, acabou surpreendido, no final, pelo italiano Pissolato.
O mesmo aconteceu em Chicago no ano seguinte, com o japonês Toshiniko Seko. Depois Saleh voltou a vencer, em Paris, em 1986.

Da força de Djibuti restava Saleh, que acreditava apenas nele, uma vez que Robleh estava sempre lesionado.

Em 1987, no mundial de Roma, Saleh estava seguro de que ganharia e acabou surpreendido pelo queniano radicado no Japão, Douglas Wakiihuri. O queniano marcou 2h11min48 e Saleh 2h12min30, mas, ainda assim, derrotou grandes nomes como Gelindo Bordin, Steve Moneghetti e Hugh Jones. Neste ano, Saleh venceu a Copa do Mundo de Maratona, em Seul, com 2h10min52.

Em 1988, nos Jogos Olímpicos de Seul, novamente se defrontaram Bordin, Waiikhuri e Saleh. Desta vez Saleh ficou em terceiro, com 2h10min59, enquanto Bordin venceu com 2h10min32. Saleh estava muito confiante em sua vitória, não só pela conquista na Copa do Mundo no mesmo percurso, em 1987, como porque havia corrido 2h07min07 em Rotterdan. Uma vez mais Saleh pagou por ter feito pouco dos seus e se isolado na liderança, sendo alcançado apenas na parte final da prova de Seul.

Depois dos Jogos de Seul, o grande feito de Saleh foi a segunda colocação obtida no mundial de Tóquio, em 1991, com 2h15min26. Em 2002, Ahmed Saleh criou o Centro de Formação e Desenvolvimento do Atletismo no Djibuti. Esta é a história de um homem que fez seu pequeno país ser conhecido mundialmente.

Este texto foi escrito por: Sergio Coutinho Nogueira

Redação Webrun

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