Hudson de Souza: feliz e insatisfeito

Hudson de Souza curte o bom momento após a conquista histórica no Pan-Americano, mas trabalha muito para brigar por medalhas em Atenas.

As distâncias percorridas por Hudson Santos de Souza, do início da carreira na pista de concreto, em Brasília, até os dias de hoje, foram bem maiores e mais difíceis que enfrentar incansáveis africanos nos 1.500 metros, prova que é sua especialidade. Dono de duas medalhas de ouro nos Jogos Pan-Americanos, em Santo Domingo, na República Dominicana, se tornou o primeiro atleta da história a chegar ao lugar mais alto do pódio nos 1.500 e 5.000 metros na competição continental. Feliz, sim. Satisfeito, não. Força de vontade é o que não falta ao atleta de 26 anos, que espera não só marcar presença, como fazer bonito na próxima Olimpíada, na Grécia em 2004. “Tenho determinação desde pequeno. Quando quero fazer uma coisa, vou até o fim.” E é com esse pensamento que o atleta se prepara para uma verdadeira bateria de treinamentos e viagens na busca da tão sonhada medalha olímpica.

Em novembro, Hudson desembarca em Cochabamba, na Bolívia, para mais de um mês de treinamento na altitude. Em 2004, vai participar do Mundial Indoor, na Europa, em fevereiro, e logo depois segue para uma temporada de treinos nos Estados Unidos. Serão mais de 25 provas antes da Olimpíada. “Meu objetivo maior agora é correr atrás do índice.” Para carimbar o passaporte para Atenas, o brasiliense precisa correr os 1.500m abaixo de 3min35, tempo do índice A da IAAF (Associação das Federações Internacionais de Atletismo). Neste ano, ele vem correndo na faixa de 3min36, fato que não o assusta, uma vez que tem como melhor marca 3min33.

Com os pés no chão, Hudson sabe que não vai ter moleza na temporada 2004. Com o destaque pela dupla conquista na República Dominicana, as cobranças por resultados tendem a aumentar. “O pessoal acha que o Pan-Americano é uma Olimpíada, mas não se lembram que faltam quatro continentes, e são esses que atrapalham. Os atletas da Europa e o África são os que mais dificultam no atletismo”, explica. “Os africanos são um calo no pé de quem faz atletismo”, brinca.
Mas nem sempre a briga de Hudson foi por tempo nos 1.500 metros. Ele começou no salto em altura, quando tinha 14 anos. Mas o grande diferencial na carreira ocorreu pelo incentivo dos pais. Já competindo, sentia na pele as dificuldades da falta de dinheiro para comprar tênis e bancar viagens. Não tinha dinheiro para nada. Pensou em trabalhar, mas os pais impediram, dizendo que deveria continuar no atletismo, pois seria um grande atleta para o Brasil. “Meus pais acreditaram mais em mim do que eu mesmo. Ainda falei que queria trabalhar, e eles disseram: ‘não, não e não. Fique fazendo o esporte que é bem melhor pra você’. Pô, eu até chorei. Chorei pra caramba”, conta, emocionado. Com quase 16 anos, ele iria pegar a vaga de “boy” que era do irmão na Caixa Econômica Federal, empresa que hoje é sua patrocinadora.

Motivado a continuar no atletismo, permaneceu no salto em altura por um ano e meio até passar a treinar com João Sena. Com Sena, mudou de prova. Começou a correr os 800m e 1.500m. “Nessa época, quando o atleta é juvenil, o cara vai mais pela distância, quer correr bem menos”, lembra ele, referindo-se as provas de fundo. Suas primeiras importantes conquistas vieram aos 17 anos, quando o treinador já era outro: Adauto Domingues. Morando em São Paulo, longe da família, Hudson foi incorporando os 1.500 metros e começou a obter as conquistas que hoje o consagram. Logo estabeleceu o recorde juvenil sul-americano para a distância e ficou com o terceiro lugar no Pan-Americano da categoria. Após dois anos treinando com Domingues, foi para as mãos de Luiz Alberto de Oliveira, ex-técnico do campeão olímpico Joaquim Cruz, com quem está até hoje.

A fama nacional após os Jogos Pan-Americanos ainda é novidade na vida do atleta. Tanto, que tenta se acostumar com o assédio, a curiosidades das pessoas e a rotina de autógrafos em qualquer lugar que vá. “Está muito recente, mas é uma coisa muito gostosa. Receber o carinho do público desse jeito é bem legal”, explica.

Família – Muito apegado a família, Hudson lembra do carinho da mãe, que procurava sempre acompanhar os passos do filho. “Minha mãe era minha fã número um. Tinha as gravações, fotos, tudinho”, lembre o atleta, com saudades.
Protetor, recentemente trouxe o irmão mais novo para morar com ele, em Presidente Prudente. “Meu pai e meu outro irmão trabalham e minha irmã fica um bom tempo na escola. Ele ficava sozinho em casa e tinha alguns amigos que não eram ‘boa pinta’. Poderiam acabar influenciando na vida dele”, relata. Diego, hoje com 17 anos, também treina e, segundo o irmão coruja, promete muito. “Ele está treinando 400m com barreiras. Daqui há três anos vai ser um grande atleta. O moleque é mais talento que eu.
Corre bem mais fácil e tem a passada mais larga”, completa.

Influenciado pelos treinos cansativos são dois perídos por dia, sendo que descança apenas uma vez por mês Hudson não tem uma vida muito agitada fora das pistas. Ele se define como um cara tranquilo, que gosta muito do aconchego do lar. “Não gosto muito de balada. Curto mais ir ao shopping, sair para jantar, ir ao cinema. Também gosto de ir nos parques”, detalha.

Consciente de que o atletismo não é para sempre, planeja completar os estudos. “Estou querendo cursar Educação Física ano que vem, mas não sei se vai dar. Vou me dedicar mais à Olímpiada e deixar para o outro ano, mas é bem importante terminar os estudos”, completa.

Este texto foi escrito por: Fernando Evans

Redação Webrun

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