Listas de um corredor

Caetano começou a treinar depois de D. Mitiko  72  (foto) deixou-o comendo poeira em várias oportunidades (foto: André Chaco)
Caetano começou a treinar depois de D. Mitiko 72 (foto) deixou-o comendo poeira em várias oportunidades (foto: André Chaco)

O início do ano é, sabidamente, a melhor época para se fazer listas. Como minha principal meta física, psicológica, espiritual e moral para o ano de 2004 é completar os 42 km de uma maratona em Atenas ou em Nova York decidi fazer minhas listas com assuntos relacionados à corrida. Coisas que amo e outras que eu odeio. Como sei que o ser humano sempre prefere meter o malho a elogiar, começarei pela lista das coisas ruins.

Dez coisas que eu odeio na corrida

1) Madames tranca-rua São assim chamadas aquelas peruas ou plínios de meia-idade que preferem fazer suas caminhadas em grupos de quatro ou cinco. É claro que, para conversar, é melhor que todas caminhem lado-a-lado, mesmo que isso interdite completamente a passagem dos pobres corredores que decidem utilizar a pista de Cooper. Passo por elas várias vezes e escuto seus comentários, sempre aos berros. Os assuntos seguem mais ou menos este roteiro: enfermidades diversas no Km 1; compras no exterior no Km 2; fofocas hediondas sobre as amigas mais magras no Km 3; plástica e botox no Km 4; e as últimas da revista Caras no Km 5. Aí elas param, porque preparo físico de perua só aparece quando elas estão num outlet dos Estados Unidos.

2) Personal dogs Não tenho nada contra o sujeito que quer ser personal trainer do próprio cachorro (se bem que, muitas vezes, o cão é que parece estar treinando o dono), desde que ele tome as seguintes providências: pit-bull e correlatas, só com focinheira, sendo que os donos dessas bestas pavorosas também poderiam usar o artefato; nada de deixar o bicho sacudir a baba e emporcalhar o nosso tênis novinho com aquela coisa pegajosa; e, por favor, nada de coleira estilo carretel, que obriga os infelizes corredores a combinar as habilidades de fundista e pulador de corda se não quiserem cair de cara no chão.

3) Escarradores Já que falamos da baba canina, existe coisa pior do que aquele camarada que espirra gritando ‘Vasssssssssco!’, puxa o catarro das entranhas, regurgita o dito cujo, vira a cara… e larga uma grossa escarrada para trás, sem ver quem está vindo? Já tive que dar alguns saltos mortais para me livrar dos disparos desses infelizes. Tá encatarrado? Melhor ficar em casa.

4) Corredores orgásmicos Tudo bem que correr é uma delícia. Mas será que é tão bom assim? Será que precisa gemer e gritar tanto? Você vai correndo tranqüilamente pela pista até que, de repente: ‘Arrrrrrgh!’, ‘Unnnnnngh!’, ‘Arrrrrrrfff!’, ‘Aaaaaaaimeujesus!’. É assustador! E ainda tem aqueles gritos mais pornográficos: ‘Poooorracaraaaalho!’, ‘Aaaaiputaqueospariu!’, ‘Ahhhhputameeeerda!’, além de várias modalidades de gemidos eróticos. Eu hein… Será que o shortinho de corrida desses corredores tá tão cravado assim?

5) Marombeiros Esses são terríveis. Vivem na academia, se entupindo de bombas e puxando ferros. Têm fôlego de tuberculoso, mas, quando passam por você, fazem uma insuportável cara de superioridade quando não dão uma piscadela e um sorrisinho triunfal. O que os trogloditas do açaí não sabem é que, muitas vezes, aquele magrelo que eles acabaram de ultrapassar está no 17º quilômetro de uma corrida de 20, enquanto eles estão nos primeiros 300 metros de sua corrida diária de… 800 metros.

6) Mamãe, tô na Globo! Como são malas os caras que nunca treinam e, quando chega o dia de uma prova importante, aparecem vestidos de Chapolín Colorado, de Barbie, de caravela, de exu caveira e ficam pulando na frente das câmeras, segurando faixas e cartazes e atrapalhando o desenrolar da corrida.

7) Ciclistas Desculpem, mas, assim como quem tem barco à vela detesta quem possui barco motorizado, os corredores não são muito amigos dos ciclistas. Primeiro porque eles passam ventando pelas nossas orelhas; depois porque nossa classe já sofreu incontáveis baixas por atropelamentos; e por último porque eles realmente se acham membros de uma elite – mesmo já tendo aprendido que, no triatlo, quem corre mais ganha mole de quem nada ou pedala melhor. Hehehe. Gostaram dessa, pedaladores?

8) Torcedores sacanas Quilômetro 18 de uma meia maratona, você estouradaço, tentando encontrar forças para as últimas ladeiras… e um palhaço grita: ‘Aê, mané, a queniana já chegou faz meia hora’. Pensamos em tacar o tênis, cheio de chulé, nas fuças do infeliz. Acha fácil? Vem correr. Mas a gente respira fundo e segue em frente.

9) Ixpicialixtax Não importa o esporte que você pratique. Haverá sempre um especialista de plantão, sem qualquer experiência no assunto, mas, ainda assim, disposto a te dar uma aulinha. Gente que pergunta quantos quilômetros tinha a maratona que você correu, apesar de ainda não ter sido inventada uma maratona diferente daquela da antiguidade, com 42 km e uns quebrados. Ou então que insiste em saber em que posição nós chegamos, como se fôssemos o Paul Tergat. ‘Logo atrás da sua mãe’, dá vontade de responder.

10) Ladeiras Não há como gostar delas. Ainda que tentar, como diz o amigo Alberto Banach, ajuda bastante. Correr bem nas ladeiras é algo invejável. Gostar delas, é grave desvio de caráter. Recomendo tratamento psicológico urgente aos que pensam assim.

Bem, agora vamos às recompensas daqueles que suportam as dez pragas da lista anterior. As compensações são enormes e valem a pena.

Dez coisas que eu amo na corrida

1) Solidariedade Não importa em que lugar do mundo você esteja. Sempre que estiver correndo e passar por um outro corredor, você receberá um gesto ou uma saudação de incentivo. Uma piscadela, um paz-e-amor, um papo-firme. Formas semelhantes de dizer: ‘Estamos juntos no mesmo desafio, siga em frente’. Não importa se você é um iniciante e o outro é um corredor de ponta. O respeito mútuo sempre existirá. E nem falar da reta de chegada das provas no Brasil, onde sempre encontramos uma multidão de amigos os que não correram e os que já terminaram a prova gritando os nossos nomes.

2) Disposição Após o treino duro, a missão diária parece cumprida já no início da manhã. O resto é mera conseqüência. Não há reunião, prazo apertado ou chefe ranzinza que pareçam difíceis depois de 10 km de asfalto a pé.

3) Saúde Há uma coisa que, na minha opinião, faz com que o humor dos corredores seja sempre excelente: a certeza de que viverão mais. Muita gente prefere crer que vai viver bastante como uma espécie de auto-ajuda, de pensamento positivo, de simpatia. No caso dos corredores, não é nada disso. É estatística. Eles viverão mais mesmo. E melhor.

4) Gastronomia Poder comer como uma besta e não engordar. O que mais podemos exigir de um esporte? Imagine que os corredores se entopem de carboidratos nos dias que antecedem uma prova. A lasanha farta é mais do que inofensiva: é recomendável! Até carboidrato em forma de gel a gente engole durante as corridas. Correr dá trabalho, mas garanto que não é pior do que beber um refrigerante diet e passar o dia à base de saladinhas.

5) A atmosfera das provas Só quem correu uma São Silvestre, uma Meia Maratona do Rio, uma Maratona de Nova York, Chicago ou Paris para saber o que é a atmosfera de uma prova com dezenas de milhares de participantes. Certa vez um maratonista experiente descreveu assim a passagem na 1ª Avenida, na Maratona de Nova York: ‘Oitocentas mil pessoas te aplaudindo. É como se você estivesse dentro de um filme’.

6) Gente bonita Como canta o Belle & Sebastian, grupo de folk-rock escocês: ‘Stars of track and field you are beautiful people’. O que não falta é gente bonita nas corridas. Gente bronzeada e saudável, sem aquele pavoroso verde-escritório. A Daniella Cicarelli, por exemplo, já até me cumprimenta quando nos cruzamos no Parque do Ibirapuera. No bom sentido, claro, já que não estou com essa bola toda e a bela corre sempre acompanhada do namorado parrudo.

7) Ar livre Os adeptos das academias que me desculpem, mas uma paisagem é fundamental. Correr sem o vento batendo na cara não tem a menor graça.

8) Custo Bom, bonito e barato. Com um par de tênis, um par de meias e um short (e uma miniblusa, para as mulheres que, digamos, não estejam dispostas a chamar atenção) é possível correr em qualquer canto do planeta. O Wanderlei de Oliveira, meu treinador, já correu até no aeroporto de Miami. Imaginem a cena. Isso foi na era pré-Bush, claro. Se alguém correr hoje por lá leva chumbo na mesma hora ainda que jamais tenha ouvido falar de um terrorista corredor.

9) Vencer a si próprio Competir contra você mesmo, contra suas próprias marcas e limites, é delicioso. Sem contar que o único adversário que você pode realmente vencer sempre que quiser é você mesmo. É incrível constatar que muitas pessoas conseguem as melhores marcas de suas vidas depois dos 60 anos. Cá entre nós, que outra coisa você consegue fazer aos 60 melhor do que aos 20? Dormir, talvez.

10) Endorfina Se disserem que é droga e vicia, acredite. Vicia mesmo. Mas é uma droga do bem, produzida pelo seu próprio organismo durante o esforço atlético. Uma substância que te deixa extremamente satisfeito depois de uma corrida, por mais difícil que ela tenha sido. Isso nos ensina que nem tudo que dá barato é necessariamente ilegal. Sexo, por exemplo.

* Marcos Caetano é jornalista e corredor da equipe Run for Life

PS.:

Este texto foi escrito por: Marcos Caetano *

Redação Webrun

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