Nada acontece por acaso

Todos os meses medito muito sobre qual o tema ou personagem que deverei abordar nesta coluna e, coincidentemente, neste momento de reflexão se realizava a Copa Brasil e Sul-Americano de Cross Country. Mergulhei nas lembranças dos anos 90, quando tínhamos um eficiente Calendário Brasileiro de Cross e, na mesma época, acumulamos inúmeras vitórias e feitos nas provas de fundo junto ao atletismo internacional.

Como dizem alguns, os fatos e feitos históricos estão aí para serem lidos e estudados, pois a história se repete, às vezes, deslocada no tempo e se manifestando de forma diversa. Lemos nas biografias de grandes estadistas e generais que suas leituras preferidas eram sobre a vida e obra de grandes personagens da história, nos quais se inspiravam.

Lembro-me que nos anos 90, quando era diretor de Cross da Confederação Brasileira, realizamos inúmeros eventos. Eram circuitos com etapas no Rio, Belo Horizonte, Crissiuma, São Paulo e, sobretudo, no eixo Cosmópolis(5 vezes), Artur Nogueira (4 vezes) e Mogi Guaçu (3 vezes), pois, além do apoio recebido pelas cidades do interior paulista, como eram tempos de vacas magras nos cofres da CBAt, a realização dos Circuitos àquela época dependiam de uma grande dose de esforço e contribuição nossa, o que ficava mais fácil na região de Campinas, onde eu residia.

Neste ano de 2004, o Brasil teve um desempenho sofrível no Sul-Americano de Cross, perdendo para Equador, no masculino, e Argentina, no feminino adultos, únicas categorias nas quais haviam equipes estrangeiras competindo.

E tudo isso em prova realizada em nosso próprio País. Não vamos jogar a responsabilidade nos atletas e, sim, fazer como os grandes Homens da história e estudar os feitos do passado para vermos o que podemos fazer e os bons exemplos que devemos seguir.

Na década de 90, o nosso Circuito Nacional de Cross e Copa Brasil contavam com a participação de TODOS os nossos melhores atletas e víamos na mesma prova atletas como José João da Silva, Arthur de Freitas Castro (indiscutivelmente um especialista na prova), Valdenor dos Santos, Vanderlei Cordeiro de Lima, Elenilson Silva, Delmir dos Santos, Daniel Lopes Ferreira, Adalberto Garcia, Emerson Iser Bem, Ronaldo da Costa, Jonhny Pazin, Diamantino Silveira, Luís Antônio dos Santos, Adauto Domingues,Wander Moura, Benedito Donizete, José Telles, Clodoaldo do Carmo, João Alves de Souza (Passarinho), Leonardo Guedes, Eduardo do Nascimento, entre outros.

As provas eram belíssimas, com publico se locomovendo de São Paulo para assistir. Os resultados eram imprevisíveis, dado o alto nível da disputa, o equilíbrio, o treinamento dos atletas, específico para a temporada de Cross. E era comum vermos atletas do quilate de um Delmir dos Santos, Vanderlei Cordeiro, Valdenor dos Santos, Luís Antonio dos Santos e outros não conseguirem a sonhada vaga para compor a seleção nacional que representaria o País no Mundial de Cross. Devemos o sucesso daquelas provas aos técnicos que acreditavam no Cross como importante para o treinamento dos seus atletas e consequente desempenho dos mesmos em outras provas da temporada, como o saudoso Asdrúbal Batista, Carlos Ventura, Ricardo D’Angelo, Henrique Viana, Humberto Garcia, Marco Antonio Oliveira e José Luís Marques. Havia até entre eles uma saudável disputa para saber quem teria o maior número de atletas e teria a honra de ser o técnico da Seleção Brasileira no Mundial. Era fundamental o apoio que os clubes davam aos atletas e à temporada de Cross, como Funilense, Eletropaulo, Arpoador, São Paulo F.C. e o SESI, assim como o apoio de alguns lunáticos ou realistas (entre os quais me incluo) que acreditavam na importância do Cross para os atletas do País. Lembro que a Funilense, da qual era o responsável, para aumentar a temporada de Cross de seus atletas, levou às suas expensas durante 3 anos atletas para o famoso Cross de Cinqui Mulini, em SanVitório Olona, na Itália, e em outros 6 levou a equipe para atuar como convidada na Taça Européia de Clubes Campeões de Cross e ainda participar de outras provas como o Cross das Amendoeiras, em Portugal, e o de Cáceres, na Espanha.

Lembramos ainda que, em dezembro de 1992, graças ao esforço da CBAt e meu, encaramos o desafio e realizamos uma etapa do Circuito Mundial de Cross em São Paulo, no belo Jockey Clube, e que foi gravado pela TV Jockey e exibido no dia seguinte pela TV Bandeirantes em programa de 1 hora de duração em pleno horário nobre e que teve a participação de atletas de mais de 15 países e alguns atletas de destaque da época, como a portuguesa Albertina Dias, Tegla Lorupe, Simom Chemoyo, entre outros.

Se analisarmos o que os atletas brasileiros conquistaram na década de 90, veremos que ganhamos uma medalha de bronze na Copa do Mundo de Maratonas por equipes, em 1997, em Atenas, recorde mundial de Ronaldo da Costa, que também foi medalha de bronze no Mundial de Meia, em 1994, medalha de prata no Mundial de Revezamento em Estrada, em 1996, medalha de bronze no Mundial de Revezamento em Estrada, em 1998, medalha de bronze na Maratona no Mundial de 1995 com Luís Antonio dos Santos e medalha de bronze por equipes no Mundial de Meia Maratona de 1992. Sem esquecermos que os campeões da São Silvestre da década de 90, Ronaldo da Costa e Emerson Iser Bem participavam das temporadas de cross à época, especialmente Iser Bem, que viajava sempre com a delegação da Funilense aos campeonatos europeus, tendo vencido, inclusive, o Cross das Amendoeiras, uma das etapas do Circuito Mundial de Cross. E o Marílson Gomes dos Santos, campeão da São Silvestre de 2003, assim como o Rômulo Wagner, o vice, sempre participaram dos circuitos de cross na década de 90, de mundiais juvenis de cross, além de participação pela Funilense em provas na Europa.

Nada acontece por acaso e a história deve ser sempre trazida à memória e aproveitada em seus exemplos de sucesso

Apenas para confirmar a importância do treinamento e participação em corridas de cross para a melhora no desempenho de atletas nas demais provas, vamos lembrar alguns nomes (apenas alguns, pois se colocássemos todos certamente esgotaríamos a coluna apenas com a menção dos mesmos) de atletas estrangeiros que venceram maratonas, ganharam medalhas olímpicas e triunfaram em mundiais de pista que tenham tido ou ainda tenham participação ativa em cross: Paul Tergat, Carlos Lopes, Ingrid Kristiansen, Grete Waitz, Rosa Mota, Paula Radclife, Haile Gebrselassie, Adis Abebe, Domingos Castro, Deratu Tulu, Khalid Skah,, Liz MacColgan, Lynn Jennings,, Berhane Adere, Martin Fizz, Fernanda Ribeiro, Keninisa Bekele, John Ngugi, Abel Anton, Hendrick Ramaala, Zola Budd, Elana Mayer entre outros. Aliás, de uma relação de mais de 100 atletas de sucesso internacional que pesquisei, encontrei apenas dois sem participações em cross, o sul-africano John Tugwane (medalha de ouro na maratona olímpica de 1996, em Atlanta) e o maratonista marroquino (hoje naturalizado norte-americano) Khalid Kannouchi. Mas como ambos são de origem africana, é provável que tenham também participado, mas não posso confirmar, pois não encontrei menção em minhas fontes de consulta.

Sei que alguns argumentarão que o cross na Europa, onde foi lançado no século 19, é corrido em clima frio e muitas vezes com neve e não combina com o nosso clima tropical. Meia verdade, pois na década de 90, quando realizávamos com sucesso os circuitos nacionais de cross, o nosso clima era o mesmo de hoje e ao que me consta a África, que vem dominando a modalidade há mais de 15 anos, sempre teve clima semelhante ao nosso.

Realmente nada acontece por acaso.

Agora nos cabe aproveitar os exemplos e não admitirmos e acreditarmos que nosso sucesso na década de 90 seja casual e não tenha sofrido forte influência das nossas disputadas provas de cross e nas competições internacionais de nossos atletas nesta modalidade. Os fatos demonstram que existe uma extrema correlação entre eles. Vamos começar a trabalhar para voltarmos a ter os sucessos internacionais da década de 90. Alias, vou começar assim que terminar de escrever esta coluna. Aliás, o fato de escrever sobre o assunto não deixa de ser um início. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer, vem vamos embora que esperar não é saber.”

Este texto foi escrito por: Sergio Coutinho Nogueira

Redação Webrun

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