• Obesidade pode não ter relação com excesso de calorias

Obesidade pode não ter relação com excesso de calorias

As calorias podem não ser o único fator relacionado à obesidade (foto: Ronny Stephan/ Stock.Xchng)
As calorias podem não ser o único fator relacionado à obesidade (foto: Ronny Stephan/ Stock.Xchng)

Tem uma anedota que diz que um bêbado se arrasta debaixo de um poste de luz procurando suas chaves perdidas e, quando perguntam a razão daquilo, o homem responde que apenas procurava ali porque era o único local iluminado. Na nutrição e em muitas outras atividades acontece algo semelhante.

Quero retomar meu artigo anterior, quando falei sobre as enormes dúvidas lançadas sobre a preocupação do colesterol na alimentação, num momento que ainda há enormes dúvidas da relação taxas de colesterol e risco cardíaco. Hoje, se analisarmos com mais cuidado os estudos pioneiros, descobrimos que os povos com baixa incidência de doenças cardíacas tinham um baixo consumo de gordura animal e apresentavam uma pequena ingestão de açúcares.

Mas se o nosso foco está apenas em achar mais evidências dessa relação duvidosa entre colesterol e algumas cardiopatias, ficaremos como o bêbado, restringindo nossa busca, ignorando os demais fatos que contradizem essa teoria e buscando somente exemplos que a confirmem. No livro “Good Calories, Bad Calories” (sem lançamento no Brasil), o autor Gary Taubes toca em outro vespeiro sobre uma teoria muito em evidência na nutrição, a que “uma caloria é sempre uma caloria, independe de onde venha”.

De acordo com esta tese, não importa se a caloria ingerida vem do bacon, de uma ameixa ou do uísque, pois nosso peso seria resultado de uma questão aritmética: se ingerimos mais do que gastamos, engordamos, do contrário, emagrecemos. Atualmente aceitamos bem a ideia que a genética pode definir nossa altura, nossa cor e até nossas qualidades, mas não conseguimos aceitar que ela possa definir nosso peso.

Também compreendemos que uma pessoa anoréxica não consiga se enxergar magra, mesmo no alto dos seus 45kg, mas não passa pela nossa cabeça que um gordo não se veja… gordo! Se eu tenho 1,83m de altura independente do que coma, por que não posso ter meu peso também definido geneticamente? Este é o problema, não aceitamos que um gordo não enxergue estar (muito) acima do peso e condenamos quem não consiga emagrecer.

Sempre atribuímos o sobrepeso à falta de força de vontade ou de cuidado da pessoa. O sobrepeso passa a ser uma escolha, uma fraqueza, um defeito de caráter, não uma questão também genética. Mas a maior novidade apresentada por Taubes é a incrível sequência de estudos que provam que nos casos de obesidade não há relação entre restrição calórica e sobrepeso. Ou seja, o ganho de peso NÃO seria consequência de maior ingestão calórica, seria praticamente uma CONSEQUÊNCIA da obesidade.

A questão é tão polêmica e tão diferente daquilo que temos como regra que fica difícil sequer entender seu ponto. Taubes mostra como a pessoa primeiro engorda e só então come mais. O que o autor faz em centenas de páginas é obviamente impossível de resumir em alguns parágrafos aqui, mas o achado genial de sua obra é mostrar que por décadas a Nutrição se atrapalhou ao ver as consequências de diversos regimes, confundindo restrição calórica com restrição de carboidrato ou de gordura.

Resumindo, ele mostra baseado em estudos, que a enorme restrição de carboidratos (não mais do que 200cal por dia) associada a um livre consumo de gordura e proteína é o jeito mais eficaz de reduzir peso em obesos. A resposta é porque nosso corpo de alguma forma bloqueia a perda de peso quando consumimos carboidratos (400cal ou mais).

A obra de Taubes é essencial para que mudemos COMPLETAMENTE muitos conceitos equivocados sobre alimentação, seja passando por absolvição da gordura, bem como sobre a redução do consumo de açúcar e farinha de trigo. Ele ainda mostra como as dietas deveriam ser totalmente reformuladas, pensando em termos de carboidratos e gordura/proteína, não mais importando a questão calórica. A verdade é dolorosa, a imensa maioria dos estudos de dietas foi muito mal feita.

É quase impossível discordar dos argumentos do autor, mas vale lembrar que infelizmente a discussão se apóia quase exclusivamente em casos de obesos mórbidos, não pessoas apenas com sobrepeso, além de ignorar questões comportamentais, como o acesso aos alimentos calóricos. Independente dessa “janela”, o médico e o nutricionista saem muito enfraquecidos da história, porque hoje as profissões se sustentam em muito “achismo”, observações mal feitas e pouca ciência.

Este texto foi escrito por: Danilo Balu

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