Parapan: confira entrevista com Diego Madeira

Diego durante treino em pista (foto: Fernando Aranha)
Diego durante treino em pista (foto: Fernando Aranha)

O atleta paraolímpico Diego Lucas Madeira, natural de Criciúma (SC), será um dos representantes brasileiros do Parapan-americano do Rio de Janeiro. Na categoria T53, corrida com cadeira de rodas, o jovem de 20 anos mostra que as adversidades da vida não são empecilhos para a busca de sonhos.

Portador de mielomeningocele, má formação congênita, que Diego gosta de chamar de “erro de fábrica”, ele apreendeu a conviver com sua deficiência. Os esportes o tornaram mais ativo e até chegar no atletismo, sua atual modalidade, ele já passou por futebol, basquete e jiu-jitsu.

Hoje Diego é atleta da Associação Desportiva para Deficientes (ADD) e mora longe da família em São Paulo. No último mês, ele participou da etapa Porto Alegre do Circuito Caixa de Atletismo e surpreendeu a todos com seu jeito irreverente de ser, inclusive o meu. Confira a entrevista com Diego e entenda o porquê:

Webrun – Como sua família lidou quando descobriu que você era portador de uma doença congênita?
Diego Madeira – Minha família, assim como quase todas as pessoas que eu conheço não foram preparadas para ter uma pessoa portadora de deficiência em casa. Na verdade acho que ninguém está. Como primeiro neto de uma família de cinco filhos, eu ficava no centro de uma pequena disputa de um lado, a superproteção e “mimos” de outro a tentativa (frustrada) de fazer minha perna esquerda desenvolver.

Webrun – Como foi sua infância?
Diego Madeira – Eu nunca consegui ficar parado. Eu fiz tudo que uma criança faz. Brinquei de pega-pega, esconde-esconde e jogava futebol, como goleiro no time dos meus primos. Acho que minha infância foi mais do que mais normal, dentro das possibilidades.

WR – E na escola?
DM – Eu tive a honra de estar a maior parte da minha vida estudantil na Escola de Ensino Básico Engenheiro Sebastião Toledo dos Santos. A escola carregava o título de única instituição de ensino preparada para receber alunos com deficiência e isso de fato não deixava de ser verdade. A escola tem ótimos, talvez os melhores, professores para cegos, surdos e mudos. Mas para deficientes físicos a escola não estava preparada.

Eu estudei no segundo andar, com piso que não era anti-derrapante, as quedas eram iminentes. As escadas nunca foram barreiras tão grandes, mas mesmo assim me deixaram marcas, ainda tenho um galo gigante na cabeça e um dente quebrado. Tive ótimos professores lá e tenho boas recordações dos tempos de colégio.

WR – Como se virou na época de adolescente? Sofreu preconceito?
DM – Assim como a minha infância, a adolescência não teve maiores problemas. Eu tive a sorte de ter grandes amigos que me ajudaram a passar por cima dessas barreiras. Como todo e qualquer adolescente eu também tive a minha banda de rock a Dyskagem Dyretta, eu namorei, fiz várias cagadas (risos).

WR – Como descobriu o esporte?
DM – Na verdade o esporte me descobriu. Aos nove anos eu estava jogando futebol com os amigos no meio da rua e um vizinho me viu no meio dos garotos com muletas. Ele me chamou para jogar futebol com uma galera, que assim como eu, era deficiente. Comecei no futebol de salão (les otres).

WR – E porque decidiu pelo atletismo, corrida?
DM – Na época além de futsal, jogava ou tentava o basquete e ainda o atletismo, que foi onde eu me identifiquei mais. Tinha alguma coisa na pista que me acalmava. Em 1999 vi uma cadeira de rodas, daquelas hiper antigas, originalmente era uma de quatro rodas, adaptada para três rodas. Estava parada, cheia de teia de aranhas. Conversei a técnica da JUDECRI (entidade de portadores de deficiência física de Criciúma), Marina Nakagaki, sobre a possibilidade de usá-la. Fizemos algumas alterações e adaptações (a cadeira não tinha as minhas medidas, como uma cadeira de rodas de atletismo deve ter) e comecei a treinar atletismo.

WR – Quando foi a sua primeira competição?
DM – Em 1994 eu fui assistir uma competição de basquete em Joinville/SC, três meses depois ainda correndo em cadeiras de basquete participei da minha primeira corrida de cadeira de rodas. Fiquei em último.

WR – Qual prova você sonhe em competir?
DM – Acho que todo corredor cadeirante gostaria de correr a Maratona Internacional de OITA no Japão, o Mundial e a própria Paraolimpíadas, que será em Pequim na China em 2008.

WR – Como você vê a atual situação do paradesporto no Brasil?
DM – Estamos tendo progressos, está melhor que há um tempo atrás, mas não é o ideal ainda. Na minha opinião é gasto muito dinheiro com algumas coisas que talvez nem sejam tão importantes, e com outras essenciais, é economizado. Por exemplo, um tempo atrás eu tinha a impressão que os dirigentes das competições literalmente COMPRAVAM a gente hospedando-nos nos melhores hotéis do Brasil (onde gastam a maior parte do dinheiro) e os locais de competição, (onde eles economizam) eram completamente despreparados para receber uma competição paraolímpica. Instalações, acessos etc., isso melhorou um pouco, mas ainda pode ficar melhor.

WR – Se você pudesse, por passe de mágica, realizar alguma coisa o que seria?
DM – Mandar um caminhão de TOP END´s versão 2008 para o Brasil. (A Top End é uma marca norte-americana de cadeiras de competição. Essa cadeira de atletismo é uma das mais utilizadas pelos grandes atletas do mundo, além de ser considerada a “fórmula 1” das cadeiras de rodas).

Este texto foi escrito por: Carlos Oliveira

Redação Webrun

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