Relato: a Maratona de Dublin do ponto de vista de um staff

O público enfrenta as baixas temperaturas para incentivar os corredores (foto: Infomatique/ William Murphy/ Creative Commons)
O público enfrenta as baixas temperaturas para incentivar os corredores (foto: Infomatique/ William Murphy/ Creative Commons)

No último dia 27 de Outubro o colunista do Webrun Danilo Balu participou como voluntário de uma Maratona em Dublin, na Irlanda, e conta as diferenças e semelhanças da organização de uma prova no país bretão e no Brasil. Bacharel em Esporte pela Universidade de São Paulo (EEFE-USP) e também graduado em Nutrição (USP), Balu mora há seis meses em Dublin.

Dublin – No último dia 27 de Outubro, sexta-feira, feriado local na Irlanda, aconteceu a mais importante maratona do país, a Maratona de Dublin. Morando aqui há seis meses e tendo trabalhado no Brasil muito tempo com corrida de rua, decidi acompanhar. Uma pena que por causa do meu trabalho por aqui esta tenha sido a primeira corrida que pude assistir in loco. Diferentemente do Brasil, aqui são voluntárias as pessoas que você vê ao longo do percurso de uma corrida de rua controlando público e o tráfego enquanto saúdam os atletas. E eu fui lá ser um deles!

Como ex-sócio de uma grande assessoria esportiva em São Paulo, eu costumava dizer que esse serviço de treinamento é tipicamente brasileiro e sem igual fora do país. Aqui na Irlanda também não há assessorias. Quem quer correr busca um “running team”, que conta sempre com um ou mais treinadores. O associado paga uma anuidade em torno de 150 euros (cerca de R$ 400) para usufruir uma pista de atletismo de altíssima qualidade, treinos diários, mas sem apoio em dias de prova/competição. Outra diferença que observo é que essas pessoas parecem ter um caráter mais competitivo com seus recordes e metas pessoais, importando bem menos o caráter social e festivo do treinamento. Não há água, isotônico, frutas, colchonete, massagem… é treino mesmo!

E foi treinando em uma dessas equipes que me convidaram para trabalhar como voluntário na corrida. Não há pagamento em dinheiro para nenhuma pessoa física, mas a marca patrocinadora oferece um pequeno pagamento em dinheiro para a equipe que levar 15 ou mais voluntários. Mas isso é o que menos importa pra todo mundo.

Por causa do forte frio do outono irlandês a corrida começa às 9h, mas o trabalho obviamente começa bem antes. A organização nos distribui pelos pontos mais críticos, mas o grosso mesmo fica na milha final. Como a maioria ainda se lembra, o padre que agarrou o Vanderlei Cordeiro na Maratona dos Jogos Olímpicos de Atenas (2004) era irlandês. Se ele ainda quisesse algo parecido aqui conseguiria facilmente, já que não há os famosos gradis para separar o publico dos atletas! Por vários momentos tínhamos que solicitar mais espaço a quem corria. Mas nada de mais grave ou que atrapalhe os atletas.

Não espere moleza! 42,2 quilômetros nunca são fáceis, mas nesta maratona a organização não faz questão de um percurso plano. Além do frio, infelizmente o atleta não passa pelos pontos mais conhecidos da cidade. Para compensar, estão lá no trajeto uma passagem pelo mais queridinho parque da cidade, o St Stephen’s Green Park. Você também irá se aventurar pelo gigante e quase montanhoso Phoenix Park (o Ibirapuera de Dublin) que é o maior parque urbano da Europa. E você irá terminar perto da largada no muito bonito Merrion Square.

Na edição deste ano São Pedro resolveu dar uma mãozinha tirando a chuva e a garoa que são praticamente diárias aqui em Dublin. O frio não é algo assustador se você é de São Paulo, ou se já correu a Maratona de Porto Alegre, por exemplo. A diferença que notei mesmo foi que ao final da corrida os atletas vinham falar e conversar conosco.

Em minha equipe havia uma americana de Nova York como voluntária (há voluntários de vários lugares) e atletas de várias partes vieram pessoalmente nos agradecer pela ajuda, apoio e incentivo, já que sabem que estamos lá por vontade própria sem receber dinheiro por isso. Essa é sem dúvida a parte mais gratificante!

A prova contou nesta edição com 11.700 corredores. Vi muitos corredores da Escandinávia, canadenses, americanos de Boston (reduto irlandês nos EUA), muitos franceses e italianos. Vi também dois brasileiros com camisetas de assessorias paulistas. E é muito legal também ver que naquele frio muitas pessoas saíam de suas casas para aplaudir e gritar pelos corredores. E do ponto de vista de organização, achei muito interessante saber que para esta prova, antes deste grande dia, eles organizam também outras três corridas durante o ano, criando um desafio (challenge). As corridas são em distâncias crescentes começando, em Junho com uma corrida de cinco milhas (8km), semanas depois uma de 10 milhas (16 quilômetros) e depois uma Meia Maratona antes do atleta encarar os 42km. Durante esse tempo a pessoa conta com palestras e treinos virtuais gratuitos para não chegar na Maratona sem orientação.

Ano passado, enquanto ainda trabalhava para esta mesma empresa no Brasil, pude conversar umas três vezes com o organizador, que ao falar comigo mostrava um orgulho diferente e sincero por organizar algo do tipo. Provavelmente ele é corredor e entende bem como funciona. E ele estava ainda mais empolgado porque havia acabado de fechar a renovação do patrocínio por três anos! Quase impensável algo do tipo no Brasil!

No final do dia, após conversar com muitos atletas, bater fotos com alguns outros, incentivar outros tantos e dar muita risada com o Homem-Tucano correndo lado-a-lado de um copo gigante de cerveja, recebemos algo que eu não esperava. Uma medalha. Se fosse a mesma medalha dada aos maratonistas nem receberia, pois não seria justo. Mas era uma medalha toda trabalhada dentro de uma moldura especial com palavras de agradecimento pelo trabalho voluntário.

Agora é voltar aos treinos encarando o frio daqui para poder relatar alguma prova do ponto de vista de quem está correndo. Aí volto aqui no Webrun para contar mais!

Este texto foi escrito por: Danilo Balu

Redação Webrun

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