São Silvestre: um caso de amor e ódio com os corredores

A largada em meio à muvuca é um desrespeito ao corredor (foto: Harry Thomas Júnior/ www.webrun.com.br)
A largada em meio à muvuca é um desrespeito ao corredor (foto: Harry Thomas Júnior/ www.webrun.com.br)

Estamos a poucos dias da mais tradicional corrida pedestre do país, a Corrida Internacional de São Silvestre. Se você participa de corridas de rua com freqüência, mas assim como eu este ano não irá participar da prova, é bom ter na ponta da língua uma boa justificativa. Isso porque, muita gente do seu ciclo de amizades que não corre, ficará desapontada e até indignada com sua resposta negativa, afinal, na cabeça de quem não pertence ao universo da corrida, como pode alguém treinar quase todos os dias e não participar da mais famosa corrida do país?

Aliás, a pergunta mais feita nesta esta época do ano por não corredores a corredores, é disparada se a pessoa vai ou não correr a São Silvestre. Se a resposta for positiva, muita gente irá perguntar quais são suas reais chances de vencer a prova, mesmo que você tenha outra profissão, que não possua qualquer biótipo de corredor e que corra simplesmente para se divertir ou cuidar da saúde.

São vários os fatores que tornam a São Silvestre uma corrida tão badalada. Dentre deles, o fato de estarmos na 86ª edição, dela acontecer justamente no último dia do ano, dia em que muitos de nós tradicionalmente encerramos velhos e iniciamos novos ciclos, mas, sobretudo, à já tradicional transmissão da Rede Globo de Televisão, que neste dia alcança seu melhor pico de audiência quando o assunto é corrida de rua. Isso faz com que muitas pessoas não ligadas à corrida acabem acompanhando o evento e tendo algum envolvimento.

Outro fator muito positivo da São Silvestre, é que ela acaba virando um bom desafio a muitos sedentários, que motivados pelo objetivo de uma vida mais saudável, de um corpo mais esguio, ou até por apostas feitas entre os colegas, acabam tendo como completá-la um excelente pretexto para fechar o ano com chave de ouro e daí por diante começar uma nova vida. Como treinador, diria que já ouvi histórias de pessoas que começaram a correr ao ver aquela multidão correndo pela TV ou a emocionante vitória de um brasileiro sendo comemorada ao som de nosso magnífico Hino Nacional.

Mas infelizmente a São Silvestre não é somente glamour. Eu seria muito omisso se deixasse de dizer que aquela largada que a TV mostra como algo muito legal, é um verdadeiro tormento para quem treina com dedicação e corre pensando em fazer um bom resultado. Aquela largada lotada é um desrespeito ao consumidor que paga caro por uma inscrição e maior desrespeito ainda com as mulheres, que agora largam junto com os homens e ficam ali espremidas como gado no meio da multidão. Confesso que não recomendo essa muvuca toda a atletas, colegas, namorada, esposa, filha ou quem quer que seja. Hoje em dia, recomendo sair lá no fundão, esperar os 20 mil correrem por algum tempo e só então iniciar a corrida, de forma descomprometida e sem qualquer tipo de pretensão que não seja diversão, pois para correr sério definitivamente não dá.

Ame-a ou deixe-a – E não é só a largada que é ruim e faz com que os corredores mais experientes acabem excluindo nossa tão tradicional corrida de seus calendários. Em dias de muito calor, muito comuns nesta época do ano, sobretudo em torno das 17h, hora da largada, em muitos dos pontos a água servida costuma estar muito quente, o que prejudica completamente o desempenho dos participantes. Já ouvi várias vezes a organização se defender dizendo o contrário, mas o fato é que a maioria dos corredores já provou aquela água, sobretudo no ponto próximo ao viaduto do Pacaembu, onde um pacotinho de chá sacado do bolso daria um belo de um mate quente!

No mais, o percurso muito difícil e o clima muito quente, acabam tornando a prova ainda mais desafiadora. Aquela multidão toda nas calçadas torcendo ou tirando sarro é algo muito bom e infelizmente ainda não tão comum nas demais provas pelo país. A farra que fazem todos aqueles personagens fantasiados torna a corrida algo indispensável ao curriculum de qualquer corredor brasileiro. Vencer a temida subida da Brigadeiro, entrar na Avenida Paulista, avistar de longe o tão desejado pórtico de chegada e depois cruzá-lo, provocam um conjunto de sensações e emoções difíceis de serem descritos!

Tanto no Brasil, quanto fora, há muitas outras provas melhor organizadas e onde o corredor é muito mais bem tratado, o que justifica o fato da maioria dos corredores mais experientes evitarem a São Silvestre. Mas, sem dúvida é uma grande diversão e uma boa meta poder fechar o ano numa das maiores festas do atletismo brasileiro. Tanto que conheço muita gente que só participa desta prova durante o ano inteiro, mesmo tendo mais de 500 outras pelo país, e ainda gente que reclama de tudo ao terminar, mas que não vê a hora de abrirem novamente as inscrições para no dia 31 de dezembro do ano seguinte.

Diz uma frase muito interessante do departamento de marketing de uma grande empresa brasileira: “quem compete somente com preço e qualidade sai perdendo. Ganha aquele cujo produto virá objeto de desejo.” E a São Silvestre é isso aí. Ame-a ou deixe-a!

Este texto foi escrito por: Nelson Evêncio

Redação Webrun

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