Corrida proporciona sensações que podem ajudar no tratamento da Síndrome do Pânico

“O pior momento que já tive na vida. É uma sensação física, semelhante a um infarto e que sempre te pega desprevenido. A minha veio sem motivo aparente, fui parar no hospital cinco vezes antes de ter certeza que era um problema psiquiátrico e não puramente físico. Só após dois anos com a doença fui ao psiquiatra, por puro preconceito”, conta uma vítima da Síndrome do Pânico.

Muitos podem se identificar com o relato acima, já que a crise é caracterizada por ataques de ansiedade aparentemente desproporcionais a partir de ameaças presentes ou imaginárias. O psicólogo do esporte e doutor em análise de comportamento, Eduardo Cillo, explica que o surgimento da síndrome costuma estar atrelada a ocorrência de um episódio inicial, que tenha despertado fortes sensações de ansiedade e desconforto.

Foto: Jakub Krechowicz/Fotolia
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Um acidente ou episódio de violência pode acarretar a primeira situação e posteriormente, circunstâncias semelhantes podem despertá-a. “Em geral, o sistema nervoso autônomo passa a funcionar de maneira que o ramo simpático (que energiza e prepara o organismo para a ação) dispare de forma contínua e intensa, aumentando a frequência cardíaca e diversas outras funções corporais, levando assim algum tempo para que o organismo se restabeleça e o desconforto acaba persistindo por um tempo”, explica Eduardo.

Reações

É importante destacar a imprevisibilidade das ameaças e alterações no foco de quem sofre da Síndrome. Dada a intensidade das reações corporais é comum que a pessoa passe a ficar muito sensível a elas e, isto por si só, já se configura em um fato para o aumento da ansiedade. Neste caso o indivíduo se torna hiper vigilante quanto às alterações no próprio organismo.

Eduardo explica que é por esse motivo que a produtividade cai e os relacionamentos de quem possui a síndrome ficam prejudicados, já que o indivíduo acaba perdendo detalhes importantes do ambiente a sua volta.

Corrida X Síndrome do Pânico

O treinamento de corrida pode auxiliar, e muito, as pessoas que apresentam este quadro. Tanto do ponto de vista da regulação do funcionamento do sistema nervoso autônomo, quanto do controle do foco de atenção. “Há benefícios importantes no envolvimento com o treinamento de corrida”, diz o psicólogo.

Em primeiro lugar o corredor precisa se envolver em uma rotina de atividades que despertam diferentes reações corporais, no que se refere aos níveis de ativação.

“Realizar um treino intervalado é diferente de um longão, por exemplo. O treino intervalado intercala momentos de alta com baixa ativação, proporcionando ao praticante a observação de reações corporais intensas, assim como a recuperação. Este é um baita treino de auto observação, o qual é muito útil para aprender a ter auto controle quando uma crise de pânico está começando”, indica Eduardo.

Bruno Melo, autor do primeiro relato desse texto, conta que a corrida o deixou mais centrado. “O início é difícil porque as sensações que você tem quando corre até parecem um pouco com as do pânico, mas quando isso passa é uma ferramenta essencial para regular os passos”, diz.

Foto: SolisImage/Fotolia
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Outro benefício direto da corrida é o efeito dos treinos sobre o sistema nervoso autônomo e a regulação que este faz sobre o funcionamento do coração. “O exercício sadio da corrida produz um equilíbrio do funcionamento dos ramos simpático e parassimpático, tornando o organismo mais adaptado aos estímulos estressores. Além disso, a corrida exige atenção aos estímulos externos, obrigando o praticante a alternar o foco de atenção entre as sensações corporais e tudo o que estiver ocorrendo a sua volta como obstáculos, pista, ou outros corredores”.

Estar presente

O treinamento mais importante e predominante na corrida é a necessidade estar presente. Sendo assim isso pode ser exatamente o que a pessoa com síndrome busca, já que muitas vezes o desencadeador da mesma é a imaginação ou lembrança de ameaças já ocorridas.

A medida que o corredor progride nos treinamentos, as conquistas passam a se sobrepor a sensação de incontrolabilidade da Síndrome do Pânico. Este fato por si só já tem um enorme valor.

O psicólogo alerta que a corrida pode se tornar uma ferramenta auxiliar de grande valor, mas não substitui a necessidade da realização de acompanhamento psicoterápico. Bruno conta que passou a tomar remédios, mas que as atividades físicas tornaram-se um complemento perfeito.

Foto: flaviorossato/Fotolia
Foto: flaviorossato/Fotolia

“Passei a executar alguns exercícios de habituação às situações de gatilho. Outra técnica bem legal é meditação, eu inclui o Mindfullness e assim consigo manter uma rotina pesada e cuidar da ansiedade. Já fazem cinco anos desde a primeira crise séria e hoje aprendi a lidar com poucos escapes que ainda tenho, são fracos e não atrapalham. Apesar de ainda não ter largado completamente os medicamentos a corrida se mostra um aliado perfeito para esse processo”, finaliza.

Christina Volpe

Christina Volpe

Comecei como corredora, depois me tornei jornalista e repórter do Webrun. Hoje sou editora e convivo diariamente com o esporte há 3 anos. Meu coração bate mais forte toda vez que um atleta conquista seu objetivo, uma corrida acontece e assisto uma competição emocionante. Sempre estou aprendendo e dando meu melhor.

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