Sonho frustado. Projeto reprovado. Programa ainda zerado

Todos pensamos, um dia, em poder assistir ao vivo uma Olimpíada. Isso mesmo para os não tão ligados aos esportes, pois, sabidamente este é o maior de todos os eventos, tanto que verdadeiros recordes de audiência e de publico são sistematicamente quebrados.

Felizmente, tive a oportunidade de estar presente em dois Jogos Olímpicos, o de Atlanta – que apesar de não ter tido o brilhantismo que se esperava, para mim já foi uma grande emoção ter estado presente como platéia – e o de Sidney – que foi um espetáculo e show em todos os aspectos, ainda mais por ter tido a honra de estar participando da delegação oficial do Brasil.
Mas milhões de brasileiros ainda querem ter a chance e a oportunidade de vivenciar esta experiência impar, quer seja como voluntário, como público, enfim, de alguma forma.

Vivemos o sonho, ou fantasia, obviamente fracassada do Brasília 2000, a da experiência anterior, também recusada, do Rio como candidata. Agora, novamente fomos colocados à margem do processo, não entrando sequer para as cinco candidatas finalistas. Mas se muitos se frustaram com a impossibilidade de realizar o sonho a curto ou médio prazo, se meditarem ou refletirem, verificarão o acerto da decisão. Temos como cidades finalistas: Paris, Madri, Londres, Nova Iorque e Moscou, exatamente nesta ordem pelas notas classificatórias nesta fase.

Observando as notas obtidas pelo Rio, pode-se questionar uma ou outra, mas, em nenhuma hipótese, pode-se alegar que temos condições superiores, na atual conjuntura, do que qualquer uma das classificadas. E, note-se bem que entre os critérios não consta uma avaliação do Programa Esportivo do País.

Neste caso, não seriamos a antepenúltima cidade entre as 9 participantes e, sim, seriamos desclassificados pela simples falta de um Programa de Esportes. Por incrível que pareça, o Brasil não dispõe até o momento de nenhum Programa Governamental que atenda este importante setor.

As únicas declarações oficiais dignas foram as do presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, que admitiu achar válido o Comitê Olímpico Internacional ter incluído o critério de viabilidade de realização do Projeto como quesito e reconheceu que o Rio precisa melhorar o transporte e o meio ambiente se quiser partir para outra eventual futura candidatura. Aliás, Nuzman pode ser questionado quanto à forma por alguns, mas ninguém pode lhe negar os resultados obtidos quer à frente da Confederação de Vôlei, quer à frente do COB. Ele, graças à Lei Piva e ao seu trabalho, conseguiu melhorar a situação do Esporte de Alto Rendimento. Tanto, que depois da implantação dos benefícios desta Lei, algumas modalidades deram um verdadeiro salto em competitividade internacional e o que vem vivendo a ginástica não deve ser lembrado apenas pelos saltos, força e ritmo da fenomenal Daiane dos Santos e, sim, pela evolução de todo o conjunto, numa demonstração de que quando se quer, com pouco se consegue chegar lá.

Nuzman sabe que em termos de Programa de Esporte estamos zerados. Teve o mérito de salvar o Alto Rendimento, pelo menos o das modalidades que têm a projeção internacional por meta e a seriedade por postura.

No atletismo, os Programas de iniciação e desenvolvimento não recebem qualquer apoio, incentivo ou amparo do Governo Federal. Chegam até a ser ignorados ou desconhecidos. No Rio dependem do apoio do Bingo Arpoador (e hoje o apoio dos bingos não pode ser considerado como definitivo quando até os próprios têm sua existência contestada). Em São Paulo a Orcampi, que é a campeã estadual das categorias menores, recebe apoio de empresas como Unimed Campinas, DPaschoal, West Plaza e BHS Helicopter Táxis Aéreo muito mais pelo aspecto social do que propriamente desportivo. O mesmo vale para a Ong Symap com seus apoiadores. Outros programas dependem basicamente de apoios de Prefeituras e de algumas empresas locais, como é o caso da Ass. Toniello, de Sertãozinho. E nada de apoio ou reconhecimento do Governo Federal. Nem vamos falar dos outros Estados, sobretudo os menos industrializados, quando, por falta de apoio, o atleta se vê entre a ‘Cruz e a Espada’, ou seja, abandonar o esporte ou se transferir precocemente para os Estados mais desenvolvidos, abandonando, muitas vezes, antes do momento correto sua terra natal, suas raízes e sua família.

A nota negativa foram as declarações do ministro dos Esportes, Agnelo Queiroz, protestando pela eliminação do Rio e alegando a decisão como política, insinuando manobras de bastidores. Sugerimos ao ministro que faça uma autocrítica e pense exatamente no que fez pelo esporte nestes quase 18 meses que está à frente do Ministério. Aliás, nem precisará pensar muito, pois pouco fez em termos de implantação de um verdadeiro Programa de Esportes, afinal viajar e patrocinar eventos de grande porte não pode ser considerado neste quesito.

Esta história me lembra a de uma rainha da França, Maria Antonieta, que quando soube que o povo estava com fome, pois não havia pão, disse para servir-lhes brioches como se fosse a sua salvação. O nosso ministro, quando perguntam pelo Programa, costuma citar os eventos. Uma história, sabemos o final. A outra, ainda não.

Este texto foi escrito por: Sergio Coutinho Nogueira

Redação Webrun

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