Técnicos e ex-maratonista olímpica comentam rigidez de índice feminino

Henrique Viana acredita que tempos mais rápidos demonstram acerto no índice (foto: Moises Pregai/ Revista SuperAção)
Henrique Viana acredita que tempos mais rápidos demonstram acerto no índice (foto: Moises Pregai/ Revista SuperAção)

O Webrun conversou com dois treinadores em lados opostos e com uma ex-maratonista que representou o Brasil em três Olimpíadas para aferir se o índice exigido pela CBAt para a Maratona Olímpica feminina (2h30min07) realmente era rigoroso demais.

Apenas uma maratonista brasileira se classificou aos Jogos Olímpicos de Londres. Adriana Aparecida da Silva será a representante nacional, sendo que outras duas conseguiram o índice A da Iaaf (Associação Internacional das Federações de Atletismo).

Marca dura– “Fizeram um índice para não levar ninguém”, acusa Márcia Narloch, que representou o Páis em Barcelona-92, Atlanta-96 e Atenas-04. “A gente quer melhorar o atletismo para a Olimpíada aqui no Brasil, mas monta critério que pode até desestimular a atleta. É um índice muito distante de ser atingido, 2h35 já estaria bom”.

Para Gilmário Mendes, treinador de Marily dos Santos que assim como Cruz Nonata fez o índice A da Iaaf a decisão deveria ser revista. “Não há revolta quanto ao critério, mas acho que com mais maratonistas correndo em Londres o Brasil teria maior probabilidade de formar fundistas de qualidade para 2016”, comenta.

Evolução?– Sobre o índice ter como objetivo forçar o desenvolvimento dos atletas brasileiros (as marcas equivalem a uma média da 12ª colocação nas três últimas principais competições da Iaaf), Gilmário acredita que a evolução já foi alcançada e que tanto Cruz como Marily poderiam ter bom desempenho em Londres.

“Vão dizer que é porque treino ou porque sou esposo da Marily, mas acredito que chegaríamos em 2016 com uma cultura maratonista mais forte”, complementa. Márcia Narloch concorda. “Como maratonista de três Olimpíadas, quero ver três atletas lá. Não quero assistir a prova, darem a largada e não ver nenhuma brasileira”.

A ex-atleta pertence ao restrito grupo de compatriotas que correram uma maratona abaixo de 2h30 na história, ao lado de Carmen de Oliveira e, agora, de Adriana Aparecida da Silva. “Fico triste pelas meninas, com certeza poderiam ir as três. Correr como correram e ficar de fora é difícil, desestimula muito”, diz Márcia.

Alta temperatura– A prova das Olimpíadas será disputada no verão londrino. Segundo Gilmário, isso favoreceria corredoras acostumadas a altas temperaturas, como Marily (que treina na Bahia) e Cruz (que treina no Centro-Oeste). “Não vai ser uma prova rápida, ninguém vai correr em 2h18, 2h20”, aposta.

Única mulher– Gilmário acrescenta que ser a única mulher brasileira na prova não será saudável para Adriana. “A Marily pode dizer como não foi legal para ela ir sozinha em 2008. Na época, torceu para que outras fossem, porque elas poderiam treinar juntas, trocar um pouco desse nervosismo antes da corrida”, exemplifica.

Na próxima página, um treinador membro do Conselho Técnico da CBAt justifica o índice estabelecido e Gilmário revela a opinião de Marily sobre a marca. Confira!

Contraponto– Henrique Viana, treinador da equipe Pé de Vento (RJ) e membro do Conselho Técnico da CBAt, que definiu os índices, não acredita em uma revisão da decisão. “O critério foi a média da 12ª marca nos 100m, 200m, 400m, 800m, 1.500m, 5.000m, 10.000m e maratona. Se mudarmos para a maratona feminina tem que mudar para todas as provas”, defende.

Viana ressalta que o índice foi construído justamente para estimular uma aproximação brasileira com os melhores do mundo. “O critério que se faz é em relação ao desempenho global, não brasileiro. Está forte para elas ou elas que estão correndo pouco em relação à elite mundial?”, esclarece.

Para o técnico, o índice foi justificado com a baixa nos tempos recentes de Marily e Cruz. “A evolução delas mostra que as brasileiras perceberam que tem que evoluir muito para ir para Olimpíada e Mundial”.

Gilmário conta que fez Marily parar em Barcelona quando estava em terceiro, porque o tempo estimado do final seria acima do índice. Assim, poderia se poupar para Pádua, onde a atleta baixou seu recorde pessoal em quase quatro minutos.

Ele revela que sua atleta pensa de forma semelhante a Henrique Viana. “A Marily me disse algo que eu não esperava: ‘Fiquei triste de não ir a Londres, mas o índice me fez melhorar o nível a um ponto que ainda não conhecia’. Mas nada impede de olharem o processo com atenção e reconhecer que duas conseguiram o índice A da Iaaf”, encerra.

Este texto foi escrito por: Paulo Gomes

Redação Webrun

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