Os tipos de corredores e seus desafios

Por trás das planilhas reside a grande complexidade da vida de um treinador de corrida: lidar com pessoas, no caso, corredores-clientes. Rotina de aprendizado diário, onde, confesso, mesmo após XX anos de carreira, felizmente ainda aprendo muito.

Lidar com pessoas de diferentes personalidades todos os dias é um dos maiores desafios de qualquer treinadores, se não o maior. Existem os mais inesperados perfis, sendo os mais desafiadores os questionadores, sonhadores e competitivos. Há uma linha tênue entre sucesso e insucesso onde o treinador deve transitar com extrema cautela e coragem.

 É muito bom treinar pessoas competitivas, pois elas são determinadas, disciplinada Foto: Doble/Fotolia
É muito bom treinar pessoas competitivas, pois elas são determinadas, disciplinada Foto: Doble/Fotolia

Pesquisar treinos na internet e consultar outros treinadores para avaliar o trabalho do próprio treinador é bastante comum entre alguns corredores que são questionadores. Na posição do treinador, a estratégia mais comum é fazer de tudo para agradar, afinal de contas, são corredores-clientes. Porém, é uma estratégia perigosa, pois muitas concessões são feitas neste relacionamento e não há trocas de experiências.

Pode-se acabar até colocando a eficiência do treino em segundo plano. Ou seja, o treinador sabe o caminho para levar o corredor-cliente a atingir seu objetivo, mas para não ferir a relação, abre-se outro mais difícil.

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Os sonhadores são pessoas inspiradoras, porém o treinador precisa trabalhar suas expectativas ao máximo. Geralmente esse corredor-cliente não apresenta um condicionamento físico ideal, mas sua determinação e vontade em atingir suas metas é insaciável.

O início dessa relação é muito boa, pois as primeiras metas são atingidas e a satisfação dos dois lados ainda está presente. A cada ano que passa as metas ficam mais difíceis de se atingir. Nesse cenário, surge a insegurança por parte do corredor.

Os sonhadores são pessoas inspiradoras, porém o treinador precisa trabalhar suas expectativas ao máximo Foto: SolisImages/Fotolia
Os sonhadores são pessoas inspiradoras, porém o treinador precisa trabalhar suas expectativas ao máximo Foto: SolisImages/Fotolia

Quem é que não gosta de atingir um bom resultado ou até mesmo bater um recorde pessoal? Sem dúvida nenhuma a sensação é maravilhosa. É muito bom treinar pessoas competitivas, pois elas são determinadas, disciplinadas e focadas em dar o melhor delas em seus objetivos traçados. Entretanto, a atenção deve ser redobrada, sendo necessária uma habilidade incrível do treinador em frear e controlar as ambições para que etapas não sejam puladas, pois o sucesso poderá ser efêmero em função de muitas lesões que possam surgir neste processo pela busca de resultados.

 Demorei muito para aprender que o melhor caminho é uma conversa franca com seu corredor-cliente. Nos três exemplos citados acima, a situação chegou a um ponto onde o melhor caminho é a sinceridade para assumir a dificuldade em suprir as necessidades e carências destes corredores. Os resultados de uma honesta conversa são surpreendentes e inesperadas. Todas as expectativas são alinhadas ou realinhadas e, a partir desse momento, o treinamento passa para estágios mais avançados.

Porém, o inverso também ocorre. Treinador e corredor seguem seus caminhos. Vejo isso por um ponto de vista positivo também. É normal o corredor não se identificar com linhas de trabalho e formas de pensar. Assim, é fundamental que ele encontre um grupo com que se identifique.

Todos esses anos de experiência, onde aprendi com erros cometidos, posso afirmar que ainda não sei como agir em certas situações, mas me esforço muito para a cada dia aprender mais e assim aprimorar a minha relação com meus corredores.

Existem os mais inesperados perfis, sendo os mais desafiadores os questionadores, sonhadores e competitivos Foto: WavebreakmediaMicro2/Fotolia
Existem os mais inesperados perfis, sendo os mais desafiadores os questionadores, sonhadores e competitivos Foto: WavebreakmediaMicro2/Fotolia

No Mundial de Atletismo, na Rússia, em 2013, uma imagem me emocionou muito. Foi quando a atleta russa do salto com vara Yelena Isinbayeva ganhou a prova e logo abraçou seu treinador – depois de ter passado por outros, a atleta estava novamente com o primeiro treinador de sua carreira. Isso mostra que se a relação for franca e sincera é possível esquecer desavenças fortalecendo ainda mais toda uma relação.

Esta minha coluna pode ser até bem polêmica, pois parece que ela está mais direcionada para treinadores de corrida e não leitores corredores. Mas se você pensar um pouco mais ela é direcionada para ambos, pois é importante conhecer também o outro lado da moeda.

Um feliz 2018 para todos os corredores que depois de ler esta coluna podem refletir, sobre como agir daqui para frente com seu treinador!

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Aulus Sellmer

Aulus Sellmer

Bacharel em Esporte pela Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFEUSP) com especialização em treinamento desportivo pela USP, marketing esportivo pela UCLA Berkeley EUA e administração esportiva pela FGV-SP. Atualmente é pos graduado no curso MBA Qualidade de Vida em Gestão Corporativa pela Universidade São Camilo; pos graduando no curso Fisiologia aplicada à clínica pela UNIFESP; proprietário da assessoria esportiva 4any1, colaborador da Rádio Eldorado FM 107,3 e revista Contra Relógio.

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