Todas as teorias do esporte funcionam na prática?

Já faz certo tempo que venho pensando em escrever sobre um assunto que gera muita polêmica entre nós treinadores, que convivemos diariamente com a prática, e os estudiosos, que elaboram as teorias para aprimorar a performance dos corredores.

Por que a prática do dia-a-dia, às vezes, é tão diferente da teoria? Eu já passei por diversas situações em que tive de readaptar o que aprendi e assim conseguir melhores resultados. Com a rapidez que as mudanças acontecem hoje, a todo o momento novas teorias aparecem e quando tomamos conhecimento, vemos que precisamos reavaliar o que sabemos naquele momento. Ou até mesmo ignorar essa nova teoria, pois o novo caminho pode estar sem fundamento.

A todo o momento nós treinadores somos questionados sobre diversas teorias e se estas devem ser aplicadas. Nesses últimos anos já passamos por várias polêmicas na corrida. Alongar antes ou depois, se preocupar mais com a intensidade ou volume de treino, se exercícios educativos são importantes para a eficiência do movimento, a importância da zona alvo de frequência cardíaca, os treinos em função da porcentagem da frequência cardíaca máxima, as formas de tratamento de lesões, entre outras teorias.

Certa vez um corredor me perguntou sobre um treino que gostaria de realizar e fui questionado se ele tinha condições de realizá-lo. A minha resposta foi bem simples. Não existe nenhum treino ou exercício proibido desde que esteja fisicamente pronto, e utilize a técnica correta para executá-lo. Você precisa ter uma técnica apropriada e níveis adequados de força, flexibilidade e outras qualidades físicas para realizar o treino ou determinado exercício. Caso tenha todos os pré-requisitos necessários, você nunca terá lesões ou qualquer efeito prejudicial. No entanto, se não está fisicamente pronto ou se não os executa corretamente, então aquele exercício pode ser perigoso para você. Se uma lesão ocorre é por causa da preparação física inadequada ou técnica incorreta de execução. Na verdade, não existe treino ou exercício proibido, e sim pessoas que não se encaixam a determinados exercícios.
Será que a corrida pode virar um vício?

Corredores precisam sempre reavaliar seus objetivos na corrida, não se esquecer que o corpo tem limites Foto: Astrosystem/Fotolia Corredores precisam sempre reavaliar seus objetivos na corrida, não se esquecer que o corpo tem limites Foto: Astrosystem/Fotolia

Um exemplo bem interessante é a teoria de correr com a ponta do pé, técnica utilizada pelos maratonistas quenianos. Ela consiste em não aterrissar com a base do pé, colocando todo o impacto na ponta do pé. Num treino fui abordado por um corredor que gostaria de ser adepto dessa nova teoria, na qual fui totalmente contra, pois toda a maneira como os africanos correm é um processo desenvolvido desde a base, isto é, o momento em que tiveram o primeiro contato com a corrida. E no caso, o corredor tinha apenas cinco anos de corrida, mais de 40 anos de idade, estava acima do peso e com uma performance regular. Reunidos, são fatores que não justificam uma mudança radical na sua eficiência na corrida. O resultado final seria, com certeza, uma lesão ao invés de um ganho de desempenho.

Outro exemplo interessante aconteceu com o calçado que simula o ato de correr descalço. Em uma coluna anterior já abordei esse assunto onde descrevi todo o processo de adaptação que passei levando quase dois anos para utilizar este tipo de tênis. Depois dessa análise e muitas horas de estudo, a conclusão é que o uso desse tênis depende de quantos anos de corrida, do peso corporal, da eficiência de movimento, dos objetivos nesse esporte, das lesões passadas, entre outros fatores.

Podemos resumir esta questão Teoria x Prática em uma única frase: Toda e qualquer teoria existe apenas para aperfeiçoar a prática. A rigor, toda e qualquer teoria comprovada serve para facilitar os caminhos, nos fazer evitar ou minimizar erros, nos guiar, nos dar o norte, nos fazer melhores. Mas não podemos ficar totalmente focados em uma única linha de trabalho, precisamos estar cientes do que acontece ao redor.

Portanto, nós treinadores precisamos nos atualizar através de muita pesquisa e muito estudo sem esquecer a experiência adquirida através da prática. Do outro lado, os corredores precisam sempre reavaliar seus objetivos na corrida, não se esquecer que o corpo tem limites importantes e que mudanças radicais nem sempre se traduzem em ganho de desempenho. Novas teorias precisam de um certo tempo para serem confirmadas como um novo caminho.

Cuidado e bons treinos!

Este texto foi escrito por: Aulus Sellmer

Aulus Sellmer

Aulus Sellmer

Bacharel em Esporte pela Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFEUSP) com especialização em treinamento desportivo pela USP, marketing esportivo pela UCLA Berkeley EUA e administração esportiva pela FGV-SP. Atualmente é pos graduado no curso MBA Qualidade de Vida em Gestão Corporativa pela Universidade São Camilo; pos graduando no curso Fisiologia aplicada à clínica pela UNIFESP; proprietário da assessoria esportiva 4any1, colaborador da Rádio Eldorado FM 107,3 e revista Contra Relógio.

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